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Sobre Cristianismo Puro e Simples

O cristianismo está ao alcance de todos, mas nós vivemos numa cultura que não apenas não é cristã, como investe pesado na construção de barreiras para nos impedir de compreender a fé cristã pelo que ela realmente é: um caminho verdadeiro para a vida. Todos nós temos uma vida espiritual, uma vida que não é meramente biológica. Esta cultura nos faz pensar que para ser a favor de uma devemos ser contra a outra. Nenhum sistema de crenças é tão rejeitado pelo mundo moderno quanto o cristianismo puro e simples, e uma das melhores formas de rejeitar a fé é associá-la com o que há de pior no homem.

Antes de tudo, devemos entender duas coisas sobre C. S. Lewis e seu objetivo com esse livro: 1. Lewis não está pregando para atrair membros para sua igreja, ele está falando de como é a vida sob a perspectiva da fé cristã, em contraste com a vida fora da fé cristã. 2. O sentido do termo “cristão” deve ser descritivo e não um simples elogio. No sentido profundo, não podemos julgar quem é realmente cristão e quem não é. Você pode ser um não-cristão cheio de qualidades, ou um cristão com poucas qualidades. O que importa é estar disposto a compreender o sentido da fé cristã para sua vida e a viver de modo consistente com suas crenças.

Livro I: O Certo e o Errado como chaves da compreensão do mundo.

Todos nós separamos o certo do errado. Alguém que diz que não existe certo e errado não consegue viver de acordo com isso. Sem certo e errado, nada do que fazemos tem qualquer sentido. A natureza humana é regida por leis naturais específicas do homem, que são chamadas de leis morais. A diferença entre as leis morais e as outras leis naturais é que elas só podem ser obedecidas voluntariamente. Uma pedra não tem escolha quando a soltamos no ar. Mas uma pessoa tem escolha entre fazer ou não fazer aquilo que a sua própria moralidade recomenda. Por isso o homem é capaz de experimentar a dúvida moral.

No livro Abolição do homem, Lewis debate sobres os valores tradicionais, universais e objetivos, que ele chama de Tao. Ele deixa claro que a religião judaico-cristã foi apenas uma das culturas que defendeu o Tao, dando sua própria interpretação para ele. As diferenças culturais, quando se trata das leis naturais, são superficiais. Em todas as culturas a moralidade humana parece ser regida por algumas leis comuns. Imagine como seria uma cultura que não se aproximasse nem um pouco do Tao. Provavelmente ela seria inviável. Se não existisse lei natural para limitar o comportamento humano, não poderíamos diferenciar o que é justo do que é injusto. Mesmo quando eu rejeito uma lei, eu a rejeito em vista de outra lei. Nunca consigo rejeitar tudo que faz parte do sistema moral.

Ninguém segue a lei natural à risca. Os erros fazem parte do aprendizado, mas só podem ser compreendidos enquanto erros quando há uma noção do que não é um erro. Eliminar a noção de erro seria querer eliminar o sentido da ação humana. Mas o sentido da ação não é definido por uma lista de coisas permitidas e uma lista de coisas proibidas. Todas as ações são geradas por impulsos, e não há impulsos humanos que são bons por si sós ou maus por si sós. A lei natural indica quando seguir um impulso e quando não segui-lo. Se a lei natural não levasse em conta o contexto, não exigiria ponderação. Da mesma forma, na música não existem notas que são em si mesmas boas ou más, mas sim notas que formam uma melodia e notas que são dissonantes em relação a essa mesma melodia.

A lei natural não é instintiva nem é equivalente ao instinto. Os instintos são cegos, competem entre si e precisam de uma força ordenadora. Ao mesmo tempo em que o instinto de preservação da espécie nos diz para salvar a vida de alguém, o instinto de auto-preservação nos diz para deixar outra pessoa fazer isso. Não escolhemos com base no instinto mais forte, ou não estaríamos realmente escolhendo. Sem a capacidade de seguir ou não seguir os preceitos morais, nós perderíamos nossa liberdade. Se fôssemos meramente seres movidos por impulsos ou pulsões nossa vida perderia o sentido: seria caminhar num espaço infinitamente vazio.

Os instintos podem ser despertados ou adormecidos, atiçados ou amortecidos. Se isso é verdade, então aquilo que dá vazão ou repreende um instinto não pode ser o próprio instinto, mas uma qualidade moral. O impulso não determina necessariamente o nosso comportamento, mas nós criamos dispositivos para facilitar ou dificultar a manifestação dos impulsos. Ser equilibrado é ter o poder de dizer não a um impulso forte, e sim a um impulso fraco. Por isso o senso moral não é a repressão dos impulsos malignos, mas a liberdade de escolher sem se sujeitar aos impulsos.

“A coisa mais perigosa que podemos fazer é tomar um impulso de nossa natureza como critério a ser seguido custe o que custar”, diz Lewis. E muitos vilões de histórias em quadrinhos são exatamente aqueles que querem fazer o “bem” a qualquer custo.

Será que nós tivemos algum avanço moral desde o tempo em que queimávamos bruxas na fogueira? Nós só deixamos de fazer isso porque não era mais conveniente. Nós não deixamos de queimar bruxas por um avanço moral ou maior respeito à vida humana, mas porque não acreditamos mais em bruxas. Não deixamos de escravizar porque passamos a respeitar os seres humanos, mas porque outros modos de exploração são mais efetivos.

Ser maligno é diferente de ser inconveniente, assim como ser bom é diferente de ser conveniente. Certo e errado transcendem os fatos, se trata de algo que ocorre no coração.

Hoje em dia as pessoas acreditam num deus domesticado, que não nos ensina como viver e não interfere com nossa vida. É o equivalente ao acaso ou à totalidade das forças. Essa crença o liberou do fardo de viver para além do presente. Mas viver pelo presente acelerou o processo de degradação. Quando se avança sem saber para onde se está indo, não adianta acelerar para tentar chegar mais rápido.

Deus é a pessoa que mais tememos encontrar, porque é o único que nos conhece totalmente. É muito difícil admitir que nós estamos atolados na maldade e não sabemos o que fazer para mudar isso. É preciso buscar a verdade, e não o consolo. Se a doença é curada, acaba a dor, mas acabar com a dor não cura necessariamente a doença. Nós reclamamos de Deus quando ele não acaba com a dor, mas não queremos que Ele cure as doenças que nos causam prazer.

Livro II: No que acreditam os cristãos

Pessoas dentro e fora do cristianismo têm dificuldade de distinguir entre o que é preciso e o que não é preciso para ser cristão. Desde seu princípio, o cristianismo pregou a metanóia, a mudança das disposições mentais. A ênfase de Cristo foi restaurar crenças vitais sobre o sentido da vida.

Se analisarmos uma crença comum hoje em dia, que aceita Deus como uma força que anima o universo, porém não interfere no curso da história (e até Richard Dawkins diz ser simpático a essa noção), e pensarmos como chegamos a acreditar nisso, podemos chegar a uma filosofia influente, que defende a ideia de que “Deus é Natureza”.

Se levarmos o panteísmo a sério, significa que o mundo é Deus, e se acreditarmos nisso, devemos concluir que nada no mundo pode estar no lugar errado, e nada pode ser corrigido. Quando nos perguntamos o que fez o mundo dar errado, de onde tiramos a ideia de “errado”? Só pode haver algo errado se houver algo certo. Se nós despedirmos os conceitos de certo e errado, então como discernir entre “como as coisas são” e “como as coisas não são”? Se nós podemos estar iludidos sobre algo, então tem que haver algo que não é ilusão. Como poderíamos reconhecer a falta de sentido sem reconhecer o que é ter sentido? Se a vida não tivesse um sentido intrínseco, de onde surgiria o sentido de ter que dar um sentido à vida?

A mensagem da fé cristã é simples, mas não simplista. O mundo é complexo, e a fé se aplica a toda a sua complexidade. As pessoas costumam a pedir que a fé seja apresentada de um modo simples para então rejeitá-la por ser um modo simplista de olhar para um mundo complexo. Mas se apresentamos a profundidade da fé, elas rejeitam por não ser simples o suficiente para a capacidade mental da maioria das pessoas. Essas exigências servem para desqualificar qualquer sistema de crenças.

Caminhar na fé cristã não é uma coisa fácil. A fé nunca foi atraente nem agradável, ela é surpreendente e sempre exige esforço compreensivo, não importa qual seja seu nível de conhecimento. Se “ser bom” significasse apenas fazer algo que a sociedade considera bom, então não precisaríamos do Bem, poderíamos concordar com o panteísmo de Spinoza.

Muita gente pensa que o bem e o mal são apenas dois lados da mesma moeda. Mas enquanto o bem tem valor em si mesmo, ninguém ama o mal pelo mal. Nós sempre fazemos o mal com vista a um objetivo, e não pelo simples e puro ato de ser mau. Imagine a coisa mais maligna que você poderia fazer. Por mais maligno que seja seu plano, se vier alguém e mudar seu plano, você talvez diga: “Não estrague meu plano perfeito!”. O mal é apenas um modo incorreto de procurar pelo bem.

No cristianismo não há dualismo entre Bem e Mal, porque o modo de existência do Bem é diferente do modo de existência do Mal, de forma que não são dois lados da mesma coisa. Não há dualismo entre Céu e Terra, nem entre Matéria e Espírito. Essas coisas são diferentes, mas não formam dualidades, como pregava o Maniqueísmo e o Gnosticismo.

O cristianismo vê o mundo como um território ocupado pelo inimigo. Citando Lewis, “O cristianismo é a história de como o rei por direito desembarcou disfarçado em sua terra e nos chama para tomar parte numa grande campanha de sabotagem”. A igreja é um lugar para onde vamos para ouvir quais são os planos do rei para retomar o que está nas mãos do inimigo.

O atual estado de coisas está de acordo com a vontade de Deus? Se você disser que sim, então que Deus seria esse? Se você disser que não, então como pode ser que exista algo que contrarie a vontade de um ser absoluto? Este é o problema do mal, já conhecido pelos gregos 300 anos antes de Cristo. O cristianismo não se esquiva dessa pergunta. Deus nos deu liberdade para pudéssemos ter responsabilidade. Se nós não tivéssemos a possibilidade de fazer uso da liberdade para efetivar o mal, não seríamos livres. E se pudéssemos fazer o mal, mas Deus nos poupasse de todas as consequências de nossos atos, então não aprenderíamos a ser responsáveis.

Não podemos temer a palavra “autoridade”. A maior parte das coisas que acreditamos, acreditamos em função da autoridade de alguém. Não reconhecer qual é a autoridade que você está seguindo não é o mesmo que não seguir nenhuma autoridade.

Não precisamos ter medo do erro. O cristianismo não exige que sejamos impecáveis, mas pecadores capazes de nos arrepender sinceramente e mudar, fortalecendo a fé. Todo ser vivo é capaz de se ferir, mas também de se regenerar. A culpa impede que a fé se regenere depois da batalha.

Deus não ama nossa bondade, é por meio Dele que somos bons.

Não podemos dizer que Jesus foi apenas um grande mestre da moral. O que ele disse é algo completamente absurdo se saísse da boca de um simples humano. Ele disse que nos perdoa por nossos pecados. Como alguém pode nos perdoar por nossos pecados, como se fosse ele o único ofendido? Jesus não nos deixa escolha: ou ele era um lunático, ou era muito mais que um grande mestre da moral.

Livro III: Conduta Cristã

A moral é um modo se conduzir, ou seja, um modo de caminhar numa jornada para que seja possível chegar até seu destino. Existem três exigências da moral: 1. Que os indivíduos não entrem em colisão entre si, mas consigam conviver em paz. 2. Que o indivíduo esteja bem consigo mesmo, não entre em conflito consigo mesmo. 3. Que nós saibamos para onde estamos caminhando. Podemos fazer analogia com uma banda: 1. É preciso que você não atrapalhe os outros membros a tocar. 2. É preciso que você saiba tocar seu próprio instrumento. 3. Vocês precisam saber que música vocês estão tocando.

Uma coisa pode ser moralmente errada mesmo que não faça mal a ninguém, porque não basta seguir apenas uma ou duas regras. Ou as três são seguidas, ou não chegaremos a lugar algum.

Uma pessoa não se torna boa pela imposição. Se o indivíduo não tem o desejo de fazer o bem, suas boas ações de pouco valerão.

A perspectiva do cristianismo deveria mudar muito a forma como nos relacionamos e valorizamos as pessoas. Pois se realmente acreditamos que o ser humano possui uma alma eterna, significa que ele durará muito mais do que todas as coisas transitórias que construímos nesse mundo.

Existem quatro virtudes cardeais: 1. A prudência, que é pensar no que você faz. 2. Temperança, que é saber quando parar. 3. Justiça: que é não desprezar a verdade. 4. Fortaleza, que é coragem de enfrentar o mal e suportar a dor da boa escolha.

A virtude não se resume a uma lista de ações virtuosas, mas está dentro da pessoa que usa esses critérios para guiar sua ação.

É verdade que Jesus não foi o primeiro a falar dessas virtudes. Mas aparentemente ninguém quer o projeto de Deus por inteiro. Nós selecionamos as partes que queremos, e descartamos a outras. Queremos as coisas mais fáceis de fazer, mas não as coisas mais difíceis. Queremos concordar com o amor ao próximo, mas ao mesmo tempo é muito difícil colocar isso em prática.

O maior obstáculo à caridade é a insegurança quanto ao futuro. Não adianta o quanto Jesus diga que não devemos ficar ansiosos quanto ao que comeremos amanhã, parece que essa ansiedade está cada vez mais presente. A caridade cristã é diferente do projeto social voltado somente às “necessidades básicas”. Não é um projeto político de esquerda nem de direita. A moralidade social do cristianismo é atender às verdadeiras necessidades das pessoas. A paz de Cristo é bem diferente da “eudemonia” grega.

A fé cristã não é um tipo de psicanálise. A psicanálise pode ajudar um homem que tem medo de sair na rua, mas não o orienta para saber o que fazer quando ele sair na rua.

Deus julga por escolhas morais. Se você ainda reconhece que faz o mal, não é tão mau quanto aquele que não reconhece a diferença entre bem e mal. Só reconhecemos o quanto nós somos maus quando resistimos ao mal. Um homem que se entrega com muita facilidade ao mal não sabe qual é o seu nível de maldade. Quando resistimos ao mal é que ele se mostra com seu verdadeiro poder. Só descobrimos o grau da nossa dependência quando tentamos abandonar um vício.

A moral sexual existe em todas as culturas. A lei cristã é uma lei de amor, ela não contraria a natureza do amor. Quando nos apaixonamos por alguém, o que sentimos é real. Sentimos um desejo natural por declarar e ouvir uma declaração de fidelidade. A fé cristã exige que os amantes levem a sério aquilo que sua paixão os impele a fazer, e assumam um compromisso.

Sobre o perdão, se eu odeio meu pecado por amor a mim mesmo, então devo fazer o mesmo com os outros: odiar o pecado deles pelo mal que este pecado causa a eles mesmos.

Existem três virtudes teológicas: A humildade, a fé e a esperança.

O orgulho, que é falta de humildade, é o pior pecado, porque é competitivo por si mesmo. Quando desprezamos os outros por completo, estamos inundados de orgulho. Sempre que somos regidos pelo orgulho, criamos um deus imaginário, que é uma projeção de nós mesmos.

A caridade se fortalece agindo como Jesus agiu. Você só pode se importar com alguém se experimentar viver assim.

A esperança é indispensável para agir. Não podemos mudar nada no mundo se nossa esperança está na riqueza. Se nosso objetivo é obter prosperidade material, perdemos tanto este mundo quanto o Reino de Deus, porque isso significa desconfiança de que nada nos faltará se colocarmos o Reino de Deus em primeiro lugar.

Existem três vias para se lidar com a insatisfação quanto ao estado de coisas no mundo: 1. Culpar as coisas do mundo e buscar outras coisas do mundo. 2. Desistir de tudo e dizer que tudo é insuficiente, que nada neste mundo irá mudar. 3. Não se acomodar com este mundo, mas transformar a si mesmo pela renovação da mente, a fim de experimentar qual é a boa vontade de Deus.

Fé é manter-se firme naquilo que a razão já aceitou como necessidade, mas as contingências querem negar. Variações de humor e situações delicadas nos fazem duvidar de algo que tínhamos certeza, mas nos arrependemos dessa dúvida quando voltamos à razão. Por isso nos envergonhamos, pedimos perdão, e tentamos nos reconciliar com pessoas que possamos ter acusado injustamente de traição. Fé é manter-se firme numa decisão que pode parecer muito duvidosa em certos momentos, mas tem base na razão. A fé não exclui a presença da dúvida nem do questionamento acerca da verdade das afirmações e da realidade das coisas. Exemplo: Podemos ter certeza de que não há nada perigoso no escuro, e mesmo assim ter medo do escuro.

Não conhecemos a força do mal que há em nós até decidirmos enfrentá-lo. Quem enfrenta o mal faz com que ele adote estratégias mais agressivas. Ter fé é permanecer na decisão pelo bem por mais que o mal se apresente sob formas inesperadas.

Não há nada que você possa dar a Deus que ele não tenha te dado antes. Deus oferece tudo em troca de nada, e por isso não faz sentido barganhar com Deus. Ele não está exigindo que você O ame. Ele é O Caminho, A Verdade e A Vida, e amar a Deus é uma necessidade para nós, não para Ele. Deus se apresentou para ser amado para o nosso próprio bem.

Livro IV – Além da personalidade

O que o cristianismo tem a dizer sobre a personalidade? A teologia nos diz que nós somos filhos de Deus, mas que Jesus é o único Filho de Deus. Como pode? Ele é o Filho gerado, sempre existente. Jesus é ao mesmo tempo plenamente Deus e plenamente Homem. No Filho, não só a Divindade como a Humanidade é revelada à humanidade.

Existem dois conceitos de vida: bios e zoe, a vida natural e a vida espiritual. O cristianismo obtém conhecimento experimental sobre a zoe por meio da comunidade.

Para Deus todo tempo é agora, e Ele nunca esteve calado. Sua Palavra está ativa é por meio dela que Ele cria o mundo.

Deus é amor, mas o amor não é Deus. Todo amor emana de Deus, mas Deus não pode ser reduzido ao conjunto das emanações do amor.

A bios quer reinar sobre nós, ela quer prioridade e exclusividade. Por isso o mundo vende o pecado dando duas ou mais opções: “Você quer comprar a vista ou a prazo?”. Ficamos discutindo qual opção é melhor e esquecemos da terceira opção: não comprar.

Quando somos pegos desprevenidos é que revelamos quem realmente nós somos.

Ser moral é diferente de estar em Cristo. Você pode seguir toda a lei, e ainda assim Jesus exige algo que você não esperava ter que cumprir. Somos quase sempre impulsionados pelo medo. Mas a covardia é mais perigosa que a coragem, porque ela gera um ciclo vicioso. Escolher seguir Jesus é a decisão mais difícil que existe. Deus cura a doença por completo, e isso quer dizer que Ele nos cura tanto do que nos incomoda quanto do que nos agrada. Por isso é comum que alguém só venha procurar cura quando não há mais como viver com a doença. Mas na maioria dos casos não é assim, e o mundo moderno nos deu uma boa quantidade de doenças agradáveis, que nos matam aos poucos, sem que a gente perceba.

Quem não quer ser curado de tudo não quer seguir Jesus, porque santidade é diferente de bondade. Se você quer apenas aprender como ser uma pessoa melhor, não precisa de Jesus. Se aceita Jesus, significa que vai ter que aceitar que Ele tome conta da sua vida a transforme completamente, e cure aquelas doenças que você não sabia que tinha, e algumas que você até mesmo gostava de ter e chamava de bênção.

Tudo que provém de Deus se descaracteriza ao se afastar de Deus. Se tudo que nos faz ser quem somos provém de Deus, a única forma sermos autênticos é nos entregarmos totalmente para Deus. Se nós quisermos ser nós mesmos distantes Dele, não seremos mais nós mesmos. Ao nos entregarmos, Deus nos acolhe por completo, como fomos feitos para ser.

Cada aspecto que faz de você o que você realmente é foi criado por Deus. Todo aspecto inautêntico foi resultado de um afastamento em relação a Deus. Se nós ignoramos qual o sentido de nossa existência, não sabemos como viver, assim como não saberíamos o que fazer com um artefato alienígena que não se parece com nada do que conhecemos. Acabamos brincando com a vida, achando que a vida é o que que que façamos dela. Fazendo o que não deveria ser feito e agindo sem compreender o objetivo da ação. A pergunta que Deus responde é a seguinte: “Senhor, o Senhor me fez assim, me deu tudo que eu tenho, mas eu não sei o que fazer com isso. Tudo que eu tento fazer parece acabar dando errado. O que o Senhor quer que eu faça com isso, com essa vida? Eu não consegui nem sequer compreender qual a minha função. Para que eu sirvo?”.

Os pecadores procuravam Jesus porque os sãos não precisam de médico. Então não faz sentido dizer que você não pode ser cristão porque tem esse ou aquele defeito. A questão é o que você ama mais, seu pecado ou sua vida. Uma nova criatura não é exatamente uma pessoa boa, mas é uma pessoa nova, que não é mais determinada pelos fatores que condenavam a pessoa velha. Deus não quer que você seja apenas melhor, mas sim uma nova pessoa, capaz de tomar as decisões que não conseguia antes.

Não podemos privilegiar nosso próprio conceito de bom. O plano de Deus pode ser bem diferente. A transformação proposta por Deus não é exatamente uma evolução. Ela é voluntária e vem de fora da natureza.

Os cristãos serão todos iguais por serem todos imitadores de Jesus? Não. O fato de que a mesma luz incide sobre todos não faz todos serem iguais. A luz realça as diferenças, como o sal realça o sabor. Jesus pergunta: o que poderia fazer o sal voltar a ser salgado? O que poderia fazer a luz voltar a iluminar? O que poderia fazer o humano voltar a ser humano? O que pode fazer você voltar a ser você?

Querer ser você mesmo independente da fonte primária é querer se conformar com o resultado de incontáveis variáveis, hereditárias ou adquiridas, que não estão sob seu controle. Isso é o que realmente significa ser do mundo: estar alienado daquilo que te faz a pessoa que você é.





Qual o momento do batismo com o Espírito Santo?

Pentecostes (Juan Bautista Maino, c. 1612-1614)

Cresci ouvindo o tradicional apelo, especialmente em retiros, “quem quer ser batizado com o Espírito Santo, venha à frente”. Algumas vezes eu fui, até que um dia percebi que já era batizado com o Espírito Santo, mesmo que eu não falasse em línguas estranhas. Antes de qualquer coisa, preciso salientar a importância fundamental na crença viva no Espírito Santo e na sua livre atuação. O Espírito Santo é uma das pessoas da Trindade e é basilar para a fé cristã. Nosso único ponto de discussão neste breve ensaio será quanto ao momento em que o recebemos e, absolutamente, nada mais.

Então, afinal de contas, podemos ser batizados com o Espírito Santo? E, se sim, quando ocorre? Evidentemente que não temos a pretensão de sermos paladinos da verdade, então nossas conclusões não são absolutas. O fato é que os textos das Sagradas Escrituras possuem apenas uma interpretação. Desta forma, o problema sempre está no exegeta, ou seja, em nós mesmos. Nossa oração é para que Deus nos capacite e nossa exegese se aproxime daquela pretendida pelo Espírito.

Respondendo à pergunta: sim, mais que podemos, somos todos batizados com o Espírito Santo, tão logo somos alcançados pela superabundante graça, por intermédio de Cristo Jesus — pelo menos esta é a minha crença fundamentada na exegese que segue. Quando nascemos de novo e somos inseridos na família cristã, recebemos o selo, a marca da Trindade. Esta marca é o batismo com o Espírito Santo. Somos regenerados com o Espírito Santo e separados por Cristo. O batismo não é pelo, mas é com. Quem nos batiza com o Espírito é o próprio Cristo, como João Batista ensinava e consta nos registros do Evangelho de Mateus: “Eu os batizo com água para arrependimento. Mas depois de mim vem alguém mais poderoso do que eu, tanto que não sou digno nem de levar as suas sandálias. Ele os batizará com o Espírito Santo e com fogo” (3.11).

É o batismo com o Espírito Santo que nos une ao corpo místico de Cristo e da Igreja. Colocar o batismo em outro momento distinto da conversão é (com o devido respeito) um anacronismo: somos convertidos, todavia não pertencemos ao corpo de Cristo? A carta paulina aos Efésios deixa claro que o batismo com o Espírito Santo é o penhor da nossa herança e o selo desta promessa: “Em quem também vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação; e, tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa; o qual é o penhor da nossa herança, para redenção da possessão adquirida, para louvor da sua glória” (1.13,14). E a primeira carta de Pedro afirma que somos propriedade exclusiva de Deus e um povo separado do mundo: “Mas vós sois a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido, para que anuncieis as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz” (2.9).

Jesus Cristo é quem nos batiza com o Espírito Santo quando de nossa conversão para que possamos, por meio dele, ser guiados em toda a verdade e convencidos dos nossos pecados para arrependimento e salvação de nossas almas (Jo 16. 7-9 e 13; Mt 1, 21), porque todos pecamos e necessitamos de um encontro pessoal e real com Jesus Cristo, pois nele há salvação e perdão de pecados (Rm 3.23, 6.23, e Ef 1.7). É por meio da ação do Espírito Santo que compreendemos as verdades de Deus revelada nas Escrituras. Se não somos batizados com o Espírito quando da conversão, como podemos compreender a revelação geral de Deus aos homens? Não podemos, é ele que nos guia e permite nosso entendimento e compreensão. Vejam o que Paulo fala em sua primeira carta aos Coríntios, sobre os dons espirituais: “Portanto, vos quero fazer compreender que ninguém que fala pelo Espírito de Deus diz: Jesus é anátema, e ninguém pode dizer que Jesus é o Senhor, senão pelo Espírito Santo” (12.3). Somente podemos dizer (e compreender sua dimensão) que Jesus é o nosso Senhor, por meio do Espírito Santo que testifica esta verdade em nós! Quem é convertido e não foi batizado com o Espírito não pode dizer e/ou compreender isto? Evidente anacronismo.

Outro anacronismo consequente da crença que o batismo com o Espírito Santo acontece em outro momento, como uma segunda benção, é a diferenciação das pessoas no corpo de Cristo. Para Deus não há acepção de pessoas, todos pecamos e necessitamos da graça divina (Rm 2.11-13 e At 10.34), como seria então um corpo em que alguns convertidos possuem o selo da promessa e outros ainda não?! Ou alguns são “melhores” porque possuem o selo, enquanto outros são mais fracos ou piores, porque não conseguem o selo. Esta interpretação gera ansiedade, tristeza, baixa autoestima e, não poucas vezes, depressão. Será esta a vontade do Espírito Santo? Creio que não. Contudo, o leitor pode agora estar pensando: “e as passagens de Atos?” Bem, vamos a elas.

ATOS 8.14-17: OS SAMARITANOS[1]

Em primeiro lugar, é importante destacar que, nesta passagem, os samaritanos já eram convertidos. De outra banda, o texto indica a surpresa do provável autor do livro de Atos, Lucas, pelo fato dos samaritanos receberem o batismo pelo Espírito em momento diverso do batismo das águas (depois). O espanto é verificável nas expressões “somente” e “ainda”[2], e esta surpresa se dá exatamente pelo fato de que o Espírito completa o ato batismal, sendo o fato descrito na passagem a exceção à regra.

Outro aspecto importantíssimo, muitas vezes deixado de lado, é o fato de que o povo judeu e o samaritano possuíam uma rixa antiga e apenas um fato como este (recebimento do Espírito), testemunhado pelos apóstolos de Cristo, Pedro e João, poderia impedir um cisma logo no início da formação da Igreja. Ensina Michael Green que “Judeus e Samaritanos eram inimigos implacáveis, e isso havia séculos”[3], o que é confirmado pela fonte primária, o historiador que viveu na época de Cristo, Flávio Josefo:

“Esses novos habitantes da Samaria, […] eram de cinco nações diferentes, que tinham cada uma um deus particular e eles continuaram a adorá-los, como faziam em seu país. […] Esses povos, que os gregos chamam de samaritanos, continuam ainda hoje na mesma religião. Mas eles mudam com relação a nós, segundo a diversidade dos tempos, pois, quando a nossa situação é boa, eles protestam que nos consideram como irmãos, porque sendo uns e outros descendentes de José, nós temos nossa origem de um mesmo ramo. Quando a sorte nos é contrária, eles dizem que não nos conhecem e que não são obrigados a nos amar, pois tendo vindo de um país tão afastado para se estabelecer naquele em que habitam, nada têm de comum conosco.”[4]

Ou seja, se não houvesse um testemunho ocular pelos próprios apóstolos, que possuíam credibilidade dentro da Igreja que estava nascendo, provavelmente os samaritanos não seriam reconhecidos como parte da Igreja de Cristo e, logo no nascedouro, teríamos um enorme cisma, o que prejudicaria o próprio avanço do evangelho. Também não podemos esquecer das palavras do Cristo ressurreto em Atos 1.8: “Mas recebereis a virtude do Espírito Santo, que há de vir sobre vós; e ser-me-eis testemunhas, tanto em Jerusalém como em toda a Judeia e Samaria, e até aos confins da terra” (grifo nosso). Tratava-se de uma ordem imperativa de Cristo: ser testemunha do recebimento (batismo) do Espírito Santo em Samaria. E, assim foi.

“Se o Espírito Santo tivesse sido concedido imediatamente por meio da profissão de fé e batismo aos samaritanos, esse antigo cisma poderia ter continuado e teria havido duas igrejas sem comunhão uma com a outra. Atos 15 mostra como uma ruptura decisiva entre o cristianismo judeu e gentílico foi cuidadosamente evitada pelos primeiros cristãos. Atos 8 parece salientar que uma cisão semelhantemente desastrosa foi evitada em Samaria. Deus não concedeu seu Espírito Santo (ou, talvez, a manifestação sobrenatural do Espírito em línguas e profecia?) aos samaritanos imediatamente: não até que representantes de Jerusalém desceram e expressaram sua unidade com os neófitos através da oração por eles e impondo suas mãos sobre eles. Depois disso eles receberam o Espírito; […] Isto não foi tanto uma autorização de Jerusalém ou uma extensão da igreja de Jerusalém, quanto um veto divino no cisma da igreja ainda não desenvolvida, um cisma que poderia ter passado quase despercebido na comunidade cristã, tendo os convertidos dos dois lados da ‘cortina samaritana’ encontrado Cristo sem encontrarem uns aos outros.”[5]

ATOS 10.44-48: O PENTECOSTES DOS GENTIOS

Nesta passagem bíblica ocorre exatamente o inverso da primeira: o Espírito Santo desce aos gentios antes mesmo de serem batizados nas águas. Esta passagem, assim como a do capítulo 8.14-17, demonstra o pensamento dos apóstolos e de toda igreja primitiva de que o batismo nas águas e o dom do Espírito Santo estão intimamente ligados.

Alguns versículos antes desta passagem, especificamente o v. 28a diz: “E disse-lhes: Vós bem sabeis que não é lícito a um homem judeu ajuntar-se ou chegar-se a estrangeiros”, ou seja, os judeus não podiam nem ao menos reunir-se ou associar-se a um não judeu. Desta forma, mesmo com diversas ordens expressas de Jesus, como um judeu poderia considerar um gentio seu irmão? Apenas de maneira sobrenatural, testemunhado por um dos apóstolos, o preconceito poderia ser removido e, novamente (como no caso dos samaritanos), a Igreja que estava nascendo não teria sua unidade quebrada. Ensina Alexandre Vieira:

“O episódio em Cesareia, conhecido como o “pentecostes gentílico”, deve ser encarado como uma exceção à regra também pelo fato de ser “a única ocasião na qual o derramamento do Espírito precedeu o batismo”. E isto aconteceu, como vimos, para que fosse removido todo preconceito e exclusivismo de dentro do povo de Deus, a fi m de que pela aceitação dos gentios a Igreja se tornasse verdadeiramente universal. Atos 10, além de outras coisas, nos ensina a belíssima verdade de que a incorporação dos gentios à Igreja sem submetê-los à lei não foi uma iniciativa de Paulo, nem de Pedro, mas do próprio Deus.”[6]

ATOS 19. 1-6: OS DISCÍPULOS EFÉSIOS

Os discípulos efésios eram propriamente discípulos de quem? A passagem bíblica demonstra que Paulo tinha esta dúvida quando pergunta “Recebeste o Espírito Santo ‘quando crestes’?” A verdade é que tais discípulos ainda estavam “no meio do caminho” para se tornarem discípulos de Cristo, pois apenas tinham sido batizados no batismo de João Batista e não sabiam que o Espírito Santo já estava presente, ou seja, eles eram crentes da velha aliança e não da nova. Assim, os discípulos efésios não eram cristão genuínos, tornaram-se apenas quando “receberam o batismo cristão juntamente com o dom do Espírito”.

“Por isso, quando informado de que aqueles efésios não tinham recebido o Espírito Santo, Paulo simplesmente pergunta (v. 3): ‘Em que, pois, fostes batizados?’ Paulo pensou que se eles não tinham o Espírito Santo, a causa provável era um batismo diferente daquele ‘em nome de Jesus’. E ele estava certo. Diagnosticado o erro, o apóstolo Paulo imediatamente lhes falou a respeito da fé em Jesus. Depois disso o texto diz que eles foram batizados e, na sequência, receberam o Espírito Santo.”[7]

Como percebemos, os referidos textos em Atos não trazem outra mensagem senão a intenção de nosso Deus de que sua palavra seja levada a toda criatura, não obstante preconceitos de raça ou etnia (caso samaritanos e gentios) ou pela falta de conhecimento (caso discípulos efésios). Quando Jesus ascendeu aos céus, ele ordenou que fôssemos suas testemunhas tanto em Jerusalém, como em toda a Judeia e Samaria e até os confins da Terra. As passagens demonstram o trabalho do Espírito Santo em unir a Igreja que estava nascendo e o cumprimento desta ordem.

Para arrematar quaisquer dúvidas, Paulo, ao falar sobre os dons do Espírito Santo, sentencia: “Pois todos nós fomos batizados em um Espírito, formando um corpo, quer judeus, quer gregos, quer servos, quer livres, e todos temos bebido de um Espírito” (1Co 12.13, grifo nosso). Pois todos somos batizados em um Espírito! Você tem certeza de salvação? Se sim, você faz parte do corpo místico de Cristo e é batizado com o Espírito Santo. Por isso, glorifique de pé! E, quem sabe, se for da vontade de Deus, você falará em línguas estranhas! Deus o abençoe.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

GREEN, Michael. Baptism: Its Purpose, Practice & Power. Downers Grove: Inter-Varsity, 1987.

GREEN, Michael. I believe in the Holy Spirit. Grand Rapids: William B. Eerdmans, 1975.

JOSEFO, Flavio. História dos Hebreus. Traduzido por Padre Vicente Pedroso. São Paulo: Editora das Américas, [S.d.]. v. 3.

VIEIRA, Alexandre Teixeira. O batismo no Espírito Santo conforme o livro de Atos. Igreja Luterana – Revista Semestral de Teologia / Seminário Concórdia, Volume 74, nov/2019, número 2.

________________

[1] Recomendo entusiasticamente o artigo de Alexandre Teixeira Vieira intitulado “O Batismo no Espírito Santo Conforme o Livro de Atos”. Ele foi a referência bibliográfica para estas passagens de Atos. VIEIRA, Alexandre Teixeira. O batismo no Espírito Santo conforme o livro de Atos. Igreja Luterana. Revista Semestral de Teologia/Seminário Concórdia, Volume 74, nov/2019, número 2. Disponível em: http://www.seminarioconcordia.com.br/seminario_novo/media/attachments/2018/07/11/revista-luterana-2015-2.pdf

[2] O normal seria que, ao serem batizados, todos recebessem o Espírito Santo, mas os samaritanos somente estavam batizados; o Espírito ainda não havia caído sobre nenhum deles.

[3] GREEN, Michael. Baptism: It’s Purpose, Practice & Power. Downers Grove: Inter-Varsity, 1987, p. 131-132.

[4] JOSEFO, Flavio. História dos Hebreus. Traduzido por Padre Vicente Pedroso. São Paulo: Editora das Américas, [S.d.]. v.3. p. 219-220.

[5] GREEN, Michael. I believe in the Holy Spirit. Grand Rapids: William B. Eerdmans, 1975. p. 167-16.

[6] VIEIRA, op. cit., p. 49.

[7] VIEIRA, op. cit., p. 53.





Complementarismo vs Igualitarismo

Complementarismo é o ensino de que masculinidade e feminilidade são ordenadas por Deus e que homens e mulheres são criados para complementar (ou completar) um ao outro. Os complementaristas acreditam que os papéis de gênero encontrados na Bíblia são distinções intencionais e significativas que, quando aplicadas no lar e na igreja, promovem a saúde espiritual de homens e mulheres. Abraçar os papéis divinamente ordenados de homens e mulheres avançam o ministério do povo de Deus e permite que homens e mulheres alcancem seu potencial dado por Deus.


A visão complementarista começa com Gênesis 1:26-27, que diz que Deus criou a humanidade, homem e mulher, à Sua própria imagem. Gênesis 2:18 contém o detalhe adicional de que Deus criou Eva especificamente para complementar Adão: “Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma ajudadora que lhe seja idônea.” Os dois gêneros são, portanto, parte da ordem criada por Deus. Qualquer confusão moderna dos gêneros ou distorção dos papéis é resultado da Queda.


O complementarismo segue com Efésios 5:21-33 ilustrando o modelo para o lar. O marido tem o papel de cabeça na família. Ele deve cuidar de sua esposa e conduzir sua família com amor, humildade e sacrifício. A esposa tem o papel de nutrir seus filhos e submeter-se à liderança de seu marido de forma intencional e voluntária. Quando marido e mulher se complementam dessa forma, Cristo é honrado. Na verdade, o próprio casamento se torna o que foi projetado para ser: uma imagem viva de Cristo e da igreja (versículo 32).


Na igreja, o complementarismo segue 1 Timóteo 2:11-3:7 e Tito 2:2-6 como o modelo. Biblicamente, os homens na igreja têm a responsabilidade de fornecer liderança espiritual e treinamento. As mulheres devem exercer seus dons espirituais de qualquer maneira que as Escrituras permitirem - a única proibição é “que a mulher ensine, nem tenha domínio sobre o homem” (1 Timóteo 2:12). Quando homens e mulheres estão cumprindo seus papéis dados por Deus dentro de uma igreja, Cristo é honrado. Na verdade, a própria igreja se torna o que foi projetada para ser: uma imagem viva do corpo de Cristo (1 Coríntios 12:12-27).

Resumido por "O Conselho sobre a Masculinidade e Feminilidade Bíblica", o complementarismo é o ponto de vista de que Deus restringe as mulheres de servir em papéis de liderança na igreja e, em vez disso, chama as mulheres para servir em papéis igualmente importantes, mas complementares. Resumido por "Cristãos pela Igualdade Bíblica", o igualitarismo é o ponto de vista de que não há restrições bíblicas baseadas no gênero ao ministério na igreja. Com ambas as posições afirmando ser baseadas na Bíblia, é crucial examinar completamente o que exatamente a Bíblia diz sobre a questão do complementarismo versus igualitarismo.


Novamente, para resumir, de um lado estão os igualitários que acreditam que não há distinção de gênero e que, uma vez que somos todos um em Cristo, mulheres e homens são intercambiáveis quando se trata de papéis funcionais na liderança e no lar. A visão oposta é mantida por aqueles que se referem a si mesmos como complementaristas. A visão complementarista acredita na igualdade essencial de homens e mulheres como pessoas (ou seja, como seres humanos criados à imagem de Deus), mas defende distinções de gênero quando se trata de papéis funcionais na sociedade, na igreja e no lar.


Um argumento a favor do complementarismo pode ser feito em 1 Timóteo 2:9-15. O versículo em particular que parece argumentar contra a visão igualitária é 1 Timóteo 2:12, que diz: “Pois não permito que a mulher ensine, nem tenha domínio sobre o homem, mas que esteja em silêncio.” Paulo apresenta um argumento semelhante em 1 Coríntios 14, onde escreve: “as mulheres estejam caladas nas igrejas; porque lhes não é permitido falar; mas estejam submissas como também ordena a lei” (1 Coríntios 14:34). Paulo argumenta que as mulheres não têm permissão para ensinar e/ou exercer autoridade sobre os homens no ambiente da igreja. Passagens como 1 Timóteo 3:1-13 e Tito 1:6-9 parecem limitar os "cargos" de liderança da igreja aos homens também.


O igualitarismo essencialmente defende seu caso com base em Gálatas 3:28. Nesse versículo Paulo escreve: “Não há judeu nem grego; não há escravo nem livre; não há homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus.” A visão igualitária argumenta que em Cristo as distinções de gênero que caracterizavam os relacionamentos decaídos foram removidas. No entanto, é assim que Gálatas 3:28 deve ser entendido? O contexto justifica tal interpretação? É muito claro que essa interpretação prejudica o contexto do versículo. Em Gálatas, Paulo está demonstrando a grande verdade da justificação somente pela fé e não pelas obras (Gálatas 2:16). Em Gálatas 3:15-29, Paulo defende a justificação nas diferenças entre a lei e a promessa. Gálatas 3:28 se encaixa no argumento de Paulo de que todos os que estão em Cristo são descendentes de Abraão pela fé e herdeiros da promessa (Gálatas 3:29). O contexto desta passagem deixa claro que Paulo está se referindo à salvação, não a papéis na igreja. Em outras palavras, a salvação é dada gratuitamente a todos, sem respeito a fatores externos como etnia, condição econômica ou gênero. Expandir esse contexto para também se aplicar aos papéis de gênero na igreja vai muito além e fora do argumento de Paulo.


O que é verdadeiramente o ponto crucial desse argumento, e o que muitos igualitários não conseguem entender, é que uma diferença de papel não equivale a uma diferença de qualidade, importância ou valor. Homens e mulheres são igualmente valorizados aos olhos e ao plano de Deus. As mulheres não são inferiores aos homens. Em vez disso, Deus atribui papéis diferentes a homens e mulheres na igreja e no lar, porque é assim que Ele nos projetou para funcionar. A verdade da diferenciação e igualdade pode ser vista na hierarquia funcional dentro da Trindade (cf. 1 Coríntios 11:3). O Filho Se submete ao Pai, e o Espírito Santo Se submete ao Pai e ao Filho. Essa submissão funcional não implica uma inferioridade na essência; todas as três Pessoas são igualmente Deus, mas diferem em Suas funções. Da mesma forma, homens e mulheres são igualmente seres humanos e compartilham igualmente a imagem de Deus, mas têm papéis e funções ordenados por Deus que refletem a hierarquia funcional dentro da Trindade.




A linha do Tempo do NT

O gráfico a seguir fornece uma linha do tempo detalhada do Novo Testamento. A maioria das datas pode ser determinada precisamente pela correlação de eventos bíblicos com extensos documentos históricos e evidências arqueológicas. As datas com um asterisco indicam datas aproximadas ou alternativas. A extensa confirmação externa das datas e eventos do Novo Testamento encoraja grande confiança na verdade e historicidade do Antigo e do Novo Testamento.

5 AC *

Jesus nasce em Belém.

4 AC

A família de Jesus foge para o Egito para escapar do plano de Herodes de matar Jesus ( Mat. 2: 13-18 ); Herodes morre; Judas (de Séforis) e outros se rebelam, exigindo que o governador sírio Varo intervenha em toda a Palestina; Séforis, uma cidade a quatro milhas de Nazaré, é destruída por soldados romanos; Judéia, Samaria e Iduméia são dadas ao filho de Herodes, Arquelau; A Galiléia e a Peréia são dadas a seu filho Antipas; A família de Jesus, depois de regressar do Egipto, reside em Nazaré ( Mat. 2: 19-23 ), uma pequena aldeia no sul da Galileia.

ANÚNCIO 6

Arquelau é exilado por incompetência; a Judéia torna-se uma província romana; Judas o Galileu (de Gamla) lidera uma revolta contra o recenseamento fiscal; o governador da Síria, Quirino ( 6–7 DC ), nomeia Anás sumo sacerdote (6–15).

8 *

Jesus (12 anos) interage com os mestres no templo ( Lucas 2:41–50 ).

8*–28/30

Jesus trabalha como carpinteiro em Nazaré ( Mat. 13:55 ; Marcos 6:3 ) e provavelmente nas aldeias vizinhas e Séforis, que estava sendo reconstruída.

28–29 *

João Batista começa seu ministério ao redor do rio Jordão ( Jo 1:19 ).

28–30 *

Jesus começa seu ministério na Judéia, mas logo concentra seus esforços na Galiléia. Em Jerusalém, os fariseus (como Gamaliel) treinam discípulos (como Paulo) em sua tradição. Eles enviam uma delegação para a Galiléia, mas a delegação rejeita o ensino de Jesus. Em Alexandria, Filo (20 A.C. – 50 D.C. ) tenta unificar a filosofia grega com as Escrituras hebraicas.

33 (ou 30)

Jesus retorna à Judéia, é crucificado e ressuscitado. Tiago, o irmão de Jesus, torna-se um crente depois de testemunhar o Jesus ressuscitado ( 1 Cor. 15:7 ; Atos 12:17 ). Jesus ascende à mão direita do Pai ( Atos 1 ). Os primeiros seguidores de Jesus recebem o Espírito Santo no Pentecostes e começam a proclamar o evangelho ( Atos 2 ).

33/34 *

Paulo testemunha o Senhor ressurreto a caminho de Damasco e é comissionado como apóstolo para as nações ( Atos 9 ; Gálatas 1:15-16 ).

34–37

Paulo ministra em Damasco e Arábia ( Atos 9:19-22; 26:20 ; Gal. 1:16-18 ).

36

Pilatos perde o cargo por incompetência.

36/37 *

Paulo encontra-se com Pedro em Jerusalém ( At 9:26-30 ; Gal. 1:18 ).

37–45

Paulo ministra na Síria, Tarso e Cilícia ( At 9:30 ; Gl 1:21 ).

38 *

Pedro testemunha a Cornélio ( Atos 10 ).

39

Antipas é exilado.

40–45 *

Tiago escreve sua carta aos crentes fora da Palestina (veja Tiago 1:1 ).

41–44

Agripa, neto de Herodes, o Grande, governa a Palestina; ele mata Tiago, irmão de João ( Atos 12:2 ) e aprisiona Pedro ( Atos 12:3 ).

42–44

Paulo recebe seu "espinho na carne" ( 2 Cor. 12: 7 ).

44

Pedro deixa Jerusalém; Agripa é morto por um “anjo do Senhor” ( At 12:23 ).

44–46

Teudas convence muitos judeus a vender seus bens e segui-lo para o deserto, onde ele alegou que dividiria milagrosamente o rio Jordão; O procurador romano Fadus despacha sua cavalaria e decapita o suposto messias.

44–47 *

a segunda visita de Paulo a Jerusalém; tempo de fome ( Atos 11:27-30 ; Gal. 2:1-10 ).

46–47

A Primeira Viagem Missionária de Paulo (com Barnabé) de Antioquia a Chipre, Antioquia na Pisídia, Icônio e Listra ( Atos 13:4–14:26 ).

46–48

O procurador romano Tibério Alexandre crucifica dois filhos (Jacó e Simão) de Judas, o Galileu.

48 *

Paulo escreve Gálatas , talvez de Antioquia (ver Atos 14:26–28 ).

48–49 *

Paulo e Pedro voltam a Jerusalém para o Concílio Apostólico, que, com a ajuda de Tiago, liberta os crentes gentios da exigência da circuncisão em oposição aos crentes farisaicos ( At 15:1-29 ); Paulo e Barnabé retornam a Antioquia ( Atos 15:30 ), mas se separam por causa de uma disputa sobre João Marcos ( Atos 15:36-40 ).

48/49–51 *

a segunda viagem missionária de Paulo (com Silas) de Antioquia à Síria, Cilícia, sul da Galácia, Macedônia, notadamente Filipos, Tessalônica e Beréia; e depois para Acaia, principalmente Atenas e Corinto ( At 15:36–18:22 ).

49

Cláudio expulsa os judeus de Roma por causa de conflitos sobre Jesus ( At 18:2 ); Paulo faz amizade com dois refugiados, Priscila e Áquila, em Corinto ( At 18:2-3 ).

49–51 *

Paulo escreve 1-2 Tessalonicenses de Corinto ( Atos 18:1, 11 ; compare também Atos 18:5 com 1 Tessalonicenses 1:8 ).

51

Paulo aparece diante de Gálio, procônsul da Acaia ( At 18:12-17 ).

50–54 *

Pedro chega a Roma.

52–57 *

Terceira Viagem Missionária de Paulo de Antioquia à Galácia, Frígia, Éfeso, Macedônia, Grécia ( At 18:23-21:17 ).

52–55

Paulo ministra em Éfeso ( Atos 19:1-20 ).

53–55 *

Marcos escreve seu Evangelho, contendo as memórias de Pedro de Jesus; talvez dentro de uma década, Mateus publique seu Evangelho, que se baseia em Marcos e outras fontes. Paulo escreve 1 Coríntios de Éfeso ( Atos 19:10 ).


54

Cláudio morre (é revogado o decreto que exila os judeus); Priscila e Áquila voltam a Roma e hospedam uma igreja em sua casa (ver Rom. 16: 3–5 ).

54–68

Nero reina.

55–56 *

Paulo escreve 2 Coríntios da Macedônia ( At 20:1, 3 ; 2 Cor. 1:16; 2:13; 7:5; 8:1; 9:2, 4 ; veja 1 Cor. 16:5 ).

57*

Paulo passa o inverno em Corinto e escreve Romanos ( At 20:3 ; veja Rm 16:1-2 ; veja também Rm 16:23 com 1 Cor. 1:14 ); viaja para Jerusalém ( Atos 21:1-16 ), visita Tiago, o irmão de Jesus ( Atos 21:17-26 ), e é preso ( Atos 21:27-36; 22:22-29 ).

57–59

Paulo é preso e transferido para Cesaréia ( Atos 23:23-24, 33-34 ).

60

Paulo começa a viagem a Roma ( Atos 27:1-2 ); ele naufraga por três meses na ilha de Malta ( At 27:39–28:10 ).

60–70 *

Carta aos Hebreus está escrita.

62

Tiago, o irmão do Senhor, é executado pelo sumo sacerdote saduceu Ananus.

62–63 *

Pedro escreve sua primeira carta ( 1 Pedro ) de Roma ( 1 Pedro 5:13 ).

62 *

Paulo chega a Roma e permanece em prisão domiciliar ( At 28:16-31 ); ele escreve Efésios (ver versículos para Colossenses ), Filipenses ( Filipenses 1:7, 13, 17; 4:22 ), Colossenses ( Cl 4:3, 10, 18 ; veja Atos 27:2 com Colossenses 4:10 ), Filemom (ver Filem. 23 com Col. 1:7 ; Filem. 2 com Col. 4:17 ; Filem. 24 com Col. 4:10 ; também ver Col. 4:9 ). Lucas, médico e companheiro de Paulo (veja Col. 4:14), escreve Lucas e Atos .

62–64

Paulo é libertado, estende sua missão (provavelmente alcançando a Espanha), escreve 1 Timóteo da Macedônia (veja 1 Tim. 1:3 ) e Tito de Nicópolis ( Tito 3:12 ); ele é preso novamente em Roma ( 2 Tim. 1: 16-17 ).

63–64

O trabalho no complexo do templo está concluído.

64 (19 de julho)

Incêndio em Roma; Nero culpa e mata muitos cristãos.

64–67 *

Pedro escreve sua segunda carta ( 2 Pedro ). Jude escreve sua carta. Paulo escreve 2 Timóteo (ver 2 Tim. 4:6–8 ). Paulo e Pedro são martirizados em Roma.

66

A Primeira Guerra Judaico-Romana começa com um tumulto entre gregos e judeus em Cesaréia; O procurador romano Gesius Florus ( 64-66 DC ) é assassinado e uma guarnição romana exterminada; Menaém, filho ou neto de Judas, o Galileu, assassina o sumo sacerdote Ananias e toma o controle do templo; Nero despacha Vespasiano com três legiões.

67 *

Os romanos destroem a comunidade de Qumran, que antes escondia os chamados Manuscritos do Mar Morto em cavernas próximas; a igreja em Jerusalém foge para Pela ( Mat. 24:15-16 ; Marcos 13:14 ; Lucas 21:20-22 ); João migra para Éfeso com Maria, mãe de Jesus.

68

Nero comete suicídio; ano dos três imperadores.

69

Rebelião reprimida na Galiléia e Samaria; Vespasiano convocado de volta a Roma para se tornar imperador.

70 (30 de agosto)

Tito, filho de Vespasiano, após um cerco de cinco meses a Jerusalém, destrói o templo depois de profaná-lo; a menorá do templo, a Torá e o véu são removidos e depois expostos em um desfile de vitória em Roma; a influência dos saduceus termina; o fariseu Johanan ben Zakkai escapa e convence os romanos a permitir que ele e outros se estabeleçam em Jamnia, onde fundaram uma escola.

73 (2 de maio) *

Antes que o general romano Silva invada a fortaleza no topo de Massada após um cerco de dois anos, 936 rebeldes judeus cometem suicídio.

75

Tito tem um caso com a princesa judia Berenice, irmã de Agripa II ( At 25:13, 23 ), a quem mais tarde abandona por causa do escândalo.

77

Plínio, o Velho, escreve História Natural .

77–78

Josefo publica Guerra Judaica em Roma.

79

Pompéia e Herculano são destruídas pela erupção do Vesúvio; Plínio, o Velho, morre tentando investigar.

81

O Arco de Tito, celebrando sua destruição do templo, é erguido em Roma.

81–96

Domiciano, irmão de Tito, persegue cristãos entre a nobreza romana, incluindo seus próprios parentes Clemente e Domitila.

85–95 *

João escreve suas cartas ( 1-3 João ), provavelmente em Éfeso.

89–95 *

João escreve seu Evangelho, provavelmente em Éfeso.

93–94

Josefo publica Antiguidades Judaicas em Roma.

94

Domiciano exila filósofos de Roma.

95*

Em meio à perseguição, Clemente, um líder da igreja romana, escreve sua Carta aos Coríntios ( 1 Clemente ) apelando à paz entre os jovens e os anciãos.

95–96 *

Exilado por Domiciano a Patmos, João escreve Apocalipse ( Apoc. 1: 9 ).

96–98

Nerva, o primeiro dos cinco “bons” imperadores, encerra a perseguição oficial.

* denota data aproximada; / significa ou/ou



Os Evangelhos: Uma Síntese

INTRODUÇÃO

Começando pelo início.

O que é o evangelho ?

Como estudar ?

O que significa Sinóptico ?

Por que João não é Sinóptico ?

Quem foram os autores ?

O que é a Teoria das Quatro Fontes ?

A Canonicidade da Bíblia.

Critérios de canonicidade bíblica

Extensão Do Cânon

O Cânon Estabelecido

As Marcas Da Canonicidade

O Escopo Do Cânon

Introdução ao Evangelho segundo Mateus

Introdução ao evangelho segundo Marcos

Introdução ao Evangelho segundo Lucas

Introdução ao Evangelho segundo João


Introdução

Antes de começar falando dos livros que compõe o evangelho vamos explicar o que é o evangelho e outros assuntos como sinópticos, sobre os autores a canonicidade e seus critérios, pois toda viagem precisa partir de algum ponto e no quesito Bíblia isso é importantíssimo saber que tipo de gênero literário estamos tratando.

O que é o evangelho ?

A palavra evangelho deriva do grego, é formada pela união de dois termos εὐαγγέλιον | euangelion| (eu, bom, -angelion, mensagem) que significa boa mensagem, boa notícia, boa nova. Sabendo então qual o significado da palavra evangelho, resta-nos entender o que realmente é o Evangelho.

Antes de tentar explicar o evangelho no contexto cristão é bom lembrar que essa palavra já era muito utilizada no contexto bélico pelos gregos e romanos. Flávio Josefo um historiador judeu, utiliza a palavra “εὐαγγέλιον” para se referir a noticia recebida pelo corrupto procurador romano da Judéia Géssio Floro, que permitia o inicio da guerra dos judeus contra os romanos conforme o próprio procurador desejava ou seja para o procurador era um “boa noticia” pelo menos quatro referências em seu livro “Guerras Judaicas" Flávio se refere à evangelho: a)Início da guerra dos judeus contra os romanos; b) As empreitadas bem-sucedidas de Vespasiano no leste do Império Romano; c) o conteúdo da carta injuriosa de um dos tetrarcas da Judeia; d) Os feitos bélicos que Tito anunciou a seu pai Vespasiano; e) O encurralamento de Josefo. Então seria uma ironia usar a Palavra evangelho para a vida de Cristo ? muitos creem que sim, pois foi uma afronta aos governadores do mundo da época “os Herodes” saber que os Cristãos tinham como Rei dos reis o filho de carpinteiro judeu que morreu numa cruz.

Com esse parênteses fechado vamos a nossa definição de evangelho. Talvez a definição mais clara e objetiva sobre o que é o Evangelho, foi registrada pelo Apóstolo Paulo, escrevendo sua Carta aos Romanos, ao dizer que o Evangelho “é o poder de Deus para salvar” (Rm 1:16).


Em outras palavras, o que Paulo está dizendo é que o Evangelho é o próprio evento de Cristo, ou seja, o Cristo crucificado, Sua obra completa na cruz resgatando e salvando o pecador, em sacrifício substitutivo. Sobre isso, o mesmo Paulo dá mais detalhes, dessa vez escrevendo aos Coríntios. o apóstolo fala que é pelo Evangelho que somos salvos, pois o Evangelho é a mensagem de que “Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras, e que foi sepultado, e que ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras” (1Co 15:1-6).


No Evangelho de Marcos (1:15), temos outra definição interessante acerca do que é o Evangelho. Marcos escreve que Jesus foi para a Galiléia, anunciando as boas novas de Deus. Seu anúncio consistia em dizer que “o tempo é chegado, e o Reino de Deus está próximo“, acompanhado da exortação acerca do arrependimento: “Arrependam-se e creiam nas boas novas!“.


No Novo Testamento, o termo “evangelho” é empregado pelo menos setenta e seis vezes, sempre no sentido cristão, isto é, o da mensagem essencial da salvação. Em tais passagens, a palavra “evangelho” é acompanhada de diversas frases descritivas, porém sempre conservando o mesmo significado, como por exemplo:



  • O Evangelho do Reino (Mt 4:23; 9:35; 24:14).

  • O Evangelho de Jesus Cristo (Mc 1:1; Rm 15:19; 1Co 9:12; 2Co 2:12).

  • O Evangelho de Deus (Mc 1:14; Rm 1:1; 15:16).

  • O Evangelho da Graça de Deus (At 20:24).

  • O Evangelho de Seu Filho (Rm 1:9).

  • O Evangelho da Glória de Cristo (2Co 4:4).

  • O Evangelho da vossa salvação (Ef 1:13).

  • O Evangelho da paz (Ef 6:15).

  • O Evangelho eterno (Ap 14:6).


Ainda no Novo Testamento, podemos encontrar muitas outras explicações acerca do que é o Evangelho. Na Epístola aos Tessalonicenses (1:5), aprendemos que o Evangelho não vem somente em palavras, mas também em poder, e, comparando com a passagem já citada em Romanos 1:16, compreendemos que o Evangelho é o próprio poder de Deus, que revela a Sua Justiça e conduz à salvação todos aqueles que crêem.


Escrevendo a Timóteo, Paulo refere-se ao Evangelho como um tesouro sagrado (1Tm 1:11). Paulo ainda declara que o Evangelho é a “palavra da verdade” (Ef 1:13), e está oculto dos incrédulos (2Co 4:3,4) os quais pedem sinais miraculosos ou procuram alguma sabedoria que possa prová-lo. Por isso, Paulo diz que o Evangelho é um escândalo para os que buscam sinais, e loucura para os que buscam provas racionais (1Co 1:23).


Um bom exemplo do que é o Evangelho é a Carta de Paulo aos Romanos, que basicamente explica todo esse Processo da situação do Homem sem Deus, o que Deus fez para resgatá-lo, o que é feito com o regenerado e como deve-se viver a nova criatura em Cristo.



Como estudar ?

Podemos estudar de duas formas: Sistemática, Colocando as doutrinas bíblicas em um sistema ordenado, catalogadas de forma coerente para que se possa compreender melhor e Cronológica, Colocando os acontecimentos na ordem em que ocorreram os fatos. Ambas são complementares, afinal toda escritura precisa ser entendida e aplicada, não são apenas histórias são nossa regra de fé e prática.

O que significa Sinóptico ?

Duas palavras gregas formam a palavra sinópticos são elas “συν” syn = com, conjunto; “οπτικός” ópticos = visão. "visão conjunta", é atribuído aos três primeiros evangelhos Mateus, Marcos e Lucas, o que nos leva a certeza que precisamos ler os três para ter uma visão melhor das nuances da vida do nosso Mestre e Senhor que cada evangelista quis destacar.

Por que João não é Sinóptico ?

A ênfase de João é mais no Jesus Divino e não ao Jesus Histórico, o que não quer dizer que não João não seja uma descrição histórica, mas João fez uma seleção para mostrar toda a Divindade de Cristo como uma espécie de tese sobre o Filho de Deus.

Quem foram os autores ?

Falaremos de cada um separadamente mas em resumo temos: Mateus: Mateus (também chamado de Levi) um dos 12 que era publicano mas largou tudo ao ser convidado por Jesus [Lc 5:27,28]; Marcos: Marcos, filho de Maria de Jerusalém, At 12:12 ; Também referido como João Marcos [At 12:25] ; Parente de Barnabé [Cl 4:10] ; Companheiro de Pedro segundo a tradição por isso que o livro também é chamado de Evangelho de Pedro por alguns escritores Antigos; Afastou-se de paulo Temporariamente em sua primeira viagem missionária [At 13:13]; mas sua amizade com Paulo foi restaurada [2 Tm 4:11]; Lucas: Lucas "o médico amado" [Cl 4:14]; Autor de Atos; Amigo próximo de Paulo; e João: o Apóstolo Amado; autor de Apocalipse o último livro canônico do Novo Testamento.

O que é a Teoria das Quatro Fontes ?

Após muitas pesquisas, surgiram várias teorias para tentar explicar o processo de composição dos sinóticos e suas principais fontes. A teoria mais aceita hoje em dia é a “Teoria dos Quatro Documentos” que basicamente é explicar que os evangelistas se utilizam de fontes correlatas que chamamos de Protomarcos, Fonte “Q”, Fonte “M”, Fonte ”L”.


Em 1901 o teólogo Alemão Bernard Weiss, denominou de “Q” ou “Quelle” (fonte em alemão), para explicar de onde Mateus e Lucas retiraram seu material em comum que não se encontra em Marcos. Enquanto que houve um “protomarcos” (provavelmente de relatos de Pedro) . Como fonte para Marcos; e ainda a fonte “M” para aquilo que somente há em Mateus, e “L” para o que somente se encontra em Lucas. Foi no livro “Os Quatro Evangelhos” lançado em 1924, que o autor propôs essa teoria.


A Canonicidade da Bíblia.

A palavra Cânon (kanw,n), de origem semita, significa cana de medir ou régua.

Segundo informa Philipp Vielhauer, o uso figurado do termo foi aplicado a diversas áreas: estética, gramatical, hermenêutica, ética, filosófica e religiosa. Passou a ter, então, o sentido de norma ou regra. O termo aparece 62 vezes no AT (Jó 31. 22; Is. 46. 6; 2 Rs. 18. 21).


No Novo Testamento (NT) a palavra kanón aparece 4 vezes: em Gl 6. 16: “e, a todos quantos andarem conforme esta regra”; Paulo usa no sentido de regra moral ou lei moral e em 2Co. 10. 13, 15, 16, onde aparece respectivamente “reta”, “nossa regra”, “além”, com o sentido de esfera de ação demarcada por Deus.


Entre os Pais da Igreja, pode-se verificar que Clemente de Roma usa a palavra como “cânon de obediência”. Clemente de Alexandria chama a harmonia do Antigo e NT de “cânon eclesiástico”. Irineu, em referência ao Credo Batismal, o chama-o “Cânon da Verdade”(kanw.n tn/j avlhqei,aj). Policarpo chama o Evangelho de “Cânon da Fé”.


As Sagradas Escrituras foram chamadas de “regra (cânon) de todas as coisas”, enquanto Isodoro de Pelúsio a chama de “divinas Escrituras, Cânon da Verdade”.


“A igreja cristã não precisou formar para si a ideia de um ‘cânon’ […], ou seja, de uma coleção de livros dados por Deus para ser a regra autoritativa de fé e prática. Ela herdou esta ideia da igreja judaica, juntamente com a coisa em si, as Escrituras judaicas, ou o cânon ‘do Antigo Testamento’ […] A igreja cristã, portanto, nunca existiu sem a ‘Bíblia’ ou sem um ‘cânon’”


Porém, o termo Cânon foi aplicado aos escritos do AT/NT no 4.º século e isso em dois sentidos: 10 primeiro, como “registro oficial”, um “catálogo”, aplicado à lista dos livros reconhecidos na Igreja como escritos sagrados. No segundo sentido, o termo foi usado como “norma normans” (norma normativa), aplicado à Coleção de Escritos Sagrados como regra de ensino e vida de igreja pelo conteúdo desses escritos.


Quanto ao termo “apócrifo” (gr. Apokryphos), que significa “oculto”, “secreto” ou “escondido”. Segundo Geisler, o termo “geralmente se refere a livros polêmicos do AT que os protestantes rejeitam e os católicos romanos e as igrejas ortodoxas aceitam”.

Porém, os que aceitam tais livros os chamam de “deuterocanônicos”, distinguindo, assim, dos livros do Cânon Judaico (AT) chamado de Protocanônico.


Critérios de canonicidade bíblica


  1. Extensão Do Cânon

Há muitos conceitos errados a respeito do cânon. Críticos argumentam que, devido ao grande número de livros – mais do que dois mil, eles dizem – que poderiam ter sido incluídos na Bíblia, parece provável que alguns livros deveriam ter sido incluídos, mas não foram, enquanto outros livros que não eram qualificados foram incluídos. No entanto, a maioria dos livros considerados para a inclusão no cânon foi rápida e facilmente rejeitada pela igreja primitiva, porque eram tão obviamente fraudulentos.

No século II, hereges gnósticos, reivindicando autoridade apostólica, escreveram seus próprios livros e os propagaram amplamente. Contudo, estes livros nunca foram considerados seriamente para a inclusão no cânon; por isso, é enganoso afirmar que havia mais de dois mil potenciais candidatos. Se consideramos o processo histórico de seleção realizado pela igreja, um processo regido por grande cautela e investigação cuidadosa, vemos que somente três dos documentos excluídos sofreram consideração séria para inclusão no Novo Testamento: a Didaquê, o Pastor de Hermas e a Primeira Epístola de Clemente de Roma. Estes documentos tiveram sua origem no final do século I ou início do século II. Se alguém os lê, fica evidente que os escritores eram conscientes de que sua obra era sub e pós-apostólica. Portanto, eles se submetiam à autoridade dos apóstolos e de seus escritos.

Os documentos excluídos são importantes e úteis para a igreja, afinal possuem valor histórico, e foi assim no decorrer da história da igreja, mas nunca houve um conflito sobre a inclusão deles no cânon. A maior parte da controvérsia sobre o cânon nos primeiros séculos se referia não ao que era excluído e sim ao que era realmente incluído. O debate prosseguiu por algum tempo a respeito de incluir ou não Hebreus, 2 Pedro, 2 e 3 João e Apocalipse.


  1. O Cânon Estabelecido

Outros se opõem à autoridade do cânon porque ele não foi estabelecido até ao século IV, muito tempo depois da vida e morte de Cristo. Estabelecer o cânon foi um processo que aconteceu durante um período de tempo; mas isso não significa que a igreja esteve sem um Novo Testamento até ao fim do século IV. Desde o próprio início da igreja, os livros básicos do Novo Testamento, aqueles que lemos e observamos hoje, estavam em uso e funcionavam como um cânon por causa de sua autoridade apostólica.

O problema que causou o estabelecimento do cânon foi o aparecimento de um herege chamado Marcião, que publicou seu próprio cânon. Sob a influência do gnosticismo, Marcião acreditava que o Deus apresentado no Antigo Testamento não era o Deus supremo do universo e sim uma deidade menor chamada um “demiurgo” que tinha uma disposição caprichosa, e que Cristo viera para revelar o verdadeiro Deus e libertar-nos dessa deidade de espírito inferior.

Como resultado, Marcião excluiu tudo no Novo Testamento que poderia ligar Cristo de uma maneira positiva a Javé, o Deus do Antigo Testamento. O evangelho de Mateus e muito do conteúdo dos outros evangelhos foi removido, bem como qualquer referência que Cristo fez a respeito de Deus como seu Pai.

Marcião também eliminou parte dos escritos de Paulo. Ele acabou produzindo uma versão pequena, abreviada e editada do Novo Testamento. Esta heresia impulsionou a igreja a apresentar uma lista formal e autoritária dos livros bíblicos.


  1. As Marcas Da Canonicidade

A fim de determinar a autoridade canônica, a igreja aplicou um teste de três critérios. Alguns se inquietam com o fato de que houve um processo de seleção, mas a meticulosidade do processo deveria tranquilizar-nos.

A primeira marca ou teste usado para averiguar a autoridade de um livro foi sua origem apostólica também chamada de “apostolicidade”, um critério que teve duas dimensões. Para ser de origem apostólica, um documento precisava ter sido escrito por um apóstolo ou sob a sanção direta e imediata de um apóstolo. O livro de Romanos, por exemplo, não foi questionado porque todos concordavam em que ele havia sido escrito pelo apóstolo Paulo e, por isso, tinha autoridade apostólica. De modo semelhante, nem o evangelho de Mateus nem o evangelho de João

foram questionados, porque foram escritos por apóstolos de Jesus. O evangelho de Lucas não foi questionado porque Lucas era um companheiro de Paulo e viajava com ele em suas viagens missionárias. De modo semelhante, Marcos foi entendido como o porta-voz do apóstolo Pedro, de modo que a autoridade de Pedro estava por trás do evangelho de Marcos. Desde o próprio começo, não houve nenhuma dúvida quanto à autoridade apostólica e à canonicidade dos quatro evangelhos ou do corpus básico dos escritos de Paulo.

A segunda marca de aceitação para o cânon foi a recepção por parte da igreja primitiva. A epístola aos Efésios é um exemplo que satisfaz a este critério. A suposição é que Paulo tencionava que esta carta fosse para uma audiência mais ampla do que apenas a igreja em Éfeso. Ela foi escrita como uma carta circular, designada a ser propagada por todas as igrejas na região ao redor de Éfeso. Isso era verdadeiro não somente em relação à epístola aos Efésios, mas também às outras epístolas de Paulo. Os evangelhos escritos eram também amplamente circulados entre as congregações do século I. Na questão de reconhecimento histórico, a igreja, ao analisar o que incluir no cânon, levou em consideração como um documento específico havia sido recebido e citado como portador de autoridade desde o início em diante. Na Primeira epístola de Clemente, que não foi reconhecida como canônica, Clemente cita a epístola de Paulo aos coríntios, mostrando que 1 Coríntios havia sido recebido, pela comunidade cristã primitiva, como portadora de autoridade. Na própria Bíblia, o apóstolo Pedro faz menção das cartas de Paulo como incluídas na categoria de Escritura (2 Pe 3.16).

A terceira marca de canonicidade foi a causa de maior parte da controvérsia. Os livros considerados apostólicos ou sancionados por um apóstolo e também recebidos pela igreja primitiva constituíam o conjunto básico do Novo Testamento e foram recebidos no cânon sem qualquer controvérsia real, mas houve um segundo nível de livros sobre os quais houve algum debate. Uma das questões se referia à compatibilidade de doutrina e ensino destes livros com os livros do conjunto básico.

Esta foi a questão que provocou algumas das dúvidas sobre o livro de Hebreus. Uma parte da epístola, Hebreus 6, tem sido interpretada frequentemente como que indicando que os redimidos por Cristo podem perder sua salvação, um ensino que discorda do resto do ensino bíblico sobre o assunto. Entretanto, esse capítulo pode ser interpretado de uma maneira que não esteja fora de harmonia com o resto da Escritura. O que finalmente mudou o debate sobre Hebreus foi o argumento de que Paulo era seu autor. Nos primeiros séculos, a igreja acreditava que Paulo era o autor de Hebreus, e isso fez a epístola ser incluída no cânon. Ironicamente, há poucos eruditos hoje que acreditam que Paulo a escreveu, porém há muito menos eruditos que negariam que ela pertence ao cânon.


  1. O Escopo Do Cânon

No século XVI, surgiu uma disputa entre a Igreja Católica Romana e os protestantes sobre o escopo e a extensão das Escrituras do Antigo Testamento, especificamente sobre os apócrifos, um grupo de livros produzidos durante o período intertestamentário. A Igreja Católica Romana adotou os apócrifos; as igrejas da Reforma, em sua maior parte, não os adotaram.

A disputa centralizou-se no que a igreja do século I e Jesus haviam aceitado como canônico. Toda a evidência procedente da Palestina indica que o cânon dos judeus da Palestina não incluía os apócrifos, enquanto muitos em Alexandria, o centro cultural para judeus helenistas, os incluíam. No entanto, erudição mais recente sugere que até o cânon de Alexandria reconhecia os apócrifos apenas num nível secundário, mas não no nível pleno de autoridade bíblica.

Assim, permanece a questão a respeito de quem estava certo – a Igreja Católica Romana ou os protestantes? Em outras palavras, por meio de que autoridade determinamos o que é canônico? De acordo com os protestantes, cada livro presente na Bíblia é um livro infalível, mas o processo realizado pela igreja referente a que livros incluir no cânon não era infalível.

Cremos que a igreja foi guiada providencialmente pela misericórdia de Deus no processo para determinar o cânon e, por isso mesmo, fez as decisões certas, de modo que cada livro que deveria estar na Bíblia está realmente na Bíblia. Entretanto, não acreditamos que a igreja era inerentemente infalível, naquele tempo ou mesmo agora. Por contraste, a fórmula católica romana diz que temos os livros corretos porque a igreja é infalível e qualquer coisa que a igreja decide é uma decisão infalível.

No entendimento católico romano, a formação do cânon se fundamenta na autoridade da igreja, enquanto no entendimento protestante ele se fundamenta na providência de Deus.


Introdução ao Evangelho segundo Mateus

O Evangelho de Mateus está na organização dos livros no testamento como primeiro, isso não significa que tenha sido escrito primeiro, afinal os livros no NT não estão organizados por cronologia mas por “assunto” ou temática. Ele era o principal Evangelho utilizado pela Igreja Primitiva. Através do evangelho de Mateus, todo cristão verdadeiro é instruído a cumprir com gratidão o serviço de anunciar o Reino de Deus.

O livro foi escrito por volta 30-40 da era cristã o autor segundo a tradição foi Mateus. Mateus descreve sua chamada quando ainda estava na coletoria:

Quando Jesus saiu dali, viu um homem chamado Mateus sentado na coletoria e lhe disse: — Siga‑me! Ele se levantou e o seguiu. Estando Jesus à mesa, na casa de Mateus, muitos publicanos e pecadores vieram e tomaram lugares com Jesus e os seus discípulos. Vendo isto, os fariseus perguntavam aos discípulos de Jesus: — Por que o Mestre de vocês come com os publicanos e pecadores? Mas Jesus, ouvindo, disse: — Os sãos não precisam de médico, e sim os doentes. Vão e aprendam o que significa: “Quero misericórdia, e não sacrifício.” Pois não vim chamar justos, e sim pecadores. (Mateus 9:9-13 )


Após o século 18, alguns críticos começaram a contestar a autoria do primeiro Evangelho. Eles passaram a sugerir que o verdadeiro autor foi um cristão anônimo do século 1, e que talvez este tenha utilizado alguns manuscritos originalmente escritos pelo apóstolo Mateus para compor essa obra canônica.

Um dos pontos mais discutidos entre tais críticos é a dificuldade que existe com relação ao idioma em que o Evangelho de Mateus foi escrito. Existe a possibilidade de que Mateus tenha escrito sua obra em hebraico e grego.

Seja como for, a verdade é que não existem argumentos realmente convincentes para que de fato a autoria do Evangelho de Mateus, pelo próprio Mateus, seja contestada.

Assim, o apóstolo Mateus continua sendo o autor mais aceito entre os estudiosos, desde os mais antigos até os mais modernos. Mesmo que haja alguma dificuldade em se determinar com exatidão sua autoria, nada esconde a verdade que o próprio Espírito de Deus é o principal autor desse Evangelho.


Propósito


Provavelmente o Evangelho de Mateus teve como destinatário a igreja de Antioquia. Essa era uma congregação formada por judeus e gentios (cf. Atos 15). Alguns detalhes do próprio Evangelho de Mateus demonstram que havia muitos judeus entre seus destinatários originais:


O Evangelho de Mateus enfatiza as promessas feitas no Antigo Testamento sobre a vinda do Messias o que interessava especificamente o povo Judeu.

  • A genealogia de Jesus é apresentada recuando até Abraão.

  • A expressão “Jesus Filho de Davi” aparece repetidamente.

  • A utilização do termo “Reino dos Céus” ao invés de “Reino de Deus”.

Um resumo básico é a ênfase na linhagem do Messias, o paralelo entre Jesus e Moisés e o Fato de Jesus ser o Filho do Homem Deus Conosco.

Quando Jesus chegou à região de Cesaréia de Filipe, consultou seus discípulos: “Quem as pessoas dizem que o Filho do homem é?” E eles responderam: “Alguns dizem que é João Batista; outros Elias; e ainda há quem diga, Jeremias ou um dos profetas”. Então Jesus interpelou: “Mas vós, quem dizeis que Eu sou?” E, Simão Pedro respondeu: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”. Ao que Jesus lhe afirmou: “Abençoado és tu, Simão, filho de Jonas! Pois isso não foi revelado a ti por carne ou sangue, mas pelo meu Pai que está nos céus. Da mesma maneira Eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do Hades não prevalecerão contra ela. Eu darei a ti as chaves do Reino dos céus; o que ligares na terra haverá sido ligado nos céus, e o que desligares na terra, haverá sido desligado nos céus”. E, então, ordenou aos discípulos que a ninguém dissessem ser Ele o Cristo. Jesus prediz seu sacrifício. Mt 16:13-20

O propósito e tema do Evangelho de Mateus é apresentar Jesus como o Messias, o Filho de Deus. Ele é descrito no primeiro Evangelho como sendo o cumprimento das profecias anunciadas pelos profetas no Antigo Testamento.Logo na genealogia do capítulo 1, o Evangelho de Mateus mostra que Jesus é o tão esperado rei prometido. O reino que Ele trouxe é o cumprimento do plano de redenção de Deus. O Evangelho de Mateus nos informa que Jesus: cumpriu as Escrituras; inaugurou o Reino de Deus; comissionou seus seguidores a espalhar esse reino a todos os povos, tribos e línguas; advertiu que a tarefa de evangelizar seria acompanhada de aflições e perseguições, mas também avisou que sempre estaria com aqueles que são seus. Por fim, Ele prometeu que um dia retornará e o Reino de Deus alcançará sua plena realização.

Com um arranjo sistemático muito bem feito, o autor do primeiro Evangelho traz uma categorização e organização dos temas de forma impecável. Assim Mateus nos proporciona a experiência maravilhosa de lermos os relatos do ministério de Jesus descritos por uma testemunha ocular: o próprio apóstolo Mateus.


Esboço:


Capítulo 1: Genealogia, Nascimento Virginal,

Capítulo 2: Visita dos Magos, Fuga para o Egito, Matança dos Meninos de Belém e Volta do Egito.

Capítulo 3: A Pregação de João Batista, O batismo de Jesus.

Capítulo 4: A tentação de Jesus, o começo do Ministério de Jesus na Galiléia “ é chegado o Reino de Deus”, Jesus chama quatro pescadores, Jesus ensina e cura muitas pessoas.

Capítulo 5-7: O sermão do monte.



Esses Capítulos, são intrinsecamente ligados e interligados com a Narrativa do Cumprimento da Chegado do Reino de Deus. o Anúncio, o ministério de Resgate, o confronto de Jesus com o Mal, a derrota do mesmo a restauração das pessoas e o novo nascimento, e no sermão da montanha dos capítulos 5 a 7 o “modelo” dos pertencentes desse novo Reino, um reino invertido onde são felizes os humildes e não os que são auto-suficientes, os que choram não os “fortes” e insensíveis e demais virtudes que são antagônicas as virtudes humanísticas do que o mundo prega onde as pessoas são medidas pelo que tem e não pelo que são, o mundo sempre tenta moldar a igreja aos seus sistemas de valores, mas uma volta às escrituras sempre é o fator primordial para nos mantermos parecidos com Aquele que é nosso exemplo.


Capítulo 8-10

Quando o reino chega nas vidas das pessoas tudo muda, esses capítulos estão repletos de ações poderosas de Jesus, Curando e mudando a vida das pessoas, mostra também as chamadas e vocações dos apóstolos Apóstolo é uma pessoa que foi comissionada, isto é, enviada por alguém. A palavra “apóstolo” traduz o grego apostolos, que significa “mensageiro” ou “enviado”. O grego apostolos deriva do verbo apostellein, que significa “enviar”, “remeter”, ou num sentido mais específico, “enviar com propósito particular”.

No uso teológico, o termo grego apóstolos muitas vezes é utilizado para designar mensageiros, mas com ênfase em quem o enviou. Sob esse aspecto, o apóstolo representa aquele que o envia, e é investido de autoridade para tal. Dessa forma ele representa a personalidade e a influência de seu mandatário. À parte do uso cristão, esse termo também é empregado no contexto náutico.

A Septuaginta utiliza o grego apostolos para traduzir o hebraico shalah e seus termos derivados. Já no Novo Testamento, esse mesmo termo grego aparece mais de oitenta vezes, principalmente nos escritos de Lucas e Paulo. Isso significa que a palavra apóstolo é aplicada em diferentes contextos e propósitos. De forma geral, pode-se dizer que ela é utilizada tanto num sentido mais amplo como num sentido mais estrito. A palavra “apóstolo” também é aplicada ao próprio Senhor Jesus. O objetivo é indicar que Ele é o enviado por Deus como Salvador de seu povo (Hebreus 3:1-6). Cristo foi enviado para testemunhar do Pai, para fazer as suas obras e a sua vontade, e revelá-lo ao mundo (cf. João 3:34; 5:37-47; 6:38; 7:28,29; 8:42).

Nos capítulos que se seguem os ensinos e milagres dividem os Grupos, o povo exaltando e os líderes religiosos e políticos vendo em Jesus um subversivo, alguém que não se enquadra no “sistema” que rompe com o convencional e por isso deve ser eliminado, em Seus embates Jesus usa parábolas que quase sempre quer demonstrar o antagonismos do sistema hipócrita religioso e falido que vivia o povo com o “Reino de Deus”, e com isso explicar realmente o que é o Reino de Deus e seu “messias”, alguém que vem realmente libertar o homem da prisão do pecado e da miserabilidade humana, em suma não existe ficar em cima do muro quando se trata de Reino.


Nos Capítulos 21 a 25 o antagonismo entre o reino dos homens e o de Cristo só se amplia, Jesus denuncia publicamente toda a sujeira e hipocrisia que o esquema religioso promovia o que leva a uma decisão por parte dos religiosos de matá-lo, essa confusão de reinos estava também entre os discípulos pois havia entre eles disputas internas e preocupação com relação a posições:

“Então se aproximou de Jesus a mulher de Zebedeu, com seus filhos, e, adorando‑o, pediu‑lhe um favor. Jesus lhe perguntou: — O que você quer? Ela respondeu: — Mande que, no seu reino, estes meus dois filhos se assentem um à sua direita e o outro à sua esquerda. Mas Jesus disse: — Vocês não sabem o que estão pedindo. Será que podem beber o cálice que eu estou para beber? Eles responderam: — Podemos. Então Jesus lhes disse: — Vocês beberão o meu cálice. Quanto a sentar à minha direita e à minha esquerda, não me compete concedê‑lo, pois é para aqueles a quem está preparado por meu Pai. Quando os outros dez discípulos ouviram isso, ficaram indignados com os dois irmãos. Então Jesus, chamando‑os para junto de si, disse: — Vocês sabem que os governadores dos povos os dominam e que os maiorais exercem autoridade sobre eles. Mas entre vocês não será assim; pelo contrário, quem quiser tornar‑se grande entre vocês, que se coloque a serviço dos outros; e quem quiser ser o primeiro entre vocês, que seja servo de vocês; [28] tal como o Filho do Homem, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos. (Mateus 20:20-28)


Nos capítulos 24 e 25, temos os discursos proféticos, falando sobre o futuro do povo de Israel, que mais tarde veio acontecer basicamente Jesus responde às duas perguntas dos Discípulo:

Jesus saiu do templo e, enquanto caminhava, os seus discípulos se aproximaram para lhe mostrar as construções do templo. Ele, porém, lhes disse: — Vocês estão vendo todas estas coisas? Em verdade lhes digo que não ficará aqui pedra sobre pedra que não seja derrubada. Jesus estava sentado no monte das Oliveiras quando os discípulos se aproximaram dele e, em particular, lhe pediram: — Diga‑nos quando essas coisas vão acontecer e que sinal haverá da sua vinda e do fim dos tempos. (Mateus 24:1-3)


  1. Quando essas coisas ou seja a “destruição do Templo e as assolações de Jerusalém”?

  2. Quais sinais da sua segunda vinda ?

  3. Quais sinais do fim dos tempos?


Então Jesus misturas essas três respostas nesses capítulos 24 e 25, e até hoje é feita também bastante confusão na interpretação desse texto por não serem lidos com o contexto total que o mesmo está inserido.


Os Capítulos 26 a 28 São o ápice da História da Redenção, começando na última páscoa ou Pessach é a Festa da Liberdade, pois comemora a saída do Egito, local onde habitavam por mais de 400 anos, sendo um período como escravos. A travessia dos judeus pelo Mar Vermelho em direção à Terra Prometida simbolizou a passagem da escravidão para liberdade. Desde então, os judeus reúnem-se todos os anos, para celebrar a Páscoa com elementos que relembrem a sua história e os fatos que culminaram na saída do Egito.

Mas Jesus dá um novo significado mostrando que era uma figura para o que eles iam ver o Cordeiro de Deus que tiraria o pecado do mundo e não apenas encobria.



O sinédrio achando que estava vencendo um subversivo estava na verdade cumprindo as escrituras, matando o filho de Deus a maior tragédia da humanidade era também o resgate da mesma, foi em um lugar de maldição que o filho do Homem foi exaltado e seu nome está acima de todo nome. Jesus cumprio a promessa do servo sofredor:


“Quem creu em nossa pregação? E a quem foi revelado o braço do Senhor? Porque foi subindo como um renovo diante dele e como raiz de uma terra seca. Não tinha boa aparência nem formosura; olhamos para ele, mas não havia nenhuma beleza que nos agradasse. [3] Era desprezado e o mais rejeitado entre os homens, homem de dores e que sabe o que é padecer. E, como um de quem os homens escondem o rosto, era desprezado, e dele não fizemos caso. Certamente ele tomou sobre si as nossas enfermidades e as nossas dores levou sobre si; e nós o considerávamos como aflito, ferido de Deus e oprimido. Mas ele foi traspassado por causa das nossas transgressões e esmagado por causa das nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas feridas fomos sarados. Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas; cada um se desviava pelo seu próprio caminho, mas o Senhor fez cair sobre ele a iniquidade de todos nós. Ele foi oprimido e humilhado, mas não abriu a boca. Como cordeiro foi levado ao matadouro e, como ovelha muda diante dos seus tosquiadores, ele não abriu a boca. [8] Pela opressão e pelo juízo, ele foi levado, e de sua linhagem, quem se preocupou com ela? Porque ele foi cortado da terra dos viventes; foi ferido por causa da transgressão do meu povo. Designaram‑lhe a sepultura com os ímpios, mas com o rico esteve na sua morte, embora não tivesse feito injustiça, e nenhum engano fosse encontrado em sua boca. Todavia, ao Senhor agradou esmagá‑lo, fazendo‑o sofrer. Quando ele der a sua alma como oferta pelo pecado, verá a sua posteridade e prolongará os seus dias; e a vontade do Senhor prosperará nas suas mãos. Ele verá o fruto do trabalho de sua alma e ficará satisfeito. O meu Servo, o Justo, com o seu conhecimento justificará a muitos, porque as iniquidades deles levará sobre si. Por isso, eu lhe darei a sua parte com os grandes, e com os poderosos ele repartirá o despojo, pois derramou a sua alma na morte e foi contado com os transgressores. Contudo, levou sobre si o pecado de muitos e pelos transgressores intercedeu. (Isaías 53:1-12 NAA)”


No final do Livro Jesus ressuscita, o túmulo está vazio e Jesus agora não mais é o servo sofredor mas o Rei dos Reis e Senhor dos senhores não pede e nem sugere mas determina e comissiona: “Os onze discípulos partiram para a Galiléia, para o monte que Jesus lhes havia designado. E, quando viram Jesus, o adoraram; mas alguns duvidaram. Jesus, aproximando‑se, falou‑lhes, dizendo: — Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra. Portanto, vão e façam discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando‑os a guardar todas as coisas que tenho ordenado a vocês. E eis que estou com vocês todos os dias até o fim dos tempos.(Mateus 28:16-20 NAA).

Introdução ao evangelho segundo Marcos

Quero começar essa introdução trazendo outra afirmativa: os Evangelhos não são biografias, mas o anúncio da salvação de Deus através de Cristo através de fatos escolhidos dos autores do Evangelho sobre a vida de Jesus, o que ele falou e fez.


Segundo a tradição é o Evangelho mais antigo, um historiador da Igreja Primitiva chamado Papias Relata que Marcos Coletou as memórias de Pedro(seu companheiro), Marcos também foi um colega de Paulo.

A única vez que Marcos fala o que pensa é exatamente no primeiro Verso “Princípio do evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus”; e como assim como João faz essa declaração sobre o Cristo, mas não estende nessa doutrina e sim apresenta inúmeros ações e palavras de Jesus.

O evangelho de Marcos é Jesus em ação, Jesus está sempre pregando, curando… são 18 Milagres relatados e apenas 4 Parábolas.

Aquela que se encontra na Babilônia, também eleita, manda saudações, e o mesmo faz o meu filho Marcos. (1 Pedro 5:13)


Aristarco, que está preso comigo, manda saudações; e também Marcos, primo de Barnabé. A respeito dele vocês já receberam instruções; se ele for até aí, recebam‑no bem. (Colossenses 4:10)


O Evangelho de Marcos e disposto como um peça de teatro em três atos:

Ato 1 | Na Galileia | Jesus aparece e surpreende a todos “Quem é Jesus ?”.

Ato 2 | A Caminho de Jerusalém | Os discípulos se questionam o que significa ser messias ?

Ato 3 | Em Jerusalém | Paradoxo de como Jesus Se Torna REI.


  • A surpresa para todos: Quem é esse Jesus ?

  • Marcos Começa citando Isaías e Malaquias se referindo a João Batista como a Voz do que clamam nos desertos e o mensageiro que preparará o caminho.

  • Marcos faz um resumo da mensagem de Jesus: (“Ele dizia: — O tempo está cumprido, e o Reino de Deus está próximo; arrependam‑se e creiam no evangelho. (Marcos 1:15 )

  • Jesus traz o Reino Curas, Libertação e Perdão de Pecados.

  • Respostas divergentes: Surpresa pela sua sabedoria, alegria por seu poder e Questionamentos e oposição pois para os religiosos Só Deus Perdoa pecados então alguns dizem até que seu poder veio das trevas.

  • As Parábolas para explicar o Reino de Deus. o que até para os discípulos era muito difícil de entender o Reino Invertido cujos valores eram tão antagônicos em relação ao sistema de valores humanos.

  • O paradoxo da Idéia de Messias para Pedro e Para Cristo, pois para Pedro o Messias era o Rei vitorioso mas conforme Isaías 53 Jesus é o Servo Sofredor. Que trará o Governo de Deus entregando sua vida e não Fama e poder e Status.

  • Mais dois diálogos assim #2 (9:30-37) e #3 (10:32-45) que se resume em: “O filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate de muitos”.

  • A Transfiguração assim como Deus no Sinai apareceu a Elias e MoisésJesus é a própria personificação da Glória de Deus, o Deus que vai sofrer pelo seu povo e o Filho amado e Unigênito de Deus.



  • Jesus entra triunfante em Jerusalém, afirma sua autoridade e debate ferozmente contra a hipocrisia dos líderes religiosos.

  • Enquanto os discípulos fascinavam com o templo, Jesus previu sua queda e sua perseguição ainda naquela geração.

  • A semana segue para a última páscoa com seus discípulos.

  • As Trevas com a Morte do Filho do Homem e por ironia não é um religioso e nem o discípulo de Jesus mais um Soldado ROMANO que declara que Jesus é o FILHO DE DEUS.

  • Nos originais mais antigos o livro termina exatamente com esse versículo: “E, saindo elas, fugiram do sepulcro, porque estavam tomadas de temor e assombro. E não contaram nada a ninguém, porque estavam com medo. (Marcos 16:8 )”.


  • O livro nos originais mais antigos é finalizado com os discípulos com medo e confusão, esse final abrupto pode ter sido intencional, que nos leva ao questionamento, fugiremos como os discípulos ou reconheceremos a Jesus como Rei e proclamaremos suas boas novas.


Introdução ao Evangelho segundo Lucas

Este é o Maior e mais completo relato da Vida de Jesus, sobre a infância, juventude, vida, ministério, morte, ressurreição e ascensão, Lucas mostra a aliança não só de Deus com Israel mas com o mundo inteiro.

Mostrando que Jesus é o Homem perfeito, o nascimento sendo um milagre, mostrando Jesus sempre em Oração, Jesus sempre cuidando dos marginalizados, a escória da sociedade e excluídos dos moralistas foi muito amado por Cristo.

O caráter da Salvação Universal é evidenciado pelo Médico amado, Lucas não economiza nas parábolas mostrando assim as riquezas eternas e ocultando-as também dos que pela arrogância não quiseram enxergar.

A Singularidade desse livro está tanto no conteúdo como no estilo e o próprio Grego é refinado tornando-se uma obra-prima literária.

O seu Autor escreveu com uma mente aberta de um historiador extremamente meticuloso, foi o único gentio escritor do Novo Testamento e também da Bíblia as três vezes que seu nome citado como médico, cooperador e companheiro:

Lucas, o médico amado, e também Demas mandam saudações. (Colossenses 4:14 )

Marcos, Aristarco, Demas e Lucas, meus colaboradores, mandam saudações a você. (Filemom 24)

Somente Lucas está comigo. Encontre Marcos e traga‑o junto com você, pois me é útil para o ministério. (2 Timóteo 4:11).


Lucas foi um fiel cooperador e companheiro de Paulo se juntou a ele em Trôade:

Assim que Paulo teve a visão, imediatamente procuramos partir para aquele destino, concluindo que Deus nos havia chamado para lhes anunciar o evangelho. (Atos 16:10)

Estes nos precederam, ficando à nossa espera em Trôade. (Atos 20:5)


Não abandonou Paulo quando este foi preso em Jerusalém:

Quando chegamos a Jerusalém, os irmãos nos receberam com alegria. (Atos 21:17)




Acompanhou Paulo na prisão em Cesaréia e em Roma:

Uma vez em Roma, Paulo recebeu permissão para morar por sua conta, tendo em sua companhia o soldado que o guardava. (Atos 28:16)



Estava com o mesmo na segunda viagem missionária:

Somente Lucas está comigo. Encontre Marcos e traga‑o junto com você, pois me é útil para o ministério. (2 Timóteo 4:11)


Lucas também escreveu Atos, e claro que é a sequência lógica dos fatos, tendo em vista que o mesmo ele vivenciou juntamente com Paulo parte do enredo.

O Destinatário chamado Teófilo cujo significado é amigo de Deus, provavelmente era alguém Grego de alta posição social, ou um Romano convertido ao Evangelho, existe também a questão cultural que nos informa que o custo de um livro era algo muito dispendioso, e que Lucas dedica o livro ao seu padrinho do livro que financiou o processo de confecção e distribuição algo comum no mundo antigo.


[Cap 1 e 2] O Paralelo nas Histórias dos nascimento de Jesus e João batista, tem similaridades, ambos ecoam Hinos de adoração, ambos são milagres uma virgem desposada e um casal de idosos, um é o arauto e o outro é o Rei, cumprindo promessas do AT de Salvação para todo o Mundo.


[Cap 3 e 4] Após o Batismo de Jesus, Lucas apresenta a Genealogia, mas diferente de Mateus que apresenta a genealogia até Abraão mostrando a promessa messiânica para a nação de Israel Lucas vai além vai até Adão, mostrando o aspecto da promessa para todas as nações e não apenas o povo eleito. cumprindo assim a promessa feita a Abraão que nele ou melhor por meio da sua semente seriam benditas todas as família da terra fator universal da promessa e não apenas tribal.


O começo do ministério na Galiléia (4:12-17) logo após a prisão do seu Arauto João batista, que agora sai de cena Jesus inicia seu ministério e pregação de Jesus era clara e límpida:

...— Arrependam‑se, porque está próximo o Reino dos Céus. (Mateus 4:17 )


Imagine a cena, todos os sábados naquela sinagoga era estudado as escrituras tudo focava na promessa do messias, e em um sábado o filho do carpinteiro José e de Dona Maria recebe a Honra de ler um trecho das escrituras o livro de Isaías 61.

O Espírito do Senhor Soberano está sobre mim, pois o Senhor me ungiu para levar boas-novas aos pobres. Ele me enviou para consolar os de coração quebrantado e para proclamar que os cativos serão soltos e os prisioneiros, libertos.


Isaías 61:1


Conforme Levítico 25 o ano do jubileu, os escravos eram libertos, os endividados eram perdoados, era isso que o Rei dos Reis estava trazendo liberdade e perdão, os pobres, que também pode ser interpretado como os forasteiros e marginalizados têm agora vez no Reino de Deus.


  • Lucas destaca a queda de barreiras sociais e étnicas exemplos:

  • Grande Comissão (24.47)

  • Interesse pelos pobres (2.24;7.22;16.19-31)

  • Jesus amigo de pecadores (7.36-50)

  • O Filho pródigo (15.11-32)

  • Zaqueu um ladrão arrependido (23.43)

Em suma Jesus veio salvar a todos e a ênfase em Lucas é Perdidos, marginalizados, Mulheres, Doentes, impuros, pobres, publicanos ricos e gentios.


[Cap 9.46-48] O maior no Reino de Deus: Jesus percebe que os próprios discípulos não tinham idéia do Reino de Deus, e estavam confundidos com o reino deste mundo, que é baseado em poder fama, posição sociais e conveniências estratificadas de ornamentos sociais, e coloca no colo uma criança para dar o exemplo de importância, com certeza esse reino é Invertido mesmo.

Mais adiante Jesus combate o Exclusivismo de João quando proíbe um seguidor de Jesus que não fazia parte do círculo fechado de discípulo e estava expulsando demônios em nome de Jesus (vv 50) .

[Cap 10] Jesus ensina na prática que seguir a Jesus é andar na sua missão é viver o seu mandato em detrimento da nossa própria vontade enviando 70 discípulos.


Confiança em Deus é ensinado no [Cap 11] Jesus ensina a Oração ao Pai e também sobre o trato com Dinheiro, posses.


  • Lucas 9–14. Os Doze Apóstolos são enviados a pregar o evangelho e a curar. Jesus Cristo alimenta mais de 5 mil pessoas e é transfigurado em uma montanha. Ele chama os setenta e envia-os a pregar. Ele ensina sobre discipulado, hipocrisia e julgamento. Ensina a parábola do bom samaritano.


  • Lucas 15–17. Jesus Cristo ensina por parábolas. Ele ensina sobre ofensas, fé e perdão. Ele cura 10 leprosos e ensina sobre a Segunda Vinda.


  • Lucas 18–22. Jesus Cristo continua a ensinar por parábolas. Jesus cura um cego e ensina Zaqueu. Ele entra triunfante em Jerusalém, chora pela cidade e purifica o templo. Ele prevê a destruição de Jerusalém e descreve alguns dos sinais que precederão Sua Segunda Vinda. Ele institui o sacramento, ensina Seus apóstolos e sofre no Getsêmani. Ele é traído, preso, ridicularizado, ferido e interrogado.


  • Lucas 18–22. Jesus Cristo continua a ensinar por parábolas. Jesus cura um cego e ensina Zaqueu. Ele entra triunfante em Jerusalém, chora pela cidade e purifica o templo, Ele chora pois sabia que sua rejeição traria anos mais tarde uma revolta que culminaria na queda de Jerusalém . Ele prevê a destruição de Jerusalém e descreve alguns dos sinais que precederão Sua Segunda Vinda. Ele institui o sacramento, ensina Seus apóstolos e sofre no Getsêmani. Ele é traído, preso, ridicularizado, ferido e interrogado.

As tropas romanas do general Tito tomam a cidade de Jerusalém. Em 8 de setembro de 70, o Templo é incendiado e os habitantes são deportados como escravos. O Templo, construído por Salomão em 970 a. C. e reconstruído por Herodes em 19 a. C., era o símbolo e o centro do poder religioso e político dos judeus.

Somente o muro ocidental de sustentação da esplanada do Templo permanece em pé. Seria chamado mais tarde de “O Muro das Lamentações”. A destruição do Templo constitui de resto um elemento determinante para a religião cristã, que se separa então, cada vez mais, de suas origens judaicas.


Lucas 23–24. Jesus é julgado diante de Pilatos e Herodes, é crucificado e sepultado. Os anjos no sepulcro e dois discípulos na estrada de Emaús testificam que Jesus ressuscitou. Salvador aparece a Seus discípulos em Jerusalém, promete a Seus apóstolos que eles receberão o poder de Deus e ascendem ao céu. Lucas termina o evangelho iniciando uma nova fase, a fase da Igreja, pois a história é continuada em Atos.

Essa Obra além da apostolicidade Pois Lucas andou com Paulo e Conheceu outros apóstolos juntamente com seu segundo volume Atos é sem dúvida uma obra prima do Espírito Santo de Deus dando uma visão ampla do ministério de Cristo e de sua Igreja.

Introdução ao Evangelho segundo João

Chegamos ao livro de João, é tão intrigante que não pode ser visto com um mesmo olhar que os outros por isso que não pode ser classificado como Sinóptico é mais um tratado teológico, há fortes indícios que João estava combatendo a heresia gnóstica, por isso João está desafiando os leitores a deslumbrarem a encarnação: Deus em carne humana.



O livro é profundo e muito espiritual nesse livro Jesus mostra de si e ao mesmo tempo do Pai. No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. (João 1:1). A sua Pessoa e atributos “Eu sou o Cristo”; A Sua divindade e discursos profundos: com Nicodemos, a Samaritana, com os Judeus na festa dos Tabernáculos, a Parábola do bom Pastor, a Oração intercessória todos esses exemplos mostram a alta cristologia de João.

Há sempre um sinal, uma afirmativa e um divisão alguns acreditam outros se enfurecem. até porque João se dedica muito no objetivo de Jesus é o filho de Deus e sendo assim crendo tenhamos vida eterna.



O Prólogo ressalta algo profundo o verbo eterno encarnou o nível alto e único da Teologia de João afirma Jesus é Plenamente Deus em forma humana, isso é o que exatifica “encarnação”.


Ninguém jamais viu a Deus. O Deus* unigênito, que está ao lado do Pai, foi quem o revelou. (João 1:18 AS21)”


Verbo era um termo que tinha amplo significado tanto para Judeu como para Gregos, para os Helenicos significava “principio racional de todas as coisa” tudo tem origem no logos todo universo era regido por Ele. Para os Judeus era referência a Jeová, e João vai além pois Ele estava com o Pai e distinto do Pai em pessoa mas de mesma essência “tudo” foi feito por meio DEle e nada fora dele poderia ser criado.


No princípio era o Verbo|Ἐν ἀρχῇ ἦν ὁ λόγος|, e o Verbo estava com Deus|καὶ ὁ λόγος ἦν πρὸς τὸν θεόν|, e o Verbo era Deus|καὶ θεὸς ἦν ὁ λόγος. (João 1:1 AS21 | SBL)


Dos varios titulos que os Versos 19-51 um eu queria destacar o Titulo “Filho do Homem”, Jesus enfatiza isso a Natanael e João registra ...— Em verdade, em verdade lhes digo que vocês verão o céu aberto e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do Homem(João 1:51). termo conhecido pelos Judeus referente a profecia de Daniel:


“Eu estava olhando nas minhas visões da noite. E eis que vinha com as nuvens do céu alguém como um filho do homem. Ele se dirigiu ao Ancião de Dias, e o fizeram chegar até ele. Foi‑lhe dado o domínio, a glória e o reino, para que as pessoas de todos os povos, nações e línguas o servissem. O seu domínio é domínio eterno, que não passará, e o seu reino jamais será destruído.... (Daniel 7:13-14 NAA)


e um dia João vai contemplar esse significado pleno em apocalipse:

Olhei, e eis uma nuvem branca, e sentado sobre a nuvem um semelhante a filho de homem, tendo na cabeça uma coroa de ouro e na mão uma foice afiada…” (Apocalipse 14:14).


Em Apocalipse 4:7-7 temos a descrição de quatro seres viventes “O primeiro ser vivente era semelhante a um leão, o segundo era semelhante a um novilho, o terceiro tinha o rosto semelhante ao de ser humano e o quarto ser vivente era semelhante à águia quando está voando. [8] E os quatro seres viventes, tendo cada um deles, respectivamente, seis asas, estavam cheios de olhos, ao redor e por dentro. Não tinham descanso, nem de dia nem de noite, proclamando: “Santo, santo, santo é o Senhor Deus, o Todo‑Poderoso, aquele que era, que é e que há de vir.”


Foi São Jerônimo quem começou a tratar os evangelistas da forma como são tratados hoje. São Gregório Magno explica Mateus é corretamente simbolizado pelo homem porque ele inicia com a geração humana; Marcos é corretamente simbolizado pelo leão, porque inicia com o clamor no deserto; Lucas é bem simbolizado pelo bezerro, porque começa com o sacrifício; João é simbolizado adequadamente pela águia, porque começa com a divindade do Verbo, dizendo: 'No princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus, e o Verbo era Deus' (Jo 1, 1), e assim tem em vista a substância divina, fixando o olhar no sol à maneira de uma águia." João realmente foi audaz e olhou para as profundezas da Glória viu Cristo como cordeiro mas teve também o privilégio de o vê-lo como Ele é Senhor dos Senhores, Alfa e ômega.


Jesus nos capítulos 2 a 4, trabalha 4 instituições muito importantes para o povo Judáico: um Casamento, o Templo, o Ensino dos Rabinos e o Poço tão emblemático símbolo da provisão de Deus para o povo peregrino.

A água que seria usada para purificação foi tornada em vinho, assim como o sangue de Cristo que derramado pela humanidade purificou-nos de todo pecado, a Festa que poderia ter terminada em vexame e tristeza agora tinha vinho novo, assim como acontece conosco livres do pecado gozamos de verdadeira alegria que excede todo entendimento.

Na purificação do Tempo (2.12-25) Jesus mostrou sua indignação pela conduta hipócrita que nada se diferenciava do mundo, ganância, poder, corrupção, a religião tinha se tornado um meio de vida e riqueza, o sistema de venda de animais era algo que a priori tinha uma visão altruísta afinal pessoas de várias partes do mundo antigo viajam dias e trazer um animal para o sacrifício era dispendioso e muitas vezes inviável, então se comprava lá mesmo no templo mas isso se tornou um meio de avareza usura e corrupção uma verdadeira zombaria a santidade do templo do Senhor, Jesus mostrou quem Ele era o Senhor daquele lugar e de quebra informou sobre sua morte e declarou quem seria seus algozes os próprios religiosos, mas não seria o fim, Aquele que tem todo poder ressuscitaria pelo seu próprio poder ao terceiro dia.

Quando o mestre Nicodemos foi a noite falar com Jesus, o mestre mostrou que o objetivo de Deus nunca foi destruir o mundo mais salvá-lo, contudo é preciso ter fé para se chegar a Deus, e Nascer de Novo(3.3) não é um opção é necessidade e esse nascer de Novo é fruto da Graça, nada que nicodemos pudesse fazer o tornou apto da Eternidade, sua religião, sua disciplina religiosa, seu pudor, conhecimento das escrituras nada, todo o querer quanto o efetuar vem de Deus e esse processo é através do Espírito Santo, não é algo como “concordar intelectualmente” mas colocar todo nossa vida e confiança em Deus.

Agora vou direto ao ponto todos conhecem a história da Samaritana no poço, o foco é claro no ministério de Jesus Salva, mas para que isso ocorra deve haver arrependimento, então Jesus nessa história promove a tomada de consciência, e só a partir daí o processo começa, a Samaritana se defendeu com seu preconceito, mas Jesus chegou com Seu amor, revelou a doença mas chegou com cura, mostrou a ferida mas passou o bálsamo, enquanto não há reconhecimento de miserabilidade não há mudança de vida, Jesus é fonte de vida: “ ...— Se você conhecesse o dom de Deus e quem é que está lhe pedindo água para beber, você pediria, e ele lhe daria água viva. (João 4:10)”.


[cap 5.16-30] Jesus cura num sábado, aí os Judeus começaram a perseguir Jesus, a religiosidade tem um triste tendência de distorcer a vontade de Deus na Vida daqueles que foram para Deus e não alheio a Ele e seu amor, afinal os atos exteriores são bem menos importantes do que nossas posturas interiores, afinal quando nosso interior é moldado ao caráter de Deus através de seu Espírito nosso exterior Brilhar sua Glória, Quando Jesus foi repreendido ele afirmou “ Que seu Pai fazia igual a Ele” (5.18), são 7 assertivas que deixaram os Fariseus sem respostas:


  1. O filho só faz por causa do Pai (5.19,30)

  2. O Pai ama o Filho e revela tudo a Ele (5.20)

  3. O poder da Vida é dos dois pai e filho (5.21)

  4. Deus deu ao filho todo o poder de Julgar (5.22)

  5. O filho Tem a Mesma Honra que o Pai Tem (5.23)

  6. Quem crer nas Palavras do Filho ganha vida Eterna(5.24)

  7. O Fim virá por meio do Filho(5.25-30)


Diante disso e fazendo a aferição no seu monoteísmo radical os Judeus, essas afirmativas de Jesus foram interpretadas como a pior blasfêmia que alguém já falou, afinal Jesus estava proclamando que era Deus em forma humana.

Farei uma rápida explicação sobre os grupos religiosos que Jesus teve contato, no contexto neotestamentário existiam basicamente duas áreas de pensamento e costumes religiosos o Judaísmo e a Cultura Helenista, o desenvolvimento principalmente dos Judeus desde a época de Esdras, e com a destruição do Templo culminou num pensamento que precisam manter-se fiel a Jeová, sem uma dependência do Templo isso vem exatamente da interpretação do texto que fala sobre a obediência:

“Porém Samuel disse: Tem, porventura, o SENHOR tem tanto prazer em holocaustos e sacrifícios quanto em que se obedeça à sua palavra? Eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar, e o atender, melhor do que a gordura de carneiros.” (1 Sm 15:22).


A obediência dependia do conhecimento da lei surge então a sinagoga onde a partir de 10 Judeus já se podia inaugurar, e do aperfeiçoamento dessa liderança vem o Sinédrio, e posteriormente a classe Sacerdotal desenvolve um partido chamado Saduceus, acontece que após o período dos Macabeus essas instituições foram se deteriorando apesar de fortes eram apodrecidas pela demagogia e hipocrisia, sincretizadas por conta dos conchavos políticos era como o profeta João falou uma “raça de Víboras".



[Cap 11:1-16] Lázaro era Irmão de Maria e Marta, Maria a mulher que derramou um perfume sobre os seus pés e enxugou com seus cabelos(12.3) esses tres eram muito receptivos com Jesus e o mestre os amava muito. Quando soube que Lázaro estava doente Jesus demorou dois dias pois o milagre não era pra ser de uma enfermidade era para mostrar que Jesus é a ressurreição e a vida, outro fator aqui é que havia muitas pessoas querendo matar Jesus e os discípulos insistiram para Jesus não ir, inclusive o Tomé de forma um pouco malcriada afirmou “Então Tomé, chamado Dídimo, disse aos outros discípulos: Vamos nós também para morrer com ele. [11:16].




[Cap 13-17] Quem já participou de uma “aula da Saudade” sabe quanto emotivo é, bem Jesus Está se despedindo, Ele sabia que sua horrenda morte está próxima, contudo aquele que deveria está sendo confortado conforta, aquele que precisava de apoio apoia, aquele que precisava ser servido serve. Como um servo do menor nível possível Jesus lava os pés empoeirados dos seus Discípulos(13:1-18) mostrando na prática mais um vez o caráter invertido do Reino de Deus e no fim ordena: Se eu, Senhor e Mestre, lavei os vossos pés, também deveis lavar os pés uns dos outros. Pois eu vos dei exemplo, para que façais também o mesmo. vv1 4-15. nossa Carreira não é de executivo que começou de baixo mais perseguiu a fama e termina no maior status social mas é a carreira de um soldado que luta e tem a honra de dar toda sua existência pelo seu Senhor.

Após revelar coisas bem triste a Traição e abandono por seus amigos Jesus Consola: “Não se perturbe o vosso coração. Crede* em Deus, crede também em mim. Na casa de meu Pai há muitas moradas; se não fosse assim, eu vos teria dito; pois vou preparar-vos lugar. E, se eu for e vos preparar lugar, virei outra vez e vos levarei para mim, para que onde eu estiver estejais vós também. [14:1-3] Ele fez uma promessa pela qual vivemos, nos movemos e ansiamos, nada neste mundo nenhuma conquista nos satisfaz, pois nossa satisfação plena não é preenchida por nada que esteja aqui tudo já está preparado e no fundo cada um de nós sabe disso nossa montanha russa de emoções é por conta dessa insatisfação de estamos longe de casa.

Como a marca dos discípulos de Jesus é o amor, é como amor genuíno não é da natureza humana caída no [Cap 14:15-31], nos promete o “consolador” e é a primeira vez que o Espírito Santo tem proeminência e um ensino, João o Chama de “conselheiro”, presente sempre conosco o próprio livros de Atos é conhecido como “Atos do Espírito” mostrando como o mesmo foi protagonista da Obra de Cristo na Terra, e até hoje é assim, convence o homem do pecado da justiça e do Juízo, e nas horas mais difíceis está sempre ao nosso lado, guiando, capacitando sempre e para sempre.

Nada Seria Fácil e Jesus deixa isso bem claro em [Cap 15:18-27; 16:1-33] as palavras de Jesus são de alerta e consolo, perseguições e todo tipo de dificuldades, mas o Consolador estaria ao lado, lutas surgiriam mas Ele nunca nos deixará só.



Nos Capítulos 18-20, como nos demais Evangelistas João fala sobre a Morte e Ressurreição, mas eu queria focar no último episódio narrado por João um desfecho primoroso Jesus aparece de novo, os discípulo tinhas saído da Judéia e voltado para a Galiléia, de discípulos de um mestre reconhecido e rodeado por multidões a amigo de um condenado à morte, com certeza Frustrados, eles voltaram mais uma vez a seu ofício de pescadores: “Depois disso, Jesus apareceu outra vez aos discípulos, junto ao mar de Tiberíades,* do seguinte modo: Estavam juntos Simão Pedro, Tomé, chamado Dídimo, Natanael, de Caná da Galileia, os filhos de Zebedeu e outros dois dos seus discípulos. E Simão Pedro lhes disse: Vou pescar. Eles responderam: Nós também vamos contigo. Então foram e entraram no barco, mas naquela noite nada apanharam.” [João 21:1-3]; a história é conhecida houve um milagre de pescaria e Jesus Chama o discípulo que o Negou nesta oportunidade e lhe faz uma pergunta simples mais profunda ao extremo:“Depois de terem comido, Jesus perguntou a Simão Pedro: Simão, filho de João, tu me amas mais do que estes[...ἀγαπᾷς με πλέον τούτων…] ? Ele respondeu: Sim, Senhor; tu sabes que te amo. [.Ναί, κύριε, σὺ οἶδας ὅτι φιλῶ σε ] Jesus lhe disse: Cuida dos meus cordeiros. João 21:15. Isso Se repete por três vezes na Terceira Jesus usa o mesmo termo φιλῶ (philéo) usado na resposta de Pedro e não o ἀγαπᾷς (agapáo) das duas perguntas iniciais. em Suma a Palavra traduzida amar ἀγαπᾷς (agapáo), se refere ao amor que envolve Vontade e a Personalidade você me ama com todo sua vontade e com todo teu Ser ? já o segundo tipo de amor φιλῶ (philéo) justificado na Terceira pergunta tem haver mais às emoções que a vontade. quando disse que foi profunda a pergunta é porque abrange todo nosso ser Vontade, Personalidade e Emoções, o que fazemos somos e sentimos tudo isso entregamos ao nosso senhor, Jesus nos quer por completo, a religião te quer em partes, sugere um modo de vida mas Jesus nos quer por inteiro Ele nos dá outra vida.




A Missão tríade da Escola Dominical

A Escola Dominical tem objetivos definidos para atingir. Não se trata apenas de uma reunião domingueira comum, ou um culto a mais. Esses objetivos são três, a saber:


I - Ganhar almas para Jesus

A Escola Dominical, como iremos mostrar depois, pode tornar-se num dos mais eficientes meios de evangelização.


1. O primeiro grande dever do professor da Escola Dominical é agir e orar diante de Deus no sentido de que todos seus alunos aceitem Jesus como Salvador e o sigam como seu Senhor e Mestre. Há professores que ensinam a verdade bíblica durante anos sem nunca verem um aluno convertido, talvez porque nunca os levaram a aceitar a Cristo na própria sala de aula. O meio certo de levar almas a Cristo é usar a Palavra e confiar na operação do Espírito Santo (Jó 3.5; 16.8; 1 Pe 1.23). O professor não pode salvar seus alunos, mas pode levá-los a Cristo o Salvador, como fez André (Jó 1.42). A Bíblia não diz: “Ensina a criança no caminho em que ela vai andar, ou quer andar”, mas: “no caminho em que ela deve andar” (Pv 22.6 - ARA).


O Salmo 51.13 mostra que o ensino da Palavra conduz à conversão dos pecadores.


2. Aplicação.

Temos lido de Escolas Dominicais, cujo relatório nacional registra dezenas de milhares de conversões em um ano, evangelizando enquanto ensina nas classes, bem como noutras atividades programadas pela Escola.


II - Desenvolver a espiritualidade e o caráter cristão dos alunos


1. O ensino da Palavra é uma obra espiritual.


Significa cultura da alma. Ganhar o aluno para Cristo é apenas o início da obra; é mister cuidar em seguida da formação dos hábitos cristãos, os quais resultarão num caráter ideal modelado pela Palavra de Deus. São os hábitos que formam o caráter e este influi no destino da pessoa. Afirma a psicologia: o pensamento conduz ao ato, o ato conduz ao hábito, o hábito conduz ao caráter, o caráter conduz ao destino da pessoa. Isso humanamente falando.


2. Em toda parte vê-se um crescente interesse no campo da

instrução secular, notadamente no que tange à infância. Com o devido respeito à essa instrução que temos por indispensável para o progresso e sobrevivência de um povo, queremos afirmar que a escola provê apenas instrução, mas não provê educação. Esta tem que vir do lar e da Igreja, se esta for bíblica fundamental. Deixe a criança sem instrução e veja o resultado! O mesmo acontece espiritualmente ao novo convertido, seja criança, jovem, adulto ou idoso.


3. Uma Escola Dominical dotada de obreiros treinados e

cheios do Espírito Santo pode contribuir eficazmente para a implantação da santíssima fé cristã entre os homens. Não podemos esperar isso da escola pública. E a Igreja Evangélica que tem de cuidar disso por meio de sua agência de ensino que é a Escola Dominical.


4. O futuro do novo convertido (infante ou adulto) depende do que lhe for ensinado agora.

Nesse sentido, o alvo do professor deve ser o de ajudar cada aluno convertido a viver uma vida verdadeiramente cristã, em inteira consagração a Deus, e cheio do Espírito Santo.


5. Um dos intuitos, pois, da Escola Dominical, é ode fazer de seus alunos, homens e mulheres, verdadeiros cristãos, cujas vidas se assemelhem em palavras e obras ao ideal apresentado em Jesus Cristo, conforme lemos em Colossenses 1.28; Ef 4.13. Vê-se, portanto, que a tarefa do professor da Escola Dominical é da máxima importância e do maior alcance, precisando não somente de conhecimentos da matéria (a Bíblia), e da arte de ensinar (Pedagogia) mas também de influenciar e orientar o pensamento do aluno, resultando em contínua moldagem do caráter cristão ideal, no sentido moral e espiritual.


III - Treinar o cristão para o serviço do Mestre


1. Ao prover treinamento espiritual, a Escola Dominical apresenta ao aluno oportunidades ilimitadas de servir ao divino Mestre. Inúmeros obreiros das nossas igrejas saíram da Escola Dominical. Talvez o leitor seja um deles. Grandes frutos tem produzido a Escola Dominical.


O famoso e sempre lembrado evangelista D.L. Moody foi um deles. Esse serviço tanto pode ser na igreja local, como em qualquer parte do país, ou do mundo, aonde o Senhor enviar os seus servos.


2. O privilégio de contribuir para a causa de Cristo e o dever de empreender alguma espécie de atividade cristã, são coisas que devem ser trazidas à consciência dos alunos da escola, com oração.


3. O lema da Escola Dominical completa deve ser:

• Cada aluno um crente salvo

• Cada salvo, bem treinado

• Cada aluno treinado, um obreiro ativo, diligente, dinâmico.

Assim, o tríplice objetivo pode ser resumido em três frases: aceitar a Jesus; crescer em Jesus; servir a Jesus.


4. O tríplice alvo da Escola Dominical que acabamos de expor, pode ser plenamente atingido, pois trata-se do trabalho do Senhor Jesus. O que se requer é obreiros cheios do Espírito Santo e de fé na Palavra de Deus, e treinados para o desempenho de tão elevado ministério. O mandamento divino é que falemos a Palavra (2 Tm 4.2). Sabemos que ela é poderosa tanto para operar na esfera da mente, como no coração das criancinhas, adultos e encanecidos.


5. Está sua Escola Dominical atingindo em cheio o alvo que lhe está proposto? Se não, ore, aja, coopere! Faça alguma coisa agora neste sentido! É tempo de explorarmos o ilimitado potencial latente no vasto campo da Escola Dominical entre nós!


O tríplice alvo da Escola Dominical pode ser plenamente atingido, pois a obra pertence a Deus, pela qual Ele vela com insondável amor. O que se requer é obreiros cheios do Espírito Santo e de fé na Palavra de Deus, e treinados para o desempenho de tão elevado mister, como já dissemos.


Conclusão

O alvo da Escola Dominical é nobre e elevado em todos os pontos de vista. Ela, na Igreja, cuida das vidas em formação, seja no sentido social ou espiritual. Coopera eficazmente com o lar na formação moral de crianças e adolescentes, instilando neles os hábitos, ideias e princípios cristãos segundo as Santas Escrituras. Nela, também os adultos vão encontrar horas de prazer no estudo bíblico. Mas para que a Escola Dominical alcance seu objetivo, ela precisa empregar meios e métodos eficazes, sem jamais afastar-se duma esfera genuinamente espiritual.


Texto: Pr. Antônio Gilberto



Somos bem mais que nossa sexualidade

Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou. (Gn 1.27)

Somos todos muito mais complexos do que sabemos. Fomos criados diferentes do restante da criação, com a mente que se inclina dependendo do lugar no qual os olhos pousam. Quando você olha à sua volta, vê como os sentimentos são cheios de cores variadas. Somos seres intelectuais, emocionais e espirituais. Somos capazes de sentir alegria, tristeza, orgulho, humildade, terror, segurança, tudo isso trabalhando junto com nossas almas de seres humanos. Por essa razão, limitar nossa pessoalidade à sexualidade seria um modo bastante restrito de descrever como Deus nos fez. Como seres criados à sua imagem, fomos criados para amar a Deus, não por instinto animal, mas com nossos desejos humanos — o que envolve coração, mente e alma. Quando Deus não é amado com todo o nosso ser, o pecado se expõe na maneira como falamos, criamos e pensamos — o que fazemos com nossos corpos e como tratamos nosso próximo, aquilo que escolhemos ouvir com nossos ouvidos e ver com nossos olhos etc. Desse modo, nossa sexualidade pode ser uma parte de quem somos, mas não é tudo que somos. Os humanos são muito mais do que quem os atrai sexualmente.

Deus é trino, muito maior do que nossa mente é capaz de compreender. Ele é um Deus em três pessoas: Pai, Filho e Espírito Santo, todos capazes de sentir, agir, ouvir, de modos unificados e distintos entre si. Desse modo, não seria razoável supor que aqueles a quem ele criou à sua imagem fossem igualmente diversos e complexos? Se ele fez a pessoa por inteiro, certamente deseja salvar e satisfazer a pessoa por inteiro com ele próprio.

O que pode estar implícito àqueles que pregam um “evangelho heterossexual” é que nossa sexualidade seria tudo que importa para Deus. Estou convicta de que essa ideia tem impedido muitas pessoas — homens e mulheres atraídos pelo mesmo sexo — de chegar ao arrependimento verdadeiro.

Entendi isso um dia, quando interagia com uma jovem que se ofendeu com meu testemunho de haver vencido a homossexualidade. Depois de dirigir a mim alguns ataques pessoais e xingamentos, eu lhe perguntei o seguinte: “Digamos que o homossexualismo não fosse um problema para você. Deus ainda estaria satisfeito com sua vida como um todo?”. Ao que ela respondeu, surpreendida pelo ponto de vista da minha pergunta: “Não, não. Ele não estaria satisfeito”.

Eu fiz especificamente essa pergunta porque precisava que ela visse que Deus tinha em mente mais do que seus atos sexuais quando lhe ordenou (e também a nós) que se arrependesse e cresse no evangelho de Jesus Cristo. Se somos assim tão complexos quanto ele nos fez, certamente somos muito mais pecadores do que conseguimos imaginar. Por essa razão, quando Deus vem nos restaurar, tem de fazer isso por inteiro.

Para o incrédulo que é AMS (atraído pelo mesmo sexo), Deus não o chama principalmente a ser hétero. Deus o chama a ser dele, de Deus. Conhecer Deus, amar Cristo, servir a Cristo, honrá-lo e exaltá-lo para sempre. Quando ele é o alvo do arrependimento e o objeto de sua fé, ele é justificado por Deus Pai e recebe o poder do Espírito Santo para negar todo pecado — o pecado sexual e os de outras naturezas. Alguém que busca a heterossexualidade, e não a santidade, estará tão longe de andar corretamente diante de Deus quanto alguém que busca ativamente a homossexualidade. E, de fato, quando um cristão AMS procura como alvo a heterossexualidade em vez de buscar Cristo, acabará apenas substituindo um ídolo por outro. Quando permanecemos nele e andamos em santidade, sem a qual ninguém verá o Senhor (Hb 12.14), os crentes AMS, mesmo quando sentem essas tentações, são capazes de escolher Deus, e não sua identidade sexual anterior. Sua identidade como portadores da imagem de Deus, e não seus impulsos sexuais, será o principal identificador de sua vida — e é isso que muitos homens e mulheres AMS precisam desesperadamente ouvir dos púlpitos e nos bancos da igreja. Se a sexualidade fosse a sua (e a nossa) principal identidade, esse seria nosso chamado principal, mas, em última análise, nós não fomos feitos para o sexo; fomos feitos para Deus e para sua glória somente (Cl 1.16).

Artigo adaptado do livro Garota Gay, Bom Deus, de Jackie Hill Perry.


Santidade: Santificação Prática e Encontros

Quanto mais envelheço, mais me convenço de que a verdadeira prática da santidade não recebe a atenção que merece e que, lamentavelmente, existe um padrão de vida cristã muito baixo entre muitos mestres ilustres da religião em nosso país. Ao mesmo tempo, estou cada vez mais convencido de que o esforço zeloso de algumas pessoas bem-intencionadas em promover padrões mais elevados de vida espiritual não é feito “com entendimento” e provavelmente causa mais dano do que benefício. Deixe-me explicar o que quero dizer.

É fácil reunir multidões para os chamados encontros de “Avivamento” ou “consagração”. Qualquer um que tenha observado a natureza humana, tenha lido as descrições dos acampamentos e estudado o curioso fenômeno das “afeições religiosas” sabe disso. Discursos sensacionais e empolgantes de pregadores estranhos ou de mulheres, música alta, salões quentes, barracas lotadas, rostos com a expressão de fortes sentimentos semi-religiosos durante vários dias, dormir tarde da noite, reuniões demoradas, confissão pública de experiências — todas essas coisas juntas são bem interessantes e parecem benéficas. Mas será que esse benefício é real, tem raízes profundas, é sólido e duradouro? Essa é a questão, e gostaria de fazer algumas perguntas em relação a isso.

Aqueles que freqüentam esses encontros transformam-se em pessoas mais santas, mais humildes, mais altruístas, mais bondosas, mais calmas, mais abnegadas e mais semelhantes a Cristo em seus lares? Tornam-se mais contentes com a sua própria posição econômica e ficam mais livres dos desejos impacientes de obter coisas diferentes daquelas que Deus lhes tem dado? Seus pais, mães, maridos, parentes e amigos percebem que eles estão se tornando mais agradáveis e mais fáceis de lidar? Essas pessoas conseguem desfrutar de um domingo tranqüilo e dos meios tranqüilos da graça, sem barulho, emoções intensas ou agitação? E, acima de tudo, estão crescendo no amor, especialmente no amor para com aqueles que não concordam com eles em cada pormenor de sua religião?

Estas são perguntas sérias e perscrutadoras e merecem ser consideradas com seriedade. Espero estar tão ansioso para promover a santidade prática quanto qualquer outro neste país. Admiro e reconheço, de boa vontade, o zelo e a seriedade de muitos, com os quais não posso cooperar, que estão tentando promover a santidade. Mas não posso negar minha crescente suspeita de que esses grandes “movimentos de massa” do momento, apesar do objetivo aparente de promover a vida espiritual, não tendem a promover a religião em casa, a leitura pessoal da Bíblia, a oração pessoal, a aplicação particular da Bíblia e um caminhar pessoal e diário com Deus. Se eles possuem algum valor real, deveriam levar as pessoas a serem melhores maridos e esposas, melhores pais e mães, melhores filhos e filhas, melhores irmãos e irmãs, melhores patrões e patroas e melhores empregados. Entretanto, gostaria de provas evidentes de que eles têm feito isso. Só sei que é bem mais fácil ser cristão em um recinto bíblico em meio às canções, às orações e a outros cristãos simpáticos, do que ser um cristão consistente em um lar sem harmonia, sem diálogo, afastado da cidade e longe de recursos. No primeiro caso, temos as disposições naturais a nosso favor, no segundo, não podemos ser crentes comprometidos sem a graça de Deus. Infelizmente, muitos dos que hoje em dia falam sobre “consagração” parecem ignorar os princípios elementares dos oráculos de Deus sobre a “conversão”.

Encerro este prefácio com o triste sentimento de que muitos daqueles que o lerem, provavelmente, não concordarão comigo. Compreendo que os grandes ajuntamentos do chamado movimento de “vida espiritual” são muito atraentes, especialmente para os jovens. Estes, naturalmente gostam de fervor, agitação e entusiasmo; eles perguntam: “Que mal há nisso?” É preciso aceitar que existem opiniões diferentes. Quando eu era jovem como eles, talvez pensasse da mesma maneira. Quando eles forem velhos como eu, é provável que concordem comigo. Concluo dizendo a cada um de meus leitores: exercitemos o amor ao julgarmos uns aos outros. Em relação àqueles que pensam que a santidade deve ser promovida a partir do chamado movimento “de vida espiritual” moderno, não tenho outro sentimento, senão amor. Se eles trouxerem algum benefício ficarei grato. Em relação a mim mesmo e àqueles que concordam comigo, peço-lhes que retribuam os opositores com amor. O último dia nos dirá quem está certo e quem está errado. Por enquanto, estou bem certo de que demonstrar amargura e frieza em relação àqueles que, por motivo de consciência, recusam-se a trabalhar conosco é provar que somos ignorantes na questão da santidade verdadeira.


Extraído do livro Santidade, de J. C. Ryle


Combatendo Fogo com Fogo

por: John Piper

Estar satisfeito com tudo o que Deus promete ser para nós em Jesus Cristo é a essência da fé na graça futura. Tenha em mente que, quando falo da fé na graça futura ou satisfação naquilo que Deus promete ser para nós, eu estou assumindo que uma parte essencial dessa fé e dessa satisfação é uma compreensão de Cristo como o substituto para suportar o nosso pecado, cuja obediência perfeita a Deus nos é imputada através da fé. Em outras palavras, a fé na graça futura abarca a base de todas as promessas, bem como as promessas em si. Ela entesoura Cristo como aquele cujo sangue e justiça fornecem o fundamento para toda a graça futura. E entesoura tudo o que Deus agora promete ser para nós em Cristo, por causa da obra fundamental. Sempre que falo de fé como sendo satisfeita em tudo o que Deus é para nós em Jesus, estou incluindo tudo isso nessa fé.

Essa fé é o poder que corta a raiz do pecado. O pecado tem poder por causa das promessas que faz a nós. Ele fala assim: “Se você mentir na sua declaração de imposto de renda, você terá dinheiro extra para conseguir aquilo que lhe fará mais feliz”. “Se você olhar esta pornografia, você terá uma onda de prazer que é melhor do que as alegrias de uma consciência limpa.” “Se você comer estes biscoitos quando ninguém estiver olhando, isso amenizará o seu senso de remorso e ajudará a lidar com a situação melhor do que qualquer outra coisa agora.” Ninguém peca por obrigação. Nós pecamos porque acreditamos nas promessas enganosas que o pecado faz. A Bíblia adverte “que nenhum de vós seja endurecido pelo engano do pecado” (Hebreus 3:13). As promessas do pecado são mentiras.

Lutar contra a incredulidade e pela fé na graça futura significa que combatemos fogo com fogo. Nós lançamos as promessas de Deus contra as promessas do pecado. Nós nos agarramos a alguma grande promessa que Deus fez sobre o nosso futuro e dizemos a um pecado em particular: “Faça igual”! Dessa forma, fazemos o que Paulo diz em Romanos 8:13: “Se pelo Espírito, mortificardes os feitos do corpo”. John Owen escreveu um livro baseado nesse versículo e resumiu com: “Esteja matando o pecado, ou ele estará matando você”.4 Nós mortificamos os feitos pecaminosos antes que eles aconteçam, quando cortamos a raiz que lhes sustenta: as mentiras do pecado.

Fazer isso “pelo Espírito” significa que confiamos no poder do Espírito e, então, manejamos a “espada do Espírito”, que é a palavra de Deus (Efésios 6:17). A “palavra de Deus” é, em seu âmago, o evangelho, e então tudo o que Deus falou na sua palavra revelada. O evangelho da morte e ressurreição de Cristo não é apenas o núcleo, mas o fundamento de todas as promessas de Deus. Esse é o ponto da lógica de Romanos 8:32: “Aquele que não poupou o seu próprio Filho, antes, por todos nós o entregou, porventura, não nos dará graciosamente com ele todas as coisas”? “Todas as coisas” que precisamos – o cumprimento de todas as promessas de Deus – são garantidas pelo Pai ao não poupar o seu Filho. Ou, para colocar de forma positiva, todas as promessas de Deus estão garantidas a nós porque Deus enviou seu Filho para viver e morrer, a fim de cancelar os nossos pecados e tornar-se a nossa justiça. Então, quando eu digo que nós manejamos a Palavra de Deus, a espada do Espírito, o que quero dizer é que nós nos apegamos fortemente a essa verdade do evangelho centralizado em Cristo, com todas as suas promessas, e confiamos nelas em cada situação. Nós cortamos a corda de salvamento do pecado pelo poder de uma promessa superior. Ou, dito de forma mais positiva, nós liberamos o fluxo de amor pela fé na graça futura. Nós nos tornamos pessoas amorosas ao confiar nas promessas de Deus.


Crente pega coronavírus?

Artigo adaptado do livro Coronavírus e Cristo, de John Piper.

De fato, o pecado é o motivo de toda a miséria física existir. O terceiro capítulo da Bíblia descreve a entrada do pecado no mundo. Ele mostra que o pecado é a origem de devastação e miséria globais (Gn 3.1-19). Paulo resumiu em Romanos 5.12: “Portanto, assim como por um só ser humano entrou o pecado no mundo, e pelo pecado veio a morte, assim também a morte passou a toda a humanidade, porque todos pecaram”.

O mundo está quebrado desde então. Toda a sua beleza está entrelaçada com o mal, com desastres, com doenças e com frustrações. Deus o criou perfeito. “Deus viu tudo o que havia feito, e eis que era muito bom” (Gn 1.31). Mas, desde a queda da humanidade no pecado até os dias de hoje, a história, mesmo com todas as suas maravilhas, é uma esteira transportadora de cadáveres.

A queda é juízo

A Bíblia não vê esse quebrantamento como algo meramente natural, mas como o juízo de Deus em um mundo permeado pelo pecado. Aqui está como Paulo descreveu os efeitos do juízo de Deus no mundo por causa do pecado:

Pois a criação está sujeita à vaidade, não por sua própria vontade, mas por causa daquele que a sujeitou, na esperança de que a própria criação será libertada do cativeiro da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus. Porque sabemos que toda a criação a um só tempo geme e suporta angústias até agora. (Rm 8.20-22)

Vaidade. Cativeiro da corrupção. Geme. Estas são imagens de devastação e miséria globais desde que o pecado entrou no mundo. E Paulo diz que essa devastação se deve ao julgamento de Deus: “a criação está sujeita à vaidade… por causa daquele que a sujeitou, na esperança…” (Rm 8.20). Satanás não a sujeitou em esperança. Adão não a sujeitou em esperança. Deus o fez. Como Paulo disse em Romanos 5.16: “o julgamento derivou de uma só ofensa, para a condenação”.

Juízo até sobre seus filhos

Certamente, essa passagem está cheia de esperança — “a liberdade da glória dos filhos de Deus” (Rm 8.21). Deus tem um plano deslumbrante para uma nova criação, onde ele “enxugará dos olhos toda lágrima” (Ap 21.4). Mas, por enquanto, estamos todos sob o seu juízo. Ele submeteu o mundo à morte, tragédia e miséria.

Sim, até os seus próprios filhos — aqueles a quem ele predestinou para a adoção (Ef 1.5), redimiu pelo sangue de seu Filho (Ef 1.7) e designou para a vida eterna (Ef 1.18) —, até mesmo nós sofremos e morremos por causa do juízo de Deus na queda. Nós, “que temos as primícias do Espírito, igualmente gememos em nosso íntimo, aguardando a adoção de filhos, a redenção do nosso corpo” (Rm 8.23). Cristãos são atingidos por tsunamis. Cristãos são mortos em ataques terroristas. Cristãos pegam o coronavírus.

Purificação, não punição

A diferença para os cristãos — aqueles que abraçam a Cristo como seu tesouro supremo — é que a nossa experiência com essa corrupção não é condenatória. “Agora, pois, já não existe nenhuma condenação para os que estão em Cristo Jesus” (Rm 8.1). A dor para nós é purificadora, não punitiva.

“Deus não nos destinou à ira” (1Ts 5.9). Nós morremos de doenças e desastres como todo ser humano. Mas para aqueles que estão em Cristo, o “aguilhão” da morte foi removido (1Co 15.55). “Morrer é lucro” (Fp 1.21). Partir é “estar com Cristo” (Fp 1.23).


Um Mundo em convulsão

O apóstolo Paulo disse que nos últimos dias, os tempos seriam difíceis (2Tm 3.1). A palavra “difíceis” é a mesma usada para descrever o furioso endemoninhado de Gadara. O mundo está em convulsão. Há uma inquietação global. Há um desassossego entre as nações. Uma horda de “gafanhotos” sai do abismo para atormentar os homens (Ap 9.1-11). Essa angústia entre as nações pode ser vista nos seguintes fatos:

Em primeiro lugar, uma pandemia global. O ano 2020 ficará nos anais da história como um tempo em que o mundo parou por causa de um vírus. As colunas de sustentação da sociedade ficaram abaladas. Os poderes econômicos, políticos e científicos não tiveram uma resposta rápida e eficaz para sanar esse mal que ceifou mais de um milhão de pessoas em todo o mundo. Países ricos e pobres enfrentaram a carranca da crise. A morte visitou palácios e choupanas, ricos e pobres, doutos e analfabetos, jovens e velhos, crentes e ateus. Bastou um vírus para jogar por terra toda a soberba humana e colocar de cócoras os poderosos. Hoje, vivemos a corrida na busca de uma vacina eficaz para erradicar esse mal. Porém, os temores teimam em assustar a todos, pois não se tem certeza da plena eficácia desses imunizantes.

Em segundo lugar, uma inversão de valores. A sociedade hodierna não apenas tolera o mal, mas promove-o. Não se trata apenas de acomodação à uma ética flácida e situacional, mas o que se vê é uma inversão de valores. A sociedade aplaude o que deveria reprovar e reprova o que se deveria promover. Chamam luz de trevas e trevas e luz. Um exemplo dessa inversão de valores foi a aprovação da lei do aborto, recentemente na Argentina. Multidões foram às ruas comemorar a cultura da morte. A sociedade que, hipocritamente, fala em direitos humanos, luta bravamente para defender ovos de tartaruga, mas sem qualquer pudor, drapeja suas bandeiras celebrando a morte de seres humanos privados do mais sagrado de todos os direitos, o direito à vida. Aborto é assassinato com requinte de crueldade. É transformar o sacrário do ventre materno num patíbulo de tortura. É arrancar do ventre um ser humano, criado à imagem e semelhança de Deus, como se fosse uma verruga pestilenta. Ah, o sangue dos inocentes clama aos céus!

Em terceiro lugar, uma marcha rumo ao ateísmo cultural. A sociedade contemporânea, em nome do Estado laico, quer estabelecer um Estado ateu. Os valores cristãos estão sendo tripudiados. Os símbolos cristãos estão sendo eliminados. Os princípios judaico-cristãos estão sendo perseguidos. O conceito de família, conforme instituída por Deus, está sendo atacada com rigor desmesurado. A intolerância com a fé cristã é notória. Uma onda de Cristofobia percorre o mundo. Cristãos estão sendo perseguidos em todo o mundo e em todos os níveis. A intolerância com a fé cristã é vista até mesmo nos países chamados cristãos. Essa intolerância, não raro, é notada nos palácios, nos parlamentos, nas cortes, na grande mídia, no teatro e na literatura.

Em quarto lugar, uma radicalização política intolerante. O mundo caminha para uma radicalização intolerante. Estamos perdendo a capacidade de dialogar com os diferentes e respeitar opiniões diversas das nossas. Até mesmo a maior democracia do mundo flerta com uma espécie de guerra civil. O idealismo da política está se desfigurando. Usa-se o poder para manipular. Compra-se apoio político para se perpetuar no poder. Expedientes heterodoxos e nada republicanos são usados para auferir vantagens pessoais. Populismo e ditadura são o sonho de consumo de líderes que amam a si mesmos e o poder em vez de amar o povo para servi-lo.

Em quinto lugar, uma apostasia galopante. Não é apenas o mundo que está em convulsão, a igreja, também, em larga escala, mundo a fora, ruma para uma apostasia assaz perigosa. Denominações inteiras sucumbiram ao liberalismo teológico e se desidrataram. Outras, renderam-se ao sincretismo religioso e se perderam nos labirintos de um misticismo tosco. Há aquelas que, por amor ao lucro, entregaram-se à teologia da prosperidade. Não poucas são as igrejas que se acomodaram a uma ortodoxia morta.

Nesse mundo em convulsão, é preciso erguer a voz e dizer que a única esperança para esta geração é o evangelho de Cristo. E só uma igreja viva e cheia do Espírito Santo pode pregar o evangelho com autoridade e poder.

Rev. Hernandes Dias Lopes

A Regeneração Precede a Fé

por: R.C. Sproul

Um dos momentos mais dramáticos em minha vida, na formação de minha teologia, ocorreu em uma sala de aula de um seminário. Um de meus professores foi ao quadro negro e escreveu estas palavras em letras garrafais:

A REGENERAÇÃO PRECEDE A FÉ

Aquelas palavras foram um choque para o meu sistema. Eu tinha entrado no seminário crendo que a obra principal do homem para efetivar o novo nascimento era a fé. Eu pensava que nós tínhamos que primeiro crer em Cristo, para então nascermos de novo. Eu uso as palavras "para então" aqui por uma razão. Eu estava pensando em termos de passos que deviam ocorrer em uma certa seqüência. Eu colocava a fé no princípio. A ordem parecia algo mais ou menos assim: "Fé - novo nascimento -justificação."

Eu não tinha pensado sobre esse assunto com muito cuidado. Nem tinha atentado cuidadosamente às palavras de Jesus a Nicodemus. Eu presumia que mesmo sendo um pecador, uma pessoa nascida da carne e vivendo na carne, eu ainda tinha uma pequena ilha de justiça, um pequeno depósito de poder espiritual remanescente em minha alma para me capacitar a responder ao Evangelho sozinho. Possivelmente eu tinha sido confundido pelo ensino da Igreja Católica Romana. Roma, e muitos outros ramos do Cristianismo, tem ensinado que a regeneração é graciosa; ela não pode acontecer aparte da ajuda de Deus.

Nenhum homem tem o poder para ressuscitar a si mesmo da morte espiritual. A divina assistência é necessária. Esta graça, de acordo com Roma, vem na forma do que é chamado graça preveniente. "Preveniente" significa que ela vem antes de outra coisa. Roma adiciona a esta graça preveniente o requerimento de que devemos "cooperar com ela e assentir diante dela", antes que ela possa atuar em nossos corações. Esta concepção de cooperação é na melhor das hipóteses uma meia verdade. Sim, a fé que exercemos é nossa fé. Deus não crê por nós. Quando eu respondo a Cristo, é a minha resposta, minha fé, minha confiança que está sendo exercida. O assunto, contudo, se aprofunda. A questão ainda permanece: "Eu coopero com a graça de Deus antes de eu nascer de novo, ou a cooperação ocorre depois?" Outro modo de fazer esta pergunta é questionar se a regeneração é monergista ou sinergista. Ela é operativa ou cooperativa? É eficaz ou dependente? Algumas destas palavras são termos teológicos que requerer maior explanação.

MONERGISMO E SINERGISMO

Uma obra monergística é uma obra produzida por uma única pessoa. O prefixo mono significa um. A palavra erg refere-se a uma unidade de trabalho. Palavras como energia são construídas com base nessa raiz. Uma obra sinergística é uma que envolve cooperação entre duas ou mais pessoas ou coisas. O prefixo sun significa "juntamente com". Eu faço esta distinção por um razão. O debate entre Roma e Lutero foi travado sobre este simples ponto. A questão era esta: A regeneração é uma obra monergística de Deus ou uma obra sinergística que requer cooperação entre homem e Deus? Quando meu professor escreveu "A regeneração precede a fé" no quadro negro, ele estava claramente tomando o lado da resposta monergística. Depois de uma pessoa ser regenerada, esta pessoa coopera pelo exercício de sua fé e confiança. Mas o primeiro passo é a obra de Deus e de Deus tão-somente. A razão pela qual não cooperamos com a graça regeneradora antes dela agir sobre nós e em nós é que nós não podemos. Não podemos porque estamos mortos espiritualmente. Não podemos assistir o Espírito Santo na vivificação de nossas almas para a vida espiritual, da mesma forma

que Lázaro não podia ajudar Jesus a ressuscitá-lo dos mortos. Quando comecei a lutar com o argumento do Professor, fiquei surpreso ao descobrir que o estranho som de seu ensino não era novidade. Agostinho, Martinho Lutero, João Calvino, Jonathan Edwards, George Whitefield - até o grande teólogo medieval Tomás de Aquino ensinaram esta doutrina. Tomás de Aquino é o Doctor Angelicus da Igreja Católica Romana. Por séculos seu ensino teológico era aceito como dogma oficial pela maioria dos Católicos. Então, ele era a última pessoa que eu esperava sustentar tal visão da regeneração. Todavia

Aquino insistiu que a graça regeneradora é uma graça operante, e não uma graça cooperativa. Aquino falou da graça preveniente, mas ele falou de uma graça que vem antes da fé, que é a regeneração. Estes gigantes da história Cristã derivaram a visão deles das Sagradas Escrituras. A frase chave na Carta de Paulo aos Efésios é esta: "estando nós ainda mortos em nossos delitos, nos vivificou juntamente com Cristo (pela graça sois salvos)" (Efésios 2:5). Aqui Paulo localiza o tempo em que a regeneração ocorre. Ela ocorreu "quando estávamos ainda mortos". Com um único raio de revelação apostólica foram

esmagadas, total e completamente, todas as tentativas e entregar a iniciativa na regeneração aos homens. Novamente, homens mortos não cooperam com a graça. A menos que a regeneração ocorra primeiro, não há possibilidade de fé. Isso não diz nada de diferente do que Jesus disse a Nicodemus. A

menos que um homem nasça de novo primeiro, ele não pode ver ou entrar no reino de Deus. Se nós cremos que a fé precede a regeneração, então nós colocamos nossos pensamentos, e, portanto, nós mesmos, em direta oposição não só aos gigantes da história Cristã, mas também ao ensino de Paulo e do nosso próprio Senhor Jesus Cristo.

(do livro, O Mistério do Espírito Santo, Tyndale House, 1990)


A Divindade de Deus

por Arthur W. Pink

A verdadeira fé é aquela que dá a Deus o lugar que Lhe é devido. E se dermos a Deus o Seu lugar devido, assumiremos o lugar que nos é próprio –– no pó. E o que pode trazer a criatura orgulhosa e auto-suficiente mais rápido ao pó senão uma visão da Divindade de Deus? Nada é tão humilhante para o coração humano como o verdadeiro reconhecimento da absoluta soberania de Deus. O principal problema é que muito do que é considerado fé, hoje, não passa de frágil sentimentalismo. A fé da Cristandade, neste século XX, é mera credulidade, e o “deus” de muitas das nossas igrejas não é o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, mas um mero fruto da imaginação, que mentes finitas possam entender, cujos caminhos sejam agradáveis ao homem natural (não nascido de novo), um “deus” totalmente “igual” (Salmos 50:21) àqueles que professam adorá-lo, um “deus” a respeito do qual quase não há mistério. Mas como é diferente o Deus que as Escrituras revelam! DEle é dito, Seus caminhos são “inescrutáveis” (Romanos 11:33). Para ser mais específico:

1. O “deus” moderno é completamente carente de poder.

A idéia popular, nos dias de hoje, é que a deidade é cheia de amigáveis intenções para com os homens, mas que Satanás está impedindo que se lhes faça algum bem. Não é da vontade de Deus, assim nos dizem, que haja guerras, pois as guerras são algo que os homens são incapazes de reconciliar com suas idéias da misericórdia divina. Então, a conclusão é que todas as guerras são do Diabo. Pragas e terremotos, fomes e furacões não são enviados por Deus, mas são atribuídos somente às causas naturais. Afirmar que o Senhor Deus enviou a recente epidemia de gripe (na época, matava –– Nota do Editor) como um golpe de julgamento, iria chocar a sensibilidade da mente moderna. Coisas como estas causam dor a “deus” pois “ele” NÃO deseja senão a felicidade de todos.

2. O “deus” moderno é completamente carente de sabedoria.

A crença popular é que Deus ama a todos, e que é da Sua vontade que cada filho de Adão seja salvo. Mas, se isto for verdade, Ele está estranhamento carecendo de sabedoria, pois Ele sabe muito bem que, sob as condições existentes, a maioria se perderá.

3. O “deus” moderno é carente de santidade.

Que o crime merece punição é aceito em parte, embora cada vez mais uma crença esteja ganhando terreno: a de que o criminoso é realmente mais objeto de pena do que de censura, e que ele precisa de educação e reforma ao invés de punição. Mas que o PECADO –– tanto pecados em pensamentos como em atos, pecados de coração como pecados da vida, pecados de omissão bem como de comissão, tanto a própria raiz pecaminosa como o seu fruto –– deva ser odiado por Deus, pecado contra o qual a Sua santa natureza se inflama, é um conceito que saiu quase que completamente de moda; e que o próprio pecador é odiado por Deus é negado com indignação mesmo por aqueles que se ufanam em alta voz da sua ortodoxia.

4. O “deus” moderno é completamente carente de prerrogativas de soberania.

Quaisquer que sejam os direitos que a deidade da Cristandade atual possa supostamente possuir em teoria, de fato eles devem ser subordinados aos “direitos” da criatura. Nega-se, quase universalmente, que os direitos do Criador sobre Suas criaturas seja o do Oleiro sobre o barro. Quando se afirma que Deus tem o direito de fazer um vaso para honra e outro vaso para desonra, o grito de injustiça ergue-se instantaneamente. Quando se afirma que a salvação é um dom e que este dom é conferido àqueles a quem Deus se agrada em dar, é dito que Ele é parcial e injusto. Se Deus tem algum dom para partilhar, Ele deve distribuir a todos igualmente, ou pelo menos distribuí-los àqueles que merecem, não importa quem possam ser. E assim é dada a Deus menos liberdade do que a mim, que posso distribuir minha caridade como bem quero, dando a um mendigo um pouco mais, a outro um pouco menos, e a um terceiro nada se assim achar por bem.

Como o Deus da Bíblia é diferente do “deus” moderno!

O Deus da Escritura é Todo-Poderoso

Ele é aquele que fala e é feito, que ordena e há prontidão. Ele é Aquele para quem “todas as coisas são possíveis” e “faz todas as cousas segundo o conselho da sua vontade” (Efésios 1:1)...


O Deus da Escritura é infinito em sabedoria

Nenhum segredo pode ser escondido dEle, nenhum problema pode confundi-Lo, nada é difícil demais para Ele. Deus é onisciente - “Grande é o Senhor nosso e mui poderoso; o seu entendimento não se pode medir” (Salmos 147:5). Portanto se diz, “Não se pode esquadrinhar o seu entendimento” (Isaías 40:28). Daí a razão porque numa revelação dEle nós esperamos encontrar verdades que transcendem o alcance da mente da criatura, e, portanto, é evidente a tolice presunçosa e a impiedade daqueles que não passam de “pó e cinza” ao tentarem pronunciar a racionalidade ou irracionalidade das doutrinas que estão acima da razão!

O Deus da Escritura é infinito em santidade

O “único Deus verdadeiro” é aquele que odeia o pecado com uma perfeita repulsa, e cuja natureza eternamente se inflama contra ele. Ele é Aquele que contemplou a impiedade dos antediluvianos e que abriu as janelas do céu derramando o dilúvio da Sua justa indignação. Ele é Aquele que fez chover fogo e enxofre sobre Sodoma e Gomorra e destruiu completamente aquelas cidades da planície. Ele é Aquele que enviou pragas ao Edito, e destruiu seu orgulhoso monarca juntamente com seus exércitos no Mar Vermelho. Deus é tão santo e tal é o antagonismo da Sua natureza para com o mal que, por um pecado, Ele baniu nossos pais do Éden, por um pecado Ele amaldiçoou a posteridade de Cão; por um pecado Ele transformou a esposa de Ló numa coluna de sal; por um pecado Ele enviou fogo e devorou os filhos de Araõ; por um pecado Moisés morreu no deserto; por um pecado Acã e sua família foram todos apedrejados até à morte; por um pecado o servo de Elias foi ferido com lepra. Contemplem, portanto, não somente a bondade, mas também “a severidade de Deus” (Romanos 11:22). E este é o Deus com quem todo aquele que rejeita a Cristo tem que se encontrar no julgamento!

O Deus da Escritura tem uma vontade que é irresistível

O homem fala e se orgulha da sua vontade, mas Deus também tem uma vontade! Os homens tiveram uma vontade nas planícies de Sinear e a dedicaram a construir uma torre cujo topo alcançasse o céu; mas em que resultou? Deus também tinha uma vontade, e o esforço cheio de vontade deles resultou em nada. Faraó tinha uma vontade quando ele endureceu seu coração e se recusou a permitir que o povo de Jeová fosse ao deserto e lá O adorasse, mas em que resultou? Deus tinha uma vontade, também, e sendo Todo-Poderoso Sua vontade foi realizada. Balaque tinha uma vontade quando contratou Balaão para vir a amaldiçoar os hebreus; mas de que adiantava? Os cananitas tinham uma vontade quando eles determinaram impedir Israel de ocupar a terra prometida; mas até onde eles foram bem sucedidos? Saul tinha uma vontade quando ele arremessou sua lança contra Davi, mas, ao invés de matar o ungido do Senhor, a lança foi parar na parede.

Sim, meu leitor, e você também tinha uma vontade quando fez seus planos sem buscar primeiro o conselho do Senhor, e por isso Ele os fez cair por terra. Assim como uma criança pode tentar impedir o oceano de se mover, assim também a criatura pode tentar resistir ao desenrolar do propósito do Senhor –– “Ah! SENHOR, Deus de nossos pais, porventura não és tu que dominas sobre todos os reinos dos povos? Na tua mão está a força e o poder, e não há quem te possa resistir” (2 Crônicas 20:6).

O Deus da Escritura é Soberano absoluto.

Tal é a Sua própria reivindicação: “Este é o desígnio que se formou concernente a toda a terra; e esta é a mão que está estendida sobre todas as nações. Porque o SENHOR dos Exércitos determinou; quem, pois, o invalidará? A sua mão está estendida; quem, pois, a fará voltar atrás?” (Isaías 14:26 e 27). A Soberania de Deus é absoluta e irresistível: “Todos os habitantes da terra são por ele reputados em nada; e segundo a sua vontade ele opera com o exército do céu e os moradores da terra; não há quem lhe possa deter a mão, nem lhe dizer: Que fazes?” (Daniel 4:35). A Soberania de Deus é verdadeira não só hipoteticamente, mas de fato. Isto quer dizer, Deus exercita Sua soberania, a exercita tanto na esfera natural quando na espiritual. Um nasce negro, outro branco. Um nasce em riqueza, outro em pobreza. Um nasce com um corpo saudável, outro enfermo e defeituoso. Um é cortado na infância, outro vive até a velhice. A um são dados cinco talentos, a outros só um. Em todos estes casos é Deus o Criador que faz com que um seja diferente do outro, e “ninguém pode deter Sua mão”. É assim também na esfera espiritual. Um nasce em lar piedoso e é criado no temor e na admoestação do Senhor; o outro é nascido de pais criminosos e é criado no meio do vício. Um é objeto de muitas orações, por outro não se ora. Um ouve o Evangelho desde a infância, outro nunca o ouve. Um senta-se sob o ministério de alguém que ensina as Escrituras, outro não ouve anda senão erros e heresias. Daqueles que ouvem ao Evangelho, um tem o seu coração “aberto pelo Senhor” para receber a verdade, enquanto outro é deixado para si mesmo. Um é “ordenado para a vida eterna” (Atos 13:48), enquanto que outro é “ordenado” para condenação (Judas 4). Para quem Deus quer Ele mostra misericórdia, e para com quem Ele quer, Ele “endurece” (Romanos 9:18).



A Solidão de Deus

por Arthur W. Pink

Houve tempo, se é que se lhe pode chamar “tempo”, em que Deus, na unidade de Sua natureza, habitava só (embora subsistindo igualmente em três pessoas divinas). “No princípio... Deus...”. Não existia o céu, onde agora se manifesta particularmente a Sua glória. Não existia a terra, que Lhe ocupasse a atenção. Não existiam os anjos, que Lhe entoassem louvores, nem o universo, para ser sustentado pela palavra do Seu poder. Não havia nada, nem ninguém, senão Deus; e isso, não durante um dia, um ano ou uma época, mas “desde sempre”. Durante uma eternidade passada, Deus esteve só - completo, suficiente, satisfeito em Si mesmo, de nada necessitando.

Se um universo, ou anjos, ou seres humanos Lhe fossem necessários de algum modo, teriam sido chamados à existência desde toda a eternidade. Ao serem criados, nada acrescentaram a Deus essencialmente. Ele não muda (Malaquias 3:6), pelo que, essencialmente, a Sua glória não pode ser aumentada nem diminuída.

Deus não estava sob coação, nem obrigação, nem necessidade alguma de criar. Resolver fazê-lo foi um ato puramente soberano de Sua parte, não produzido por nada alheio a Si próprio; não determinado por nada, senão o Seu próprio beneplácito, já que Ele “faz todas as coisas, segundo o conselho da sua vontade” (Efésios 1:11). O fato de criar foi simplesmente para a manifestação da Sua glória.

Será que algum dos nossos leitores imagina que fomos além do que nos autorizam as Escrituras? Sabemos que o elevado terreno que estamos pisando é novo e estranho para quase todos os nossos leitores; por esta razão faremos bem em andarmos devagar. Recorramos de novo às Escrituras. No final de Romanos capítulo 11, onde o apóstolo conclui sua longa argumentação sobre a salvação pela pura e soberana graça, pergunta ele: “Por que quem compreendeu o intento do Senhor? Ou quem foi seu conselheiro? Ou quem lhe deu primeiro a ele, para que lhe seja recompensado?” (vers. 34-35). A importância disto é que é impossível submeter o Todo-poderoso a quaisquer obrigações para com a criatura; Deus nada ganha da nossa parte. 'Se fores justo, que lhe darás, ou que receberá da tua mão? A tua impiedade faria mal a outro tal como tu; e a tua justiça aproveitaria a um filho do homem” (Jó 35-7-8), mas certamente não pode afetar a Deus, que é bem-aventurado em si mesmo. “quando fizerdes tudo o que vos for mandado, dizei: “Somos servos inúteis, porque fizemos somente o que devíamos fazer” (Lucas 17:10) - nossa obediência não dá nenhum proveito a Deus.

De mais a mais, vamos além: nosso Senhor Jesus Cristo não acrescentou nada a Deus em Seu Ser essencial e à glória essencial do Seu Ser, nem pelo que fez, nem pelo que sofreu. É certo, bendita e gloriosamente certo, que Ele nos manifestou a glória de Deus, porém nada acrescentou a Deus. Ele próprio o declara expressamente, e não há apelação quanto às Suas palavras: “não tenho outro bem além de ti” (Salmo 16:2; na versão usada pelo autor, literalmente: “... a minha bondade não chega a Ti”). Em toda a sua extensão, este é um Salmo sobre Cristo. A bondade e a justiça de Cristo alcançou os Seus santos na terra (Salmo 16:3), mas Deus estava acima e além disso tudo, pois unicamente Deus é “o Bendito” (Marcos 14:61, no grego).

É absolutamente certo que Deus é honrado e desonrado pelos homens; não em Seu Ser essencial, mas em Seu caráter oficial. É igualmente certo que Deus tem sido “glorificado” pela criação, pela providência e pela redenção. Não contestamos isso, e não ousamos fazê-lo nem por um momento. Mas isso tudo tem que ver com a Sua glória declarativa e com o nosso reconhecimento dela. Todavia, se assim Lhe aprouvesse, Deus poderia ter continuado só, por toda a eternidade, sem dar a conhecer a Sua glória a qualquer criatura. Que o fizesse ou não, foi determinado unicamente por Sua própria vontade. Ele era perfeitamente bem-aventurado em Si mesmo antes de ser chamada à existência a primeira criatura. E, que são para Ele todas as Suas criaturas, mesmo agora? Deixemos outra vez que as Escrituras dêem a resposta- “Eis que as nações são consideradas por ele como a gota dum balde, e como o pó miúdo das balanças. eis que lança por aí as ilhas como a uma coisa pequeníssima. Nem todo o Líbano basta para o fogo, nem os seus animais bastam para holocaustos. Todas as nações são como nada perante ele; ele as considera menos do que nada e como uma coisa vã. A quem pois fareis semelhante a Deus: ou com que o comparareis?” (Isaías 40:15-18). Esse é o Deus das Escrituras; infelizmente Ele continua sendo o “Deus desconhecido” (Atos 17:23) para as multidões desatentas. 'Ele é o que está assentado sobre o globo da terra, cujos moradores são para ele como gafanhotos; ele é o que estende os céus como cortina, e os desenrola como tenda para neles habitar; o que faz voltar ao nada os príncipes e torna coisa vã os Juizes da terra" (Isaías 40.22-23). Quão imensamente diverso é o Deus das Escrituras do “deus” do púlpito comum!

O testemunho do Novo Testamento não tem nenhuma diferença do que vemos no Velho Testamento; como poderia ser, uma vez que ambos têm o mesmo Autor! Ali também lemos. “A qual a seu tempo mostrará o bem-aventurado, o único poderoso Senhor, Rei dos reis e Senhor dos senhores; aquele que tem, ele só, a imortalidade, e habita na luz inacessível; a quem nenhum dos homens viu nem pode ver. ao qual seja honra e poder sempiterno. Amém” (1 Timóteo 6:15-16). O Ser que aí é descrito deve ser reverenciado, cultuado, adorado. Ele é solitário em Sua majestade, único em Sua excelência, incomparável em Suas perfeições. Ele tudo sustenta, mas Ele mesmo é independente de tudo e de todos. Ele dá bens a todos, mas não é enriquecido por ninguém.

Um Deus tal não pode ser encontrado mediante investigação; só pode ser conhecido como e quando revelado ao coração pelo Espírito Santo, por meio da Palavra. É verdade que a criação manifesta um Criador, e isso com tanta clareza, que os homens ficam “inescusáveis” (Romanos 1:20); contudo, ainda temos que dizer com Ló: “Eis que isto são apenas as orlas dos seus caminhos; e quão pouco é o que temos ouvido dele! Quem pois entenderia o trovão do seu poder?” (Jó 26:14). Cremos que o argumento baseado no desígnio, assim chamado, argumento apresentado por “apologetas” bem intencionados, tem causado mais dano que benefício, pois tenta baixar o grande Deus ao nível do entendimento finito e, com isso, perde de vista a Sua singular excelência.

Tem-se feito uma analogia com o selvagem que achou um relógio e que, depois de um detido exame, inferiu a existência de um. relojoeiro. Até aqui, tudo bem. Tentemos ir mais longe, porém. Suponhamos que o selvagem procure formar uma concepção pessoal desse relojoeiro, de seus afetos pessoais, de suas maneiras; de sua disposição, conhecimentos e caráter moral - de tudo aquilo que se junte para compor uma personalidade. Poderia ele chegar a imaginar ou pensar num homem real - o homem que fabricou o relógio - de modo que pudesse dizer: “Eu o conheço”? Fazer perguntas como esta parece fútil, mas estará o eterno e infinito Deus tanto mais ao alcance da razão humana? Realmente, não. O Deus das Escrituras só pode ser conhecido por aqueles a quem Ele próprio Se dá a conhecer.

Tampouco o intelecto pode conhecer a Deus. “Deus é espírito. . .” (João 4:24) e, portanto, só pode ser conhecido espiritualmente. Mas o homem decaído não é espiritual; é carnal. Está morto para tudo que é espiritual. A menos que nasça de novo, que seja trazido sobrenaturalmente da morte para a vida, miraculosamente transferido das trevas para a luz, não pode sequer ver as coisas de Deus (João 3:3), e muito menos entendê-las (1 Coríntios 2:14. É mister que o Espírito Santo brilhe em nossos corações (não no intelecto) para dar-nos o “... conhecimento da glória de Deus, na face de Jesus Cristo” (2 Coríntios 4:6). E até mesmo esse conhecimento espiritual é apenas fragmentário. A alma regenerada terá de crescer na graça e no conhecimento do Senhor Jesus (2 Pedro 3:18).

A nossa principal oração e finalidade como cristãos deve ser que possamos “... andar dignamente diante do Senhor, agradando-lhe em tudo, frutificando em toda a boa obra, e crescendo no conhecimento de Deus”.

(Colossenses 1-.10)



Como Deus é?

por John Blanchard

Reconhecer que Deus existe é uma coisa, e reconhecê-Lo no sentido geral em que Deus nos fala na criação e por todas as páginas da Bíblia é outra. Mas nós precisamos saber mais. Como Deus é? A Bíblia nos dá muitas respostas claras e positivas a essa tremendamente importante questão. Aqui estão algumas delas.

Deus é pessoal. Deus não é uma 'coisa', poder, ou influência. Ele pensa, sente desejos e age de formas que mostram ser Ele um Ser pessoal vivo. Mas Ele não é apenas 'o homem lá de cima' ou algum tipo de 'super-homem'. O Senhor é o verdadeiro Deus; ele é o Deus vivo, o Rei eterno. (Jeremias 10:10)

Deus é um. Há somente um Deus verdadeiro. Ele diz, eu sou o primeiro e o último; fora de mim não há Deus (Isaías 44:6). Todavia, Deus se relevou como uma 'trindade' de três pessoas — o Pai, o Filho (Jesus Cristo) e o Espírito Santo, cada um dos quais é verdadeiramente, plenamente e igualmente Deus. A Bíblia fala da glória de Deus o Pai (Filipenses 2:11); ela diz que a Palavra (Jesus Cristo) era Deus (João 1:1); e fala do Senhor, que é o Espírito (2 Coríntios 3:18). Embora haja somente um Deus, há três pessoas na Deidade.

Deus é espírito. Ele não tem dimensões físicas. Ele não tem um corpo, nem Ele tem quaisquer características que possam ser definidas em termos de tamanho e forma. Deus é espírito, e seus adoradores devem adorá-Lo em espírito e em verdade (João 4:24). Isso significa que Deus é invisível. Ninguém jamais viu a Deus (João 1:18). Isso significa também que Ele não está confinado a um lugar no tempo, mas está por toda parte em todo o tempo: “Porventura, não encho eu os céus e a terra? — diz o Senhor” (Jeremias 23:24). Totalmente aparte de tudo mais, isso significa que Deus é plenamente consciente de tudo o que se passa em todos os lugares. Isso inclui não somente tudo que você faz ou diz, mas todos os pensamentos que passam por sua mente.

Deus é eterno. Deus não teve princípio. Nas palavras da Bíblia, “de eternidade a eternidade, tu és Deus” (Salmos 90:2). Nunca houve tempo em que Deus não existisse e nunca existirá um tempo quando Ele não existirá. Deus descreve a si mesmo como aquele que é, e que era, e que há de vir (Apocalipse 1:8). Ele permanece eternamente o mesmo: Eu, o Senhor, não mudo (Malaquias 3:6). Tudo que o Deus era Ele ainda é e sempre será.

Deus é independente. Todos os outros seres viventes são dependentes de pessoas ou coisas, e ultimamente de Deus — mas Deus é totalmente independente de Sua criação. Ele sobrevive por Si mesmo. Ele não é servido por mãos humanas, como que necessitando de alguma coisa; pois ele mesmo é quem dá a todos a vida, a respiração e todas as coisas (Atos 17:25).

Deus é santo. Ele é majestoso em santidade, terrível em glória (Êxodo 15:11). Não pode haver comparação com a santidade de Deus. Não há santo como o SENHOR (1 Samuel 2:2), que é absolutamente sem falta ou defeito. A Bíblia diz dEle: “Tu és tão puro de olhos, que não podes ver o mal e a opressão não podes contemplar” (Habacuque 1:13). E esse Deus santo demanda santidade de cada um de nós. Seu mandamento para nós hoje é: “Sede santos, porque eu sou santo” (1 Pedro 1:16).

Deus é justo. A Bíblia diz que o Senhor é um Deus de justiça e que a retidão e a justiça são o fundamento do Seu trono (Isaías 30:18; Salmos 97:2). Deus não é apenas nosso Criador e Sustentador; Ele é também nosso Juiz recompensador e punidor, no tempo e na eternidade, com uma justiça que é perfeita e além de qualquer apelo ou disputa.

Deus é perfeito. Seu conhecimento é perfeito. Nada em toda criação está oculto das vistas de Deus. “Não há criatura alguma encoberta diante dele; antes, todas as coisas estão nuas e patentes aos olhos daquele com quem temos de tratar” (Hebreus 4:13). Deus conhece tudo no passado, presente ou futuro, incluindo todos os nossos pensamentos, palavras ou atos. Sua sabedoria é perfeita e totalmente além do nosso entendimento. “Ó profundidade da riqueza, tanto da sabedoria como do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis, os seus caminhos!” (Romanos 11:33).

Deus é soberano. Ele é o único e supremo governador do universo e nada, não importa o que, está fora do Seu controle. “Tudo o que o SENHOR quis, ele o fez, nos céus e na terra” (Salmos 135:6). Com Deus não há acidentes ou surpresas. Ele escreve toda a história do mundo e opera todas as coisas em conformidade com o propósito de Sua vontade (Efésios 1:11). Deus não precisa de conselho ou consentimento para algo que Ele escolha fazer. Nem pode alguém impedi-Lo de fazer o que Lhe agrada: “não há quem lhe possa deter a mão, nem lhe dizer: Que fazes?” (Daniel 4:35)

Deus é onipotente. Ele é todo-poderoso. Em suas próprias palavras, “Eu sou o Senhor, o Deus de toda a humanidade. Haveria alguma coisa difícil demais para mim?” (Jeremias 32:27). Isso não significa que Deus pode fazer tudo (Ele não pode mentir, ou mudar, ou cometer enganos, ou pecar, ou negar a si mesmo), mas significa que Ele pode fazer tudo o que deseja, e tudo o que Ele deseja sempre é consistente com o Seu caráter.


Esses são apenas breves esboços de algumas das coisas que Deus revelou na Bíblia sobre Sua própria natureza e caráter. Há outras verdades sobre Deus na Bíblia, embora haja muitas coisas sobre Ele que nós, possivelmente, não podemos entender. “Ele faz coisas grandes e inescrutáveis e maravilhas que não se podem contar” (Jó 5:9). Nesse sentido, o Todo-Poderoso está além do nosso alcance (Jó 37:23) e nenhuma quantidade de inteligência ou raciocínio humano pode mudar isso. Isso dificilmente deveria nos surpreender: se pudéssemos entender completamente a Deus, Ele seria indigno de nossa adoração.


Os Atributos ou Perfeições de Deus

por Dr. Bruce Milne



O Deus triúno revelou-se de tal forma que é possível atribuir-lhe certas qualidades ou características. Estas não são simples distinções superficiais de pouca importância; pelo contrário, “seus atributos coincidem com o seu ser”(Bavinck). Alguns crêem ser útil, nesse sentido, falar das perfeições de Deus em lugar de seus atributos.

Eles foram classificados de várias maneiras. As mais importantes historicamente distinguem os atributos incomunicáveis de Deus (tais como sua auto-existência, que não tem analogia no homem) dos comunicáveis (tais como seu amor ou justiça, que podem refletir-se em outros agentes morais).

Ao explicar as perfeições de Deus, Calvino nos lembra de que “Deus, para manter-nos humildes, fala bem pouco de sua essência”. Assim, sem omitir qualquer característica da auto-revelação de Deus, mostraremos bom senso ao evitar descrições e distinções excessivamente detalhadas. É também importante lembrar que todas essas perfeições existem em Deus em unidade indivisível.


A Glória de Deus

Glória é um termo bíblico familiar, transmitindo normalmente a manifestação visível do ser de Deus. Sua glória nos leva ao âmago de tudo que é essencial ao seu ser como Deus, sua majestade divina, sua divindade total. Um termo paralelo é “transcendente”, que se refere ao fato de Deus estar “além” de toda realidade finita.

Na Escritura, esta perfeição foi expressa na manifestação de Deus no Monte Sinai (Êx 19-24), “O aspecto da glória do Senhor era como um fogo consumidor no cimo do monte”(Ex 24.17; CF. 19.16-22), e na visão surpreendente que Ezequiel teve de Deus junto ao rio Quebar (Ez 1). Algo semelhante é refletido pela descrição do Cristo exaltado: “os olhos, como chama de fogo... O seu rosto brilhava com o sol na sua força”(Ap 1.14-16). Depois da revelação de Cristo (como uma luz intensa) na estrada de Damasco, Paulo testemunhou ter contemplado “a glória de Deus na face de Cristo”(2 Co 4.6; cf. Jo 1.14). Esta glória divina só é vista claramente quando caímos diante dele em reverência e adoração.

Esta perfeição pode servir como termo sumário para vários outros aspectos. A glória de Deus subentende:

1. A infinitude de Deus: ele não tem limitações. Ele “habita em luz inacessível”(1 Tm 6.16), um Deus de “juízos insondáveis” e cujos caminhos são “inescrutáveis”(Rm 11.33).


2. A auto-existência de Deus: ele não depende absolutamente de nada. “No princípio Deus...”(Gn 1.1); “como se de alguma coisa precisasse”(At 17.25; cf. Is 40.13ss).

3. A imutabilidade de Deus: ele é sempre o mesmo. “Porque eu, o Senhor, não mudo”(Ml 3.6); “o Pai das luzes, em quem não pode existir variação, ou sombra de mudança”(Tg 1.17); “Jesus Cristo é o mesmo ontem e hoje, e o será para sempre”(Hb 13.8). A imutabilidade de Deus é expressa em sua fidelidade no relacionamento com o seu povo. A própria aliança é baseada nesta perfeição.

A glória de Deus proclama a absoluta prioridade e auto-suficiência do Senhor. A criação do universo e do homem são atos de graça espontânea e não exigências do ser de Deus. Nosso valor e significado finais se encontram, desta forma, na glória de Deus (cf. Ef. 1.12).

Esta visão de Deus é anátema para o homem moderno. Ela também é rejeitada por alguns que argumentam que um Deus auto-suficiente cujos atos são dirigidos para sua glória não é digno de louvor. Mas eles esquecem que este mesmo Deus da glória é o Deus da graça que se sacrificou na cruz para salvar-nos. Assim sendo, embora os propósitos de Deus certamente tenham como alvo e busquem a sua glória, também visam o bem-estar eterno do homem. O princípio subjacente foi expresso por Calvino: “É para Deus, acima de tudo, que nascemos e não para nós mesmos”. A aceitação deste princípio é uma linha divisória e ponto de referência para todo pensamento humano sobre Deus.


A Soberania de Deus

O SENHOR é o título mais freqüente dado a Deus no Antigo Testamento. O termo hebraico é Yahweh (Javé), surpreendentemente associado com a aliança entre Deus e Israel. É o nome que Deus designa a si mesmo em resposta ao pedido de Moisés (Ex 3.13-15). Seu significado, “Eu sou o que sou”, que pode ser também traduzido “Serei o que serei”, representa a promessa divina de cumprir o seu propósito declarado de salvar Israel do Egito e estabelecê-lo na terra prometida. O nome representa a fidelidade de Deus a seu povo e a infalibilidade de suas promessas.

Uma convicção similar é expressa pela referência à soberania de Deus. Ele governa o mundo e sua vontade é a causa final de todas as coisas, incluindo especificamente a criação e a preservação (Sl 95.6; Ap 4.11), a autoridade humana (Pv 21.1; Dn 4.35), a salvação do povo de Deus (Rm 8.29ss; Ef 1.4,11), os sofrimentos de Cristo (Lc 22.42; At 2.23), o sofrimento dos cristãos (Fp 1.29; 1 Pd 3.17), a vida e o destino do homem (At 18.21; Rm 15.32) e até os mínimos detalhes da vida (Mt 10.29). Deus reina em seu universo, exaltado sobre todos os demais que reivindicam poder e autoridade. Ele e só ele é Deus: “Eu sou o Senhor, e não há outro”(Is 45.6; 43.11; 44.8; 45.21).

A soberania de Deus é expressa em três perfeições a ela relacionadas:

1. A onipotência de Deus: ele é todo-poderoso (Gn 17.1). Isto é claramente expresso na pergunta de Deus: “Acaso para Deus há coisa demasiadamente difícil?”, feita depois de Deus ter prometido a Abraão e Sara um filho em idade avançada (Gn 18.14), e repetida novamente com sua promessa de restaurar e libertar a Jerusalém face a sua destruição iminente pelo exército babilônico (Jr 32.27). Em ambos os casos a promessa divina foi cumprida à risca.

O Novo Testamento contém igualmente um testemunho semelhante quanto à onipotência de Deus. Ele se revela como o Deus para quem “nada é impossível”, seja o nascimento virginal (Lc 1.37) ou a regeneração da humanidade decaída (Mc 10.27).

Este é o cerne da soberania de Deus e requer uma atitude de absoluta confiança em meio a toda as “impossibilidades” da história humana e das circunstâncias pessoais. Ele é o Senhor: “Acaso para Deus há coisa demasiadamente difícil?”.

2. A onipresença de Deus: ele se acha em todo lugar. Isso é explicado no Salmo 139.7-12. Confrontado com a perturbadora e indiscutível realidade da presença perscrutadora de Deus, o salmista compreende que não pode fugir deste Deus no espaço, no tempo ou na eternidade. O adultério de Davi com Bate-Seba e a maneira como “manipulou” a morte do marido dela talvez pudessem ser escondidos da corte em Jerusalém, mas tudo foi visto por Deus que poderia revelar o fato a qualquer momento (2 Sm 12.11ss). A Bíblia está cheia dessas revelações divinas (Gn 3.11; Js 7.10-26; 2 Rs 5.26; At 5.1-11).

A onipresença de Deus pode dar também muita segurança. Quando a perversidade triunfa e a injustiça e o poder dominam incontestáveis, Deus tudo sabe e tudo vê (Sl 66.12; Is 43.2; At 23.11). Não se pode zombar dele (Gl 6.7) e ele indicou um dia para julgar o mundo (At 17.31). Do mesmo modo, em momentos de provação ou sofrimento pela nossa fé: “Contaste os meus passos quando sofri perseguições; recolheste as minhas lágrimas no teu odre; não estão elas inscritas no teu livro?”(Sl 56.8; cf. Ap 6.8; 18.24).

A eternidade de Deus é um aspecto relacionado ao anterior. A onipresença no espaço tem a sua contraparte no tempo. “De eternidade a eternidade, tu és Deus”(Sl 90.2). Não existe momento “antes” ou depois dele.

3. A onisciência de Deus: Deus tudo sabe. Esta perfeição está intimamente ligada à sua onipresença (Sl 139.1-12). As implicações práticas são semelhantes e perturbadoras, mas trazem ao mesmo tempo segurança: Deus vê e, portanto, tudo sabe. Isso é, em especial, pertinente ao juízo, sendo simbolicamente expresso pela “abertura dos livros”(Ap 20.12). O passado não se foi para sempre; o tempo desde o seu início, é presente para Deus. No julgamento final, a evidência irá exceder de longe o que qualquer juiz ou júri jamais considerou: a recapitulação da vida inteira do acusado, todos os atos exteriores, cada motivo e atitude sejam visíveis ou secretos. O juízo final de Deus será absolutamente justo. Isso coloca em perspectiva os “mistérios” da vida, eventos que parecem absurdos ou sem sentido; se Deus tudo sabe, todos os acontecimentos acham-se também sujeitos à sua compreensão e vontade. Pode haver mistérios em relação a Deus, jamais erros.

Esta perfeição é fundamental à finalidade da auto-revelação de Deus. Se ele conhecesse em parte, sua verdade seria também apenas provisória. O senhorio de Deus em sua onisciência significa que não aguardamos uma revelação posterior que talvez supere sua auto-revelação em Jesus Cristo. Como o Filho eterno de Deus, a realidade do próprio Deus eterno, Jesus é a revelação final, a verdade em quem se acham ocultos os tesouros da sabedoria e do conhecimento (Jo 14.6; Cl 2.3). A onisciência de Deus é também a base para a obra do Espírito Santo em revelar a mente e a verdade de Deus na Escritura, garantindo dessa forma sua confiabilidade e finalidade (Jo 16.13; 17.17).


A Santidade de Deus

O perigo anteriormente mencionado de separar as perfeições de Deus, surge com mais freqüência com respeito à sua santidade e ao seu amor.

Muitos sentem que existe uma tensão não resolvida entre o Deus santo da lei e o Deus amoroso do evangelho. Alguns solucionam isto enfatizando excessivamente a santidade de Deus; ele é visto como um rigorista austero, tornando obrigatório o esforço moral incessante, através da ameaça do juízo futuro. Outros destacam demais o amor de Deus, transformando-o em uma figura indulgente e sentimental, despida de força moral. O Deus bíblico é tanto santo como amoroso, em unidade inseparável em cada pessoa da Trindade.

A santidade de Deus é central em seu ser, sendo especialmente destacada no Antigo Testamento (Lv 11.44; 19.2; etc; Js 24.19; 1 Sm 6.20; Sl 22.3; Is 57.15). Sua ausência corporativa no Novo Testamento é mais aparente que real, em face da ênfase sobre a pessoa e obra do Espírito Santo. O elemento fundamental no termo hebraico godesh, traduzido como santo, é mais provavelmente “separação”, com a idéia positiva de “dedicação à propriedade de”. Em referência a Deus ele inclui duas implicações:

1. Deus acha-se separado de todos os outros seres; só ele é Deus. Nesse sentido, a santidade de Deus compara-se à sua glória. A visão de Isaías dá uma idéia disto: “Santo, Santo, Santo é o Senhor dos Exércitos; toda a terra está cheia de sua glória”(Is 6.3), repetindo-se na visão de João quase mil anos mais tarde: “Santo, Santo, Santo é o Senhor Deus, o Todo-Poderoso, aquele que era, que é e que há de vir”(Ap 4.8; cf. 1 Tm 6.16). Esta santidade divina é também associada ao Filho (Mc 9.2ss; Lc 1.35; At 8.3ss; Ap 1.12ss) e ao Espírito (Lc 11.13; At 2.4; 4.31; Ef 4.30; Hb 9.8).

2. A Santidade de Deus com uma noção ética refere-se à separação de tudo o que resiste e se opõe a ele. “A santidade é aquele atributo em virtude do qual Deus faz de si mesmo o padrão absoluto de si mesmo”(Godet). Esta é a base de todas as distinções morais. O bem é aquilo que Deus quer; o mal é aquilo que resiste à sua vontade e a contraria, contrariando portanto a sua natureza.

A santidade de Deus indica que ele é absolutamente puro e perfeito, sem qualquer pecado ou maldade; seu próprio ser é o resplendor e o derramamento da pureza, da verdade, da justiça, da retidão, da bondade e de toda perfeição moral. O desafio ético que isto produz fica claro em ambos os Testamentos. Uma das designações mais freqüentes de Deus em Isaías é “o Santo de Israel”(5.19; 30.12; 43.3; 55.5), que exige que Israel se conforme em seu comportamento com o caráter de Deus “no meio” da nação (12.6). No Novo Testamento a habitação interior do Espírito Santo abrange implicações éticas penetrantes: os cristãos devem “fugir da impureza” e viver como os chamados para uma “vida santa”(1 Co 6.18ss; 1 Ts 4.3,7ss).

Devemos notar quatro termos relacionados.

1. A retidão de Deus é sua conformidade “santa” consigo mesmo; no Antigo Testamento ela é interpretada em relação com sua criação (Sl 14.517) e com seu povo (Sl 31.1; Jr 11.20). Ela inclui uma atividade em que Deus liberta e defende o seu povo (Jr 23.6), podendo ser então descrito como “Deus justo e Salvador”(Is 45.21). A falta de retidão constitui o problema moral do homem diante de Deus, sendo que a provisão de retidão em Cristo constitui o ponto alto do evangelho da graça (Rm 1.17; 3.2ss; 5.17-21).

2. A justiça de Deus é sua santidade em operação (Dt 32.4; 1 Jo 1.9; Ap 15.3). Alguns teólogos distinguiram entre a justiça governativa, no governo do mundo como um todo, e a justiça distribuitiva, revelada na distribuição de recompensas e castigos. Esta perfeição se relaciona com o amor e misericórdia de Deus, desde que a sua justiça às vezes vindica os necessitados e os penitentes (Sl 76.9; 146.7; Is 30.18; 1 Jo 1.9).

3. A ira de Deus tem origem em sua autoconsistência eterna. Seu caráter revelado é uma expressão inalterável de sua natureza com persistência e dedicação total, Deus luta contra tudo que se opõe a ele. “A ira é a rejeição santa do ser de Deus contra aquilo que contradiz a sua santidade”(J.Murray). A ira de Deus, como é freqüentemente afirmado, não é um rude exemplo de antropomorfismo. Trata-se certamente de uma qualidade pessoal, mas uma qualidade da Pessoa normativa; sem ela, ele deixaria de ser verdadeiramente santo e seu amor degeneraria em sentimentalismo. Também sua ira não é arbitrária, caprichosa ou sujeita à emoção, como acontece com o homem. A ira de Deus opera na história quando os homens colhem o fruto moral e espiritual por rejeitarem a revelação divina (Rm 1.18ss); isto não passa de uma forma preliminar de algo que será revelado no fim dos tempos e do qual a cruz de Cristo representa a mais clara e sóbria pré-estréia (Sl 78.31; Os 5.10; Jo 3.36; Ef 2.3; 1 Ts 1.10; Ap 6.16).

4. A bondade de Deus é uma perfeição que pode ser igualmente classificada como santidade ou amor e como tal enfatiza a impossibilidade de separar esses dois atributos (Ex 33.19; 1 Rs 8.66; Sl 34.8; Rm 2.4).


O Amor de Deus

“Deus é amor”(1 Jo 4.8) é a definição bíblica mais conhecida de Deus. Nos contextos humanos, porém, o amor inclui uma considerável variedade de atitudes e atos. Em relação a Deus, trata-se de uma idéia muito específica. “Nisto consiste o amor... em que... enviou seu Filho como propiciação pelos nossos pecados”(1 Jo 4.10); “Nisto se manifestou o amor de Deus... em haver Deus enviado o seu Filho unigênito ao mundo”(1 Jo 4.9).

O termo agapê aqui presente tem comparativamente pouco uso fora do Novo Testamento. A palavra grega comum, erõs, fala de um amor associado a alguém digno, enquanto agapê é o amor pelos indignos, por alguém que perdeu todo o direito à devoção do amado. O Antigo Testamento tem um testemunho disto no amor de Deus por Israel (Dt 7.7ss) e no amor de Oséias pela sua mulher (Os 3.1ss, etc.).

Isto pareceria reabrir a divisão, que tentamos superar, entra a santidade e o amor de Deus. Como conciliar este Deus, que age livremente em amor, com o Deus santo que se preocupa com a sua glória? Devemos lembrar, entretanto, que a santidade de Deus é a base e fonte de todo o bem; deste modo, ela pode ser vista como a pressuposição necessária de seu amor. Além do mais, apenas aquele que é plena e livremente Deus pode plena e livremente condescender a alguém amor- agapê, o qual está arraigado no amor eterno e mútuo das três pessoas da Trindade.

A santidade e o amor unem-se na pessoa e na obra de Jesus Cristo. Como Deus, ele incorpora a santidade divina que está separada de todo pecado e maldade e a eles resiste. Todavia sua vinda é, em si mesma, a resposta de Deus, cheia de amor e graça, à culpa e fraqueza humana. Eles também se unem no ministério de Deus Espírito Santo cujo ministério essencial é a renovação e santificação do povo de Deus em cumprimento do seu propósito de amor.

O amor de Deus acha-se, portanto, sempre intimamente ligado com a graça, um inclinar-se para abraçar os indignos. O seu amor é sua decisão livre e desembaraçada de salvar os homens e mulheres pecadores em Jesus Cristo, renová-los e santificá-los no Espírito Santo; trata-se então de um milagre incrível.

Outros três aspectos devem ser notados:

1. O amor de Deus, agapê, é principalmente expresso na redenção dos pecadores e em tudo que está ligado a isso. Mas é também manifestado no cuidado de Deus pela criação. Isto é freqüentemente chamado de sua bondade ou benevolência, que também se evidenciam no mundo natural (At 14.17).

2. A misericórdia de Deus é o seu amor no encontro com o pecado específico das pessoas. Em misericórdia, ele perdoa a transgressão do seu povo; a misericórdia de Deus é sempre custosa, pois envolve a aceitação das conseqüências do pecado humano na cruz (Ef 2.4; Tt 3.5).

3. A aliança é uma noção bíblica indispensável, em torno da qual se concentra grande parte do ensino bíblico sobre o amor de Deus. Ela se refere ao amor de Deus expresso pelo fato dele entrar em relação com os homens. A aliança principal do Antigo Testamento foi feita com Abraão e ela alcança pleno desenvolvimento na nova aliança (literalmente o novo testamento) em Cristo. Por meio da aliança, Deus compromete-se livremente a libertar seu povo e a permanecer como seu Deus. O termo hebraico para graça, chen~chesed, é um termo de aliança que dá a idéia de amor leal, ou “misericórdia”(ERAB).

Este aspecto do amor de Deus é a segurança máxima do cristão: “Se somos infiéis, ele permanece fiel”(2 Tm 2.13). Nossa posição diante de Deus não depende de nossa força em segurar a Cristo, e não pode ser prejudicada, em última análise, nem mesmo por nossa desobediência e má vontade.

O coração todo-poderoso de Deus bate a nosso favor, e nesse fato encontramos nossa segurança e paz finais.

Este é então o Deus da Bíblia:

- O Deus glorioso em sua inalcançável e exaltada majestade,

- O Senhor, exaltado sobre todas as coisas e fazendo com que tudo sirva ao seu propósito,

- O Santo, exaltado e separado do pecado e do mal,

- O Deus de amor, eterno, gracioso e redentor.


A Aplicação destas verdades na vida dos filhos de Deus

“O que nos vem à mente quando pensamos em Deus é a coisa mais importante a nosso respeito.”. A.W.Tozer expressa desse modo o supremo significado da Doutrina de Deus. Em certo sentido sua aplicação é tanto imediata quanto penetrante; as convicções que temos sobre Deus irão afetar tudo sobre nós, se o tivermos visto na plenitude de seu ser divino, Pai, Filho e Espírito, perfeito em glória, senhorio, santidade e amor.

Ele deve ser adorado

Crer na existência de um tal Deus é ser chamado para derramar nosso ser diante dele em adoração, agradecimento e louvor, comprazendo-nos nele, bendizendo-o; rejubilando-nos na sua verdade, beleza, pureza e fidelidade; gloriando-nos na sua graça, misericórdia e amor perene; exultando em sua liberdade soberana e poder ilimitado; exaltando-o pela sua majestade e glória; reconhecendo nele a realidade final, a verdade de toda verdade, a alegria de toda alegria, o amor de todos os amores, Pai, Filho, Espírito, a Trindade a ser sempre adorada.

Crer em tal Deus significa adorá-lo como o Deus trino: Pai, Filho, Espírito, eterna indivisivelmente unidos, perfeitamente relacionados, cada um existindo e operando em perfeita unidade com as outras pessoas, sempre um, sempre três; significa reconhecer e adorar a Deus na indescritível riqueza e eterna beleza da sua Divindade, ao lado da qual todos os demais sistemas de verdade não passam de sombras pálidas e efêmeras, ídolos patéticos, absolutamente incapazes de postar-se diante diante do Senhor, o Salvador todo-poderoso, pois que só ele é Deus.

Em nossa adoração temos de meditar sobre as perfeições divinas e adorá-lo segundo cada uma delas.

Nós o adoramos, Pai, Filho, Espírito, pela perfeição da sua glória. Ele é absolutamente exaltado sobre todas as coisas, Deus único em sua majestade inalcançável. Glória ao seu nome.

Nós o adoramos, Pai, Filho, Espírito, pela perfeição de seu senhorio. Ele é o que é exaltado, que se distingue de todos os outros “deuses” e senhores e confirma seu governo sobre eles. Glória ao seu nome.

Nós o adoramos, Pai, Filho, Espírito, pela perfeição de sua santidade. Ele é o Deus de reverente majestade, exaltado sobre todas as coisas, separando-se de tudo o que o desafia e se opõe a ele. Glória ao seu nome,

Nós o adoramos, Pai, Filho, Espírito, pela perfeição do seu amor. Ele, que amou antes da fundação do mundo, inclina-se em sua graça para abraçar e remir a criatura pecadora que o nega e a ele resiste. Glória ao seu nome.

As Escrituras estabelecem esta adoração tanto no ambiente corporativo da assembléia do povo de Deus (Ex 4.31; 2 Cr 29.28; 1 Co 14.25; Ap 7.11) como no ambiente privado da comunhão pessoal com Deus (Gn 24.26ss; Ex 34.8; Jó 1.20) e falam do ministério gracioso do Espírito Santo que inspira e libera a adoração de seu povo (Rm 8.26ss; Ef 5.18ss; Fp 3.3).

Ele deve ser servido

A única resposta adequada a um tal Deus é servi-lo. A adoração faz parte desse serviço, que se estende a todas as áreas da vida.

De maneira negativa, o serviço a Deus implica em renunciar a todo direito a nós mesmos e submeter nossa vontade inteiramente à vontade dele (1 Co 6.19; 2 Co 5.15; Fp 3.7ss; Tg 4.8; 1 Pd 2.1ss). No sentido positivo, significa reconhecer que existimos pela vontade de Deus e por causa dele, dedicando-nos, portanto, deliberadamente, a viver para sua glória e honra em todos os setores de nossa vida. “A coisa mais importante é esta: somos consagrados e dedicados a Deus a fim de que doravante não pensemos, falemos, meditemos, nem façamos nada exceto para a sua glória”(Calvino).

Ele deve ser proclamado

Parte de nossa resposta a Deus, à medida que ele revela seu ser e natureza a nós, é torná-lo conhecido em um mundo em que ele é largamente ignorado e rejeitado. O mundo não é neutro, mas cheio de ídolos, isto é, falsos objetos de adoração. Estes podem ser representados por líderes humanos, ideologias políticas, classes ou grupos sociais, sistemas de pensamento humano, e até agentes demoníacos. Somos chamados a desafiar esses usurpadores e a confrontar esses falsos deuses em o nome do Deus vivo e verdadeiro. Isto envolve espalhar o conhecimento de Deus através do mundo inteiro, tanto geográfica como culturalmente, mediante nossas orações, o investimento de nossos recursos e nosso testemunho pessoal.

Esta proclamação de Deus não é só direta e verbal, mas também indireta e encarnada. Ela envolve viver de maneira a que o Deus que proclamamos em nosso discurso seja manifestado em cada área de nossa vida. Precisamos referir-nos aqui à provisão de Deus, através de seu Filho e Espírito, para transformar o que é humanamente impossível em algo possível (Mt 28.19ss; Jo 14.15ss; At 1.9).

Essas três aplicações do ser e natureza de Deus são inseparáveis. Adorar a Deus é servi-lo e proclamá-lo; servir a Deus é proclamá-lo e adorá-lo; proclamar a Deus é adorá-lo e servi-lO.

Sobre o Autor: Dr.Bruce Milne é escocês, batista e professor de Teologia Bíblica no Spurgeon's College, em Londres. Trabalhou também com igrejas na África Oriental, e escreveu vários livros e artigos sobre temas bíblicos e teológicos.

Traduzido do original inglês: KNOW THE TRUTH. Inter-Varsitu Press, Inglaterra. Copyright 1982, Bruce Milne. Copyright ABU Editora S/C. Tradução de Neyd Siqueira. Revisão de Rosa Maria Ferreira. Artigo sumariado e reproduzido com a autorização da ABU - Aliança Bíblica Universitária.




Julgue sim !!!

Afinal, o que é julgar?

Julgar é analisar, examinar, provar, dar um parecer ou um conceito. Também pode ser entendido no sentido de condenar a algo, dando um julgamento, uma sentença.

# 1 Julgar com justiça

A passagem nolivro de João capítulo 7 versículo 24 afirma que não podemos julgar pela aparência e sim com justiça. Isso inclui ouvir sempre as várias versões para se compreender as coisas, que nem sempre se mostram de cara.

# 2 Julgar o que os pregadores falam

No livro de 1 Corintios capítulo 14 versículo 29 a orientação é que os profetas, que são pregadores da palavra de Deus, falem e os outros julguem o que ele falou. Todo julgamento das pregações devem ser feitas para ver serealmente estão de acordo com a palavra de Deus.

# 3 Julgai todas as coisas

Em 1 Tessalonicenses capítulo 5 versículo 21 a Bíblia orienta julgar todas as coisas e reter o que é bom. Julgar no sentido de examinar, provar, analisar.

# 4 Julgar espíritos

No livro de 1 João capítulo 4 versículo 1 a orientação é examinar, julgar, se os espíritos procedem de Deus. Ao que dá a entender,os espíritos que não vêm de Deus guiam os falsos profetas, segundo essa passagem.

# 5 julgar apenas pessoas que são da igreja

No livro de 1 Corintios capítulo 5 versículo 12 a orientação é julgar as pessoas que pertencem a igreja, e não os que estão fora.

No versículo 11 afirma que não devemos nos associar com pessoas que, se dizem irmãos, mas cometem pecados. Os que não pertencem a igreja, ou seja, que ainda não creram em Cristo, serão julgados por Deus e não devem ser julgados pelas pessoas da igreja, diferente do que os cristão costumam fazer.



A busca pela sabedoria na Grécia Antiga


A filosofia surgiu nos séculos VII e VI a.C nas cidades gregas situadas na Ásia Menor. A palavra é a junção de philos=amor e Sophia=sabedoria. (Lembrando que os gregos antigos se valiam de algumas expressões para expressar as diferentes formas de amor, são elas: Eros, philia, ágape, pragma e storge). Tem uma história de mais de dois mil anos. Embora vivessem em cidades-estado distintas e muitas vezes rivais entre si, os gregos conseguiram desenvolver um grande avanço da ciência na Idade Antiga, principalmente no campo do saber.

“No começo, na Grécia, a Filosofia tratava de todos os temas, já que até o séc. XIX não havia uma separação entre ciência e filosofia. Assim, na Grécia, a Filosofia incorporava todo o saber. No entanto, a Filosofia inaugurou um modo novo de tratamento dos temas a que passa a se dedicar, determinando uma mudança na forma de conhecimento do mundo até então vigente. Isto pode ser verificado a partir de uma análise da assim considerada primeiro proposição filosófica. “(Prof. Dr. Delamar José Volpato Dutra, 2001, pg. 58)

Começa por ser uma interpretação dos mitos cosmogônicos difundida pelas religiões do tempo. Pode-se dizer que se originou por conta da curiosidade e questionar os valores do senso comum ditado e aceito por todos. Segundo os dois grandes filósofos Sócrates e Platão os mitos foram à matéria inicial de reflexão dos filósofos. Ora, mas também os primeiros ensaios filosóficos levaram os sábios a formular as relações entre os indivíduos e a cidade. Daí resulta que os primeiros filósofos gregos foram legisladores, assim temos: Licurgo, Drácon, Epenemides e Periandro.

Depois surgem os chamados filósofos da natureza no período Arcaico com a Escola de Mileto (Jônica) da qual se destacaram Tales, Anaxímenes e Anamaximandro o maior dos jônicos e precursor de Demócrito, que foi físico, astrônomo e matemático. Na concepção desta escola tudo na natureza descendia de um elemento básico (água, ar ou matéria). Atribuí-se a Tales a seguinte afirmação: “todas as coisas estão cheias de deuses”. Entretanto posteriormente muitos filósofos não deram muita importância a Tales de Mileto e passaram a criticá-lo por conta de sua filosofia barata e absurda. Mas alguns outros filósofos seguiram o caminho oposto das críticas como Nietzsche:

"a filosofia grega parece começar com uma idéia absurda, com a proposição: a água é a origem e a matiz de todas as coisas. Será mesmo necessário deter-nos nela e levá-la a sério? Sim, e por três razões: em primeiro lugar, porque essa proposição enuncia algo sobre a origem das coisas; em segundo lugar, porque o faz sem imagem e fabulação; e, enfim, em terceiro lugar, porque nela, embora apenas em estado de crisália , está contido o pensamento: ‘Tudo é um’. A razão citada em primeiro lugar deixa Tales ainda em comunidade com os religiosos e supersticiosos, a segunda o tira dessa sociedade e o mostra como investigador da natureza, mas, em virtude da terceira, Tales se torna o primeiro filósofo grego”. (Friedrich. Nietzsche, 1832, pg. 60)

Depois da escola Jônica aparece a escola Itálica que tem como fundador Pitágoras de Samos. A escola prega que tudo se baseia ao número, forma e harmonia das esferas. A posteriori surge a escola Eleática, esta prega o idealismo absoluto fora do que é real. Para o fundador desta escola Xenófane só a inteligência pode chegar a compreender os princípios fundamentais da vida e também negou o politeísmo e criou o monoteísmo. Parmênides e Zenon continuaram a obra de Xenófane, para eles não há nascimento nem morte, tudo é eterno e imperecível, os sentidos nos enganam; tudo é aparência e por trás desta está à realidade absoluta.

Mas Posteriormente, com a questão do princípio fundamental único entrando em crise, surge a sofística, e o foco muda do cosmo para o homem e o problema moral. Os sofistas andavam pela Grécia, de cidade em cidade, fazendo discursos, formando discípulos e participando de debates. Por seus serviços os sofistas cobravam altas taxas e foram, na verdade, os primeiros gregos a cobrarem dinheiro para transmitir seus conhecimentos. Os sofistas não eram, falando em termos técnicos, filósofos, mas ensinavam tudo aquilo que se lhes demandasse. Eram tópicos variados como retórica, política, gramática, etimologia, história, física e matemática. . Logo alcançaram o status de mestres da virtude no sentido de que ensinavam as pessoas a desempenharem seus papéis dentro do Estado. Protágoras de Abdera, nascido em cerca de 445 a.C. é considerado como o primeiro Sofista. Outros que se destacaram foram Górgias de Leontini, Pródico de Ceos e Hípias de Elis. Onde quer que eles aparecessem, especialmente em Atenas, eram recebidos com entusiasmo e muitos se ajuntavam para ouvi-los. Até mesmo pessoas como Péricles, Eurípides e Sócrates desfrutavam de sua companhia. Ora, mas porque os sofistas tiveram uma tamanha aceitação na Grécia Antiga? Pois a carreira mais popular na Grécia naquela época era a habilidade na política. Assim, os sofistas concentraram seus esforços no ensino da retórica. Os objetivos dos jovens políticos que eles treinavam eram o de persuadir as multidões de tudo o que quisessem que elas acreditassem. A busca da verdade não era a sua prioridade. Conseqüentemente os sofistas se empenhavam em providenciar um estoque de argumentos sobre qualquer que fosse o assunto, ou ainda para provar qualquer posição. Vangloriavam-se de sua habilidade de fazer com que o pior parecesse melhor, de provar que preto era branco. Contudo adotando esta maneira de trabalhar e desenvolver a retórica os sofistas foram muitos criticados por Platão. Através de Platão ficamos sabendo que havia certo preconceito sobre o título de "sofista". Na época de Aristóteles esse título sustenta um significado de insolência à medida que define "sofista" como uma pessoa que faz uso da razão de maneira falsa para obter lucros.

Na época auge dos sofistas estes não eram os únicos, pois no mesmo período também tivemos Sócrates que filosofava com as pessoas nas ruas de Atenas. Infelizmente as únicas fontes que temos deste é através de seu aluno Platão e que muitos autores duvidam da existência de Sócrates. Mas o que se sabe é que ele foi moralmente, intelectualmente e filosoficamente diferente de seus contemporâneos atenienses. Quando estava sendo julgado por heresia e por corromper a juventude, usou seu método de elenchos (método utilizado para o questionamento) para demonstrar as crenças errôneas de seus julgadores. Sócrates acredita na imortalidade da alma e que teria recebido, em um certo momento de sua vida, uma missão especial do deus Apolo através de uma mensagem do Oráculo de Delfos. A mensagem era a seguinte: "conhece-te a ti mesmo". Sócrates também duvidava da idéia sofista de que a arete (virtude) podia ser ensinada. Acreditava que a excelência moral é uma questão de inspiração e não de parentesco, pois pais moralmente perfeitos não tinham filhos semelhantes a eles. Isso talvez tenha sido a causa de não ter se importado muito com o futuro de seus próprios filhos. Sócrates freqüentemente dizia que suas idéias não são próprias, mas de seus mestres, entre eles Pródico e Anaxágoras de Clazômenas .

Então Sócrates não recebia pagamento pelo que ensinava. Dispensava gratuitamente o seu saber a quem dele necessitava. Contudo, foi considerado por muitos como sofista porque aparentemente exercia o mesmo ofício. Como eles, instruía a juventude, discutia em público política e moral, religião e por vezes arte e, como eles, criticava com vigor e subtileza as noções tradicionais nas diferentes matérias. Como diz Bonnard: ele era o "príncipe dos sofistas”, o mais insidioso dos corruptores da juventude. “O mais culpado também: os outros são estrangeiros, ele é cidadão”. (1980, pg. 439)

A sua motivação de ordem pedagógica distingue-se ainda da dos sofistas, na medida em que estes praticavam um ensino desligado de preocupações de ordem ética. Como diz Landormy: “Fingiam "adotar as opiniões comuns, a moral das pessoas honestas, os preconceitos ou as superstições do povo”, (1985, pg.15), de modo a agradarem ao maior número de pessoas. O seu objetivo principal era agradar de forma a obterem os seus proveitos próprios, sem atenção aos valores essenciais. Daí o uso artificioso da oratória e da retórica como forma precisamente de, através da palavra, conseguir persuadir os cidadãos.

"Sócrates quer educar o seu povo, conduzi-lo à consciência do seu verdadeiro bem, ao perigo e à nobreza da escolha. Quer libertá-lo da servil obediência à opinião estabelecida, para comprometê-lo no livre serviço da verdade severamente verificada. Quer tirá-lo da infância, que pensa e age por imitação e constrangimento, para fazer dele um povo adulto, capaz de agir por razão, de praticar a virtude não por temor das leis e do poder (ou de deuses ao seu dispor), mas porque sabe de ciência certa que a felicidade é idêntica à virtude" . (Bonnard,1980, pg. 442)

Sócrates acreditava que se, através do seu método, conseguisse levar as pessoas a descobrirem o que é a aretê, então esta descoberta obrigaria os seus interlocutores a agir de forma virtuosa. No Protágoras, a pergunta pela ensinabilidade da virtude é central. Pode a virtude ser ensinada? O ponto curioso deste diálogo é que, na primeira fase da discussão, Sócrates dúvida que a virtude possa ser ensinada, enquanto Protágoras, como sofista, entende que sim. Mas, no decorrer da argumentação, Sócrates vai analisar as várias virtudes e conclui que todas elas são uma única, que todas se identificam com o conhecimento do Bem. Nesse momento, acaba por concluir que a virtude pode ser ensinada e é Protágoras quem passa a considerar duvidosa essa possibilidade. Sócrates combateu os sofistas, julgou com severidade o uso que faziam da arte da palavra, que segundo ele não visava estabelecer o verdadeiro, mas produzir a aparência. Sócrates defendia energicamente a necessidade e a possibilidade de conhecer a verdade. Amava-a acima de tudo e tomou como ocupação exclusiva da sua vida, ajudar a descobrir em cada homem a verdade que nele existia. Mesmo sem salário e quase sem esperança, exerceu até a morte este serviço de educador do seu povo, o mais insubmisso de todos os povos. E esta era sua maneira de ser cidadão.

Mas, os cidadãos atenienses não souberam compreender Sócrates. Ele amava a juventude. Amava a sua cidade. Foi por ela que viveu e foi por ela que consentiu morrer. Acusado injustamente por uma elite ateniense que ficara envergonhada por não conseguir responder perguntas de Sócrates e que também não entenderam sua forma de filosofia, a de indagar e fazer os cidadãos pensarem e não somente acomodados com uma situação qualquer. Um de seus inimigos foi o teatrólogo Aristófanes. Morreu com dignidade e com sua calma incompreensível rodeado de amigos que fizera ao longo de sua jornada, ao beber a sicuta deitou-se e esperou sua alma alcançar o outro lado da existência, o que ele sempre acreditava.

Costuma-se atribuir a Sócrates de forma errônea como sendo o primeiro filósofo existente. Mas percebe-se que ele foi sem dúvida alguma o marco para a filosofia, com ele temas como ética, política, como ser cidadão e questões como a imortalidade da alma foram colocadas em xeque. Provavelmente sem a existência e grande influência de Sócrates não teríamos outros grandes filósofos posteriormente como Platão e conseqüentemente Aristóteles. Portanto a base primordial da Filosofia grega era a busca de um amor pela sabedoria, focando mais o saber para não se tornar um cidadão acomodado. Amar a sabedoria acima de tudo era o objetivo principal, mas buscar uma equiparação entre o amor e a plena sabedoria sem dúvida era o objeto de desejo de todos. A evolução na forma de pensar e agir dos gregos antigos mostra-nos a sua sede pelo “Sapere Aude” (Ouse Saber) como dizia Immanuel Kant.


Filhos Rebeldes

A Bíblia fala

Entretanto, se a situação continuar, e a criança insistir na atitude errada, mostre-lhe as Escrituras. Conforme a área em que sua rebelião se manifestar, seja na questão da fala ou dos amigos que escolhe, mostre-lhe os textos relativos ao problema. Mande-a ler em voz alta versos como Provérbios 18:6 “Os lábios do insensato entram na contenda, e por açoites brada a sua boca”; Provérbios 10:12 “O ódio excita contendas, mas o amor cobre todas as transgressões”; Provérbios 17:14 “Desiste, pois (da contenda), antes que haja rixa.” (Quando se tratar de crianças pequeninas, geralmente lemos numa versão moderna da bíblia). Não demorará muito e ela compreenderá que estava errada em discutir e teimar, não porque mamãe disse que era errado, mas porque Deus o dissera. Ore com a criança pedindo a Deus que rejeite esse hábito e que a ajude a usar seus lábios da maneira certa.

Você pode controlar a rebelião!

Como vemos, não é impossível dominar a rebeldia infantil. Muitos pais caíram no erro de pensar que se encontram totalmente derrotados e que não há esperanças, mas não é isso que a Bíblia ensina. O pai cristão não precisa deixar-se atrair pelas ideias e conceitos desse mundo, mas muitos estão assim, e o resultado é a destruição de seus filhos. As reações que os pais em geral tem para com a rebeldia dos filhos são tristes. Eles a temem, ou então a ignoram, dão explicações, ou então berram e gritam e torcem as mãos lamentando: Não sabemos o que fazer dele!”.

CUIDADO: O medo manipula os pais

Em alguns lugares , os pais tem tanto medo da rebelião, que removem todos os regulamentos e exigências, por pensarem que é mais rápido deixar o adolescente fazer o que quiser, do que vê-lo rebelar-se contra os regulamentos. Na história do filho pródigo, em Lucas 15, contém inúmeras lições para os pais, cujos filhos deixam o lar em atitude de rebeldia. Uma dessas lições é a de obrigar o jovem rebelde a enfrentar as consequências de sua atitude toda vez que ela fizer com que fique em apuros. Se for expulso da escola, a mãe não deverá ir ao diretor para reclamar. Deve deixar que o filho pague o preço e aprenda que a vida fora da escola ainda é mais dura que a vida da escola. Portanto, o medo é uma das mais perigosas reações que os pais podem ter para com a rebelião dos filhos; outra é ceder, desistir, entregar os pontos.

O que queremos dizer realmente?

O que realmente dizemos quando afirmamos: “Não posso fazer nada com ele”, é que não poderemos corrigi-lo, pois teríamos que empregar tempo nisso, desistir de certos prazeres ou de qualquer coisa que isso exija de nós. Você ama seu filho o suficiente para correr o risco de que ele fique com raiva, e para fazer o que é melhor para ele mesmo que pareça que ele o odeia? Você o ama o suficiente para interromper seu trabalho ou uma conversa ao telefone, a fim de discipliná-lo por uma desobediência?

Os entendidos em assuntos policiais estão dizendo que a causa da delinquência juvenil é a preguiça dos pais. A rebeldia dos homens está aumentando não porque os pais foram demasiadamente rigorosos, mas porque ficaram com medo de ser rígidos e se tornaram facilmente influenciáveis.

Que Deus nos livre da insegurança que nos faz pensar que nossos filhos tem que nos amar e compreender. Que nos livre de querer sempre a aceitação por parte deles. Essas coisas são apenas temporárias, quando lembramos que, quando adulto, “o homem insensato despreza a sua mãe” (Provérbios 15:20). Enquanto você ainda está criando esse filho insensato, pode até ser muito querida por ele; mais tarde é que ele irá odiá-la, pois você não teve nem amor, nem força suficientes para deter sua insensatez.

Os pais se eximem da responsabilidade

David Wilkerson procurou os pais de criminosos, viciados em drogas e delinquentes, na esperança de descobrir quais haviam sido as falhas do lar, para que os filhos fracassassem na vida. Esses relatos estão em seu livro Parents on Trial (Pais em julgamento). Todos os pais de criminosos ferrenhos alegam terem feito tudo que deviam; nenhum deles reconhece que cometeu erros. Então David Wilkerson foi conversar com os jovens.

– O que seus pais poderiam ter feito, para impedir que você malbaratasse sua vida dessa maneira?

E a resposta dos jovens era sempre a mesma: que o grande erro dos pais fora permitir que se rebelassem.

-Se minha mãe me amasse, teria me proibido de andar com aqueles rapazes de mau caráter. Ela apenas ficava implicando comigo, e depois ia cuidar da casa.

A brandura excessiva dos pais que tentaram evitar a rebeldia dos filhos só fez alimentá-la. Aprenda com os erros dos outros. A rebeldia é pecado. Ela destrói os planos de Deus para a vida de seu filho. Quando ele se rebelar, deus lhe atribui a responsabilidade de corrigi-lo. Não se esquive a ela!

*Fonte: Livro “Como criar filhos felizes e obedientes”, Barbara Cook, Editora Betânia, páginas 57 a 67.


Por Que Creio em Deus

A minha alma está apegada ao pó;

vivifica-me segundo a tua palavra.

Eu te expus os meus caminhos, e tu me valeste;

ensina-me os teus decretos.

Faze-me atinar com o caminho dos teus preceitos,

e meditarei nas tuas maravilhas.

A minha alma, de tristeza, verte lágrimas;

fortalece-me segundo a tua palavra.

Afasta de mim o caminho da falsidade

e favorece-me com a tua lei.

Salmo 119.25-29

Por Jean-Marc Berthoud



Eu não estava buscando a Deus. Eu pertencia àquela classe de homens, tão comum hoje, que encontram a justificação de sua existência na intensidade de seus sentimentos. Dotado com uma alta sensibilidade, eu me considerava superior aos pobres mortais, dentre a elite que Stendhal costumava chamar de “os poucos felizes”, os eleitos, os que tem cultura e são inteligentes, cujas vidas não são limitadas pela trivialidade e mediocridade do rebanho comum.


Eu não escolhi a Deus. Na verdade, ele não importava para mim. Essa hipótese não era mais necessária para a condição satisfatória da minha psiquê do que foi para o universo mecânico imaginado pelo físico francês Laplace. Outros podiam muito bem se interessar por tais hipóteses. Eu não. E quando o meu irmão mencionou que um amigo em comum tivera uma experiência notável com Deus, eu ri educadamente na cara dele. Tais coisas simplesmente não existiam! De ali em diante, ele teve o cuidado de não levantar tais assuntos de novo.


Deus não era do meu interesse. Não que eu estivesse lutando contra ele; isso lhe daria importância demais! Ele certamente não merecia tanta atenção. Eu também não tinha sido educado num lar secular e ímpio. Na verdade, foi o contrário. Os meus pais tinham deixado os confortos da vida na Suíça para seguir o chamado imperativo de Deus para servi-lo como missionários. Não pense que a fé cristã deles era hipócrita ou uma mera fachada. Era uma fé vivida através de dificuldades, sacrifícios e provações; uma fé vigorosa e alegre fundada na Bíblia que nós, como uma família, constantemente líamos e meditávamos e que era para ser obedecida a qualquer custo. Era uma fé cheia dos sabores da vida e com o cheiro selvagem que surge da terra seca quando é subitamente encharcada pela copiosa chuva das primeiras águas do verão.


Eu admirava, eu respeitava, eu amava os meus pais. Não houve rebelião da minha parte contra eles, mas, no final das contas, a religião deles não era de meu interesse para a minha vida adulta. Para eles certamente era útil. Eu não precisava disso. Eu era autossuficiente. A intensidade dos meus sentimentos justificava a minha existência. Eu facilmente conseguiria viver sem o Deus deles. Não que eu fosse inteiramente livre da ansiedade. Mas tal ansiedade era uma parte integral da minha situação existencial, que era autossuficiente.


Em 1960 eu deixei a África do Sul, onde nasci, a fim de estudar História na Sorbonne. Quando eu deixei o país, eu estava na lista da polícia secreta e etiquetado como um comunista por ter expresso ousadamente minha indignação contra as flagrantes injustiças da minha terra natal. Mas eu nunca tinha sido tomado pelo absurdo reducionista do marxismo! Foi então que eu descobri a Paris que cativou a minha sede por luz, brilho e equilíbrio humano. Mas o encanto não durou muito. Rapidamente eu descobri que por trás do verniz dessa sociedade, que era tão justa na sua condenação do meu país, jazia uma concentração de corrupção, injustiça e indiferença com os homens, que, por contraste, fazia a África do Sul parecer um paraíso. Foi nessa época que aquele gnomo do Quartier Latin, Jean-Paul Sartre, ainda governava em Paris (e no mundo liberal) como a maior influência para sua mentalidade e maneiras. Pelo seu ensino e exemplo, ele estava acendendo, na própria pessoa do Pol Pot, por exemplo, os fogos de um novo genocídio socialista.


Junto com a exaltação dos meus sentimentos e do meu ego, também veio uma repugnância inevitável em relação a esse inferno que eram os “outros”, um horror para um mundo que estava para mim insoluvelmente apodrecido; um mundo onde o comportamento externo benevolente era nada mais do que uma fachada sorridente para ocultar todo tipo de corrupção. O bem estava ali, dentro de mim; o mal estava lá fora no mundo. Esta aversão foi fortalecida pela minha pesquisa, concentrada na história da colonização da bacia do Congo antes da Primeira Guerra Mundial. O Congo tinha sido entregue pelos poderes coloniais da França e da Bélgica para a liberdade administrativa total de empresas comerciais desimpedidas de qualquer restrição econômica, moral, jurídica ou política. O resultado da liberdade ilimitada de tal ganância radical foi bem chamada de O Coração das Trevas por Joseph Conrad que, como capitão de navio, viveu esse horror no rio Congo. Isso resultou numa barbaridade indescritível. Causou a morte de mais de cinco milhões de africanos conguenses, assim iniciando uma era de genocídio.


A minha indignação estava começando a dar as caras. De onde veio tal abdicação do poder político responsável? Como foi que esses poderes coloniais não confrontaram o impulso ilimitado e agressivo por lucros e dividendos ilimitados? De onde veio tal dicotomia entre ética e comércio, entre ética e política? Eu tive de retornar ao estudo da história antiga! Naquela época eu estava fazendo essa pesquisa com tal abandono selvagem que a minha tese se tornou academicamente inviável! O meu propósito maior era, agora, descobrir a fonte desse conflito sem misericórdia entre as duas civilizações que eu comecei a perceber como constitutivas de nossa velha Europa: por um lado, a realidade, pelo outro, a aparência; o fingimento total, o politicamente correto de toda era que, agora (em 1962), estava conquistando as nossas mentes pelos novos charmes da televisão, confrontado por outra visão: a da realidade temporal, moral e espiritual. Uma civilização fundamentada nas classes rurais da sociedade, as da antiga nobreza e dos artesãos e dos agricultores, oposta à civilização de um poder político, cultural e financeiro da corte subjazendo à fachada religiosa romanista que perseguia ferozmente o verdadeiro cristianismo. Eu descobri que o tempo tanto da Reforma quanto da Renascença como sendo um dos últimos grandes momentos na história europeia onde esses dois mundos, essas duas formas de civilização, se enfrentaram com uma paridade política quase idêntica.


Eu descobri, enquanto estudava os estilos, os modos de expressão desses dois mundos, que esse choque cultural tinha deixado sua marca na poesia daquela era. Pois essa luta também era entre duas estéticas: uma com sua ênfase colocada numa busca puramente formal pela beleza — em Petrarca, Ronsard, Malherbe e até (talvez) Racine; a outra onde um estilo complexo era usado, antes de tudo como a expressão mais forte da verdade, da forma mais impressionantemente adequada: Rutebeuf, Eustache Deschamps, François Villon, Theodore de Bèze, Agrippa d’Aubigné, La Fontaine e finalmente Molière. Mais recentemente também Louis-Ferdinand Céline. Esta busca pela verdade por meio de um estilo na literatura também me levou, no meu estudo dos escritores de prosa do século dezesseis, a descobrir como eles também contribuíram para a manifestação daquela estética dupla que eu estava tão incansavelmente explorando. Foi assim que eu me deparei com João Calvino: pelo estudo do estilo dele!

Foi aí então, numa tardinha de domingo na primavera do meio dos anos sessenta quando, ao esperar pelo trem junto com uma amiga (eu esperava me casar) na plataforma da estação de trem de Neuchâtel (a cidade onde eu estava ensinando numa Escola Comercial), que a minha vida perdeu o chão. Estávamos esperando pelo trem que iria levá-la para sua casa em Orbe. Tínhamos tido um dia alegre e pacífico. Mas num instante, tudo que eu era, tudo que eu tivera por tanto tempo, por tantos anos tão árduos, trabalhado por, foi por água abaixo. Num instante, eu subitamente perdi, no que me pareceu ser irremediável, a própria sensação de que eu existia. O sentimento da presença do meu corpo tinha me deixado. Eu toquei as minhas mãos, a minha cabeça, as minhas pernas … não tinha nada ali! Profundamente perturbada a minha amiga continuou a me perguntar: “cadê você?” Mas da mesma forma que Adão, depois de ter tomado do fruto do conhecimento do bem e do mal, não podia responder nem a questão que lhe foi posta por Deus, eu também só podia exclamar: “estou acabado, estou totalmente acabado!” Eu tinha tomado conta da minha própria morte, um fim definitivo e absoluto para a minha vida. Não podia sequer cogitar o suicídio, visto que a morte já tinha batido na minha porta. E nisso tudo não havia angústia, pois eu estava tomado por todo tipo de sentimento. Uma coisa foi deixada: uma visão mental friamente clara: “je suis foutu!”, “eu estou totalmente acabado”, era tudo que eu podia exclamar antes do trem levá-la.


Depois, muito depois, eu comecei a entender o que tinha acontecido ali na plataforma da estação de trem Neuchâtel. Deus, em sua misericórdia, tinha aberto as escamas dos meus olhos para eu ver o vazio da minha vida; ele tinha, num piscar de olhos, revelado a vacuidade total do meu orgulho ilimitado! Ele tinha me mostrado, na minha própria carne, que o fruto, que o salário do pecado sempre é a morte. Que, sem ele, eu estava, de fato, morto espiritualmente. Ele fez tal condição da minha morte presente assim fisicamente tangível para mim. Ele revelou essa ausência de sentido que eu via com tanto senso de horror nos outros, como estando, na realidade, exatamente na fonte da minha própria vida.

Mas a vida continua, mesmo para aqueles que descobrem que são mortos-vivos. O trem tinha partido e eu fui até meu aposento de sótão alugado de uma família italiana, logo acima dos jardins do Hôpital Pourtalès onde eu logo começaria a minha nova carreira. Foi ali, naquele pequeno sótão, que João Calvino estava à minha espera. Seu Tratado sobre Escândalos estava aberto na minha mesa onde eu tinha, no dia anterior, interrompido o estudo de seu estilo, sem saber que estava tão perto de cruzar a realidade da minha morte. A urgência impressionante deste texto; sua precisão e ritmo apaixonado e o humor de seu estilo, tudo isso serviu para carregar um argumento vigoroso e poderoso; isso me cativou. O livro estava aberto na minha mesa, mas agora não podia mais ser o estilo o que capturava a minha atenção. Era a mensagem bíblica que ele tão vigorosamente punha diante do leitor.


Contudo, a minha aniquilação existencial não me deixava escapar! Esse vão não tinha nem mesmo o consolo do desespero. Com a consciência fria de que a minha vida tinha acabado eu me sentei e li a página aberta. Essas palavras capturaram a minha atenção imediata. “Quem quer que, em angústia, clame a Deus, Deus nunca lhe abandonará”. Eu estava bem ciente de que Calvino estava aqui citando uma passagem de um Salmo. Mas esse texto da Palavra de Deus não me deixava escapar. Como, eu me perguntava, poderia Calvino escrever tal afirmação? Sim, eu cheguei, com um longo finalmente, a encontrar esse desespero. Mas eu me perguntei: “como pode um Deus inexistente preservar alguém da angústia e isso pela fé exatamente na inexistência dele?” Mas então eu pensei comigo mesmo: “Espere! Você não sabe de nada! Talvez o Deus de Calvino realmente exista no final das contas!” Seguindo o exemplo da famosa dúvida de Pascal, que eu, à época, nunca tinha ouvido falar, eu disse a mim mesmo: “se ele não existir, você não tem nada a perder. Mas se ele existir, você tem tudo a ganhar!” Então seguindo outro exemplo famoso, também desconhecido por mim, eu orei a oração desesperada de abandono, repetida em tantas noites de sexta por Charles de Foucauld na Igreja de São Sulpício em Paris, uma súplica dirigida por um pecador bem público a um Deus Santo e Todo-Poderoso, uma divindade totalmente inalcançável a nós por causa de nossos pecados. Com a cautela de alguém que agora tinha nada a perder, eu falei com total franqueza ao Deus em que eu não cria: “vamos ser bem claros! Eu não creio de jeito nenhum em você. Mas eu não sou onisciente! Se você realmente existir, o que eu fortemente duvido, não cabe a mim te encontrar. Cabe a você se mostrar a mim”.


Nosso Deus Misericordioso e Todo-Poderoso responde a tal fé, por mais rudimentar e incrédula que seja. Calvino testemunhou isso ao citar esse Salmo para os acadêmicos incrédulos de seu tempo: Deus salva, mesmo o mais desesperadamente perdido, por sua graça soberana e eficaz. Nada aconteceu, aparentemente. Eu continuei no meu estado de abatimento físico e espiritual por muitos meses. Mas, naquele momento, eu tinha passado do Mundo de pecado para o Reino da graça, daquele Império maligno onde Satanás reina sobre os homens perdidos para o Reino de Deus e do seu Cristo. Por quinze longos meses a convicção do meu pecado perante um Criador Santo e Justo continuou a crescer, até que eu, ao reler a Epístola aos Romanos, finalmente descobri, sendo uma supresa para mim, que a ira impetuosa de Deus, que eu tão justamente merecia, tinha, na cruz do Gólgota e para a minha redenção, caído sobre o amado Filho do Pai, o nosso Salvador e Senhor Jesus-Cristo, Deus feito homem, o único Mediador entre o Pai e os homens caídos, o santo Cordeiro de Deus que tira para nós o pecado do mundo.

Foi dessa forma que o único Deus verdadeiro, Criador dos céus e da terra, o Sustentador infalível de sua criação, o Senhor da história, o Legislador Soberano e Redentor de seu povo — a igreja que ele tinha comprado para si por meio do sacrifício de seu Filho na cruz —se manifestou a mim. Eu fiquei deslumbrado quando eu descobri que este Deus era digno de toda a minha confiança; e que na sua palavra escrita, a Bíblia, era verdadeira, e em cada parte minúscula, totalmente confiável.


É esse Deus que me levou a abandonar ambições acadêmicas excessivas, a trocar de profissões e reconstruir uma vida arruinada pelo pecado. Na minha condição incapacitada, eu não marquei uma consulta com um psiquiatra, mas trabalhei primeiramente por cinco anos como um jardineiro — uma maravilhosa reabilitação física e psíquica — e então por dez anos (um tempo em que Deus nos deu, a Rose-Marie e a mim, cinco filhos) como carregador de bagagens na estação de trem de Lausanne — um extraordinário campo missionário —, e hoje como carteiro. É este Deus que usou tais meios para pacientemente, pouco a pouco, renovar o meu pensamento a fim de conformar tanto a minha mente quanto a minha vida, em Cristo e pelo seu Espírito Santo, aos padrões infalíveis da sua Lei-Palavra. Eu devo à sua graça imutável o fato de que, agora, eu creio nele e, por meio dele, eu ainda estou vivo hoje. É este Deus que nos leva a trabalhar dia a dia na tarefa infindável de levar todos os nossos pensamentos e todas as nossas ações sob a obediência que devemos a seu Filho, nosso Senhor Jesus-Cristo. É ele, eu firmemente creio, que me guardará para a vida eterna.


Eu louvo a ele com todo o meu coração por sua obra tanto como Criador quanto como Redentor, uma obra de esplendor e magnificência sem igual. Somente a ele pertence toda honra e glória, ao único Deus, Pai, Filho e Espírito Santo. Amém!


O Conceito Dispensacionalista da Aliança

Segundo Scofield, “uma dispensação é um período de tempo durante o qual o homem é provado quanto à obediência a alguma revelação específica da vontade de Deus”. [1] Dando mais ampla explicação disso, diz ele na página 20 do seu folheto sobre a Correta Divisão da Palavra de Deus (Rightly Dividing the Word of Ttuth) :

“Cada dispensação pode ser considerada como uma nova prova do homem natural, e cada uma delas termina em juízo – assinalando o seu fracasso”. Toda dispensação tem suas próprias características, e é tão distinta das demais que não pode ser misturada com nenhuma delas. Geralmente se distinguem sete dispensações: as dispensações da inocência, do governo humano, da promessa, da lei, da graça e do reino. Em resposta à questão sobre se Deus é assim tão inconstante que precisou mudar a Sua vontade, a respeito do homem, sete vezes, Frank E. Gaebelein replica:

“Não é Deus que vacilou. Embora haja sete dispensações, em princípio são uma só, totalmente baseada na prova única da obediência. E se o homem fosse achado capaz de preencher as condições baixadas pela primeira dispensação, as outras seis seriam desnecessárias. Mas o homem falhou. Contudo, em vez de expulsar a Sua criatura culpada, Deus se compadeceu e o submeteu a nova prova sob novas condições.

Assim, cada dispensação termina com o fracasso do homem e, cada dispensação demonstra a misericórdia de Deus”. [2] Há sérias objeções a esse conceito. (a) A palavra dispensação (oikonomia), que é um termo bíblico (cf. Lc 16.2-4; 1 Co 9.17; Ef 1.10; 3.2, 9; Cl 1.25; 1 Tm 1.4), aqui é empregada num sentido antibíblico. A referida palavra indica mordomia, uma disposição ou uma administração, mas nunca um período de prova ou de experiência. (b) É evidente que as distinções são completamente arbitrárias. Já o patenteia o fato de que os próprios dispensacionalistas dizem que elas se sobrepõem

umas às outras. A segunda dispensação é chamada dispensação da consciência, mas, segundo Paulo, a consciência continuava sendo o inspetor dos gentios nos seus dias, Rm 2.14,15. A terceira é conhecida como dispensação do governo humano, mas o seu mandamento específico, que foi desobedecido e que, portanto, tornou o homem passível de julgamento, não foi o mandamento para governar o mundo em lugar de Deus – coisa da qual não há vestígio – mas o mandamento para encher a terra. A quarta recebe o designativo de dispensação da promessa e se supõe haver terminado

com a dádiva da lei, mas Paulo afirma que a lei não anulou a promessa e que esta continuava vigente nos seus dias, Rm 4.13-17; Gl 3.15-29. A dispensação da lei, assim chamada, está repleta de gloriosas promessas, e a dispensação da graça, assim chamada, não abrogou a lei como regra de vida. A graça só oferece escape da lei como condição de salvação (como ocorre na aliança das obras), da maldição da lei e da lei como poder suplementar. (c) De acordo com a descrição usual desta teoria, o homem está sempre em prova. Ele falhou na primeira prova e assim perdeu a recompensa da vida eterna, mas Deus se compadeceu dele e, por Sua misericórdia, deu-lhe nova oportunidade de experiência. Repetidos fracassos levaram a repetidas manifestações da misericórdia de Deus com a introdução de novas experiências que, todavia, mantiveram o homem em prova o tempo todo. Isto não é equivalente a dizer que Deus com justiça prende o homem natural à condição da aliança das obras – o que é perfeitamente verdadeiro – mas que Deus, com misericórdia e compaixão e, portanto, aparentemente para salvar o homem, dá-lhe oportunidade após oportunidade de satisfazer as condições sempre variantes e, assim, obter a vidaeterna pela prestação de obediência a Deus. Esta representação é contrária à Escritura, que não descreve o homem decaído como ainda em prova, mas como um completo fracasso, totalmente incapaz de prestar obediência a Deus, e absolutamente dependente da graça de Deus para a salvação. Bullinger, ele próprio um dispensacionalista, se bem que de um tipo algo diferente, está certo quando diz:

“O homem estava então (na primeira dispensação) no que se chama ‘sob prova'. Isso marca aquela administração aguda e absolutamente; pois agora o homem não está sob prova. Supor que está é uma falácia popular que fere a raiz das doutrinas da graça. O homem foi experimentado e provado, e provou que é uma ruína”. [3] (d) Esta teoria é também de tendência divisora, desmembrando o organismo da Escritura com resultados desastrosos. Segundo a teoria em foco, as partes da escritura que pertencem a uma das dispensações são dirigidas ao povo dessa dispensação e a mais ninguém, e só têm significação para esse povo. Significa, nas palavras de Charles C. Cook, “que no velho testamento não há uma única sentença que se aplique ao cristão como regra de fé e prática – nem um só mandamento que o obrigue, como também não há ali uma única promessa dada a ele em primeira mão,

exceto aquilo que está incluído na vasta corrente do plano de redenção, ali ensinado por meio de símbolos e profecias”. [4] Não significa, diz a teoria em apreço, que não podemos extrair lições do Velho testamento. A Bíblia está dividida em dois livros, o Livro do Reino, que compreende o Velho Testamento; e o Livro da Igreja, que consiste do restante do Novo testamento e é dirigido a nós. Desde que as dispensações não se misturam, segue-se que na dispensação da lei não há nenhuma revelação da graça de Deus, e na dispensação da graça, nenhuma revelação da lei no sentido de obrigar o povo de Deus do tempo do Novo testamento. Se o espaço no-lo permitisse, não nos seria difícil provar que esta posição é inteiramente insustentável.


Quando Martyn Lloyd-Jones foi rejeitado

Muitos dos que leem e são edificados com os livros do Dr. Martyn Lloyd-Jones hoje, não sabem o quanto ele foi rejeitado e isolado em seu ministério na Capela de Westminster. Não que o Dr. fosse alguém insociável, muito pelo contrário, quem o conheceu de perto sabia que ele era o tipo de cristão que ninguém queria sair de sua presença. Os que o rejeitavam, faziam isso porque ele não era o típico pastor modinha que negociava a Verdade do Evangelho em nome de uma cátedra entre os teólogos famosos de seu tempo.

Martyn Lloyd-Jones rejeitou apoiar as cruzadas de Billy Graham porque este colocava em seu púlpito teólogos liberais, católicos romanos, neo ortodoxos etc. Isso lhe gerou rejeição. Ele estava preocupado com a pureza da igreja de Cristo, não meramente com seu crescimento. Isso lhe gerou rejeição. Ele não seguia as tendências homilética da época. Isso lhe gerou rejeição. Ele pregava contra o pecado. Isso lhe gerou rejeição. Ele anunciava Cristo como único e suficiente Senhor e Salvador. Isso lhe gerou rejeição. Ele afirmava a inerrância bíblica, bem como sua inspiração como Palavra de Deus. Isso lhe gerou rejeição. Ele não fazia média com políticos que iam a Capela. Isso lhe gerou rejeição. Ele teve sérios embates com F.F.Bruce. Isso lhe trouxe rejeição. Também teve sérias discordâncias com Stott. Isso lhe cunhou rejeição.

Lloyd-Jones foi um homem rejeitado entre os grandes nomes da teologia de sua época. Foi um homem que produziu muito com suas pregações. Porém, a grandeza de seu ministério se tornou notória já no final de sua vida e após ela. Certa feita um jovem passou pela igreja de Stott, e Stott o perguntou: você conhece o Dr. Martyn Lloyd-Jones? O jovem respondeu: Sim, o conheço. Stott perguntou novamente: Você o segue? O rapaz respondeu: Não, eu não o sigo. Então Stott emendou: Pois eu o sigo. Poucos, como Stott, tinham o Dr. em alta conta e sabiam do seu valor para a Igreja de Cristo no século XX.

Esta rápida história sobre o Dr. Lloyd-Jones nos ensina que nosso foco nunca deve estar em sermos aceitos ou não, mas sim em sermos fiéis ao Evangelho de Cristo. Enquanto muitos de seu tempo buscavam relevância, ele simplesmente pregava fielmente as Escrituras. Enquanto inúmeros buscavam a fama eclesiástica, ele simplesmente ensinava as Escrituras ao seu povo. É nisso que devemos empenhar nossa vida e ministério, pregar fielmente as Escrituras. A tendência inicial é sofremos rejeição. Há um ódio no coração mundano contra a pregação fiel. No entanto, esse trabalho todo germinará e dará os seus frutos para a glória de Deus, ainda que não estejamos mais aqui. Spurgeon dizia: “Não espere ser bem aceito num mundo que rejeitou o seu Senhor”. Apenas prega a Palavra!



O Escândalo do Pecado

O pecado domina o coração humano, e se fosse pela sua vontade, condenaria cada alma. Se não compreendermos nossa própria perversidade ou não enxergarmos nosso pecado como Deus o vê, não poderemos entendê-lo ou fazer uso do remédio contra ele. Aqueles que tentam justificá-lo, negligenciam a justificação de Deus.

Até compreendermos quão totalmente repugnante nosso pecado é, nunca poderemos conhecer a Deus.

O pecado é abominável a Deus. Ele o odeia (cf. Dt 12.31). “Tu és tão puro de olhos, que não podes ver o mal e a opressão não podes contemplar…” (Hc 1.13). O pecado é contrário à sua própria natureza (Is 6.3; 1 Jo 1.5). A pena máxima – a morte – é exigida para cada infração contra a lei de Deus (Ez 18.4,20; Rm 6.23). Até a menor transgressão é digna da mesma pena severa: “Pois qualquer que guarda toda a lei, mas tropeça em um ponto, se torna culpado de todos” (Tg 2.10).

O pecado suja a alma. Ele rebaixa a dignidade da pessoa. Obscurece o entendimento. Torna-nos piores que animais, pois os animais não podem pecar. Polui, corrompe, suja. Todo pecado é vulgar, repulsivo e revoltante aos olhos de Deus. A Bíblia o chama de imundícia (Pv 30.12; Ez 24.13; Tg 1.21). O pecado é comparado ao vômito, e os pecadores são os cães que voltam ao seu próprio vômito (Pv 26.11; 2 Pe 2.22). O pecado é chamado de lamaçal, e os pecadores são os porcos que rolam nele (Sl 69.2; 2 Pe 2.22). O pecado é semelhante ao cadáver em putrefação, e os pecadores são os túmulos que contêm o malcheiro e a sujeira (Mt 23.27). O pecado transformou a humanidade em uma raça poluída e imunda.

As terríveis conseqüências do pecado incluem o inferno, sobre o qual Jesus disse: “E, se a tua mão direita te faz tropeçar, corta-a e lança-a de ti; pois te convém que se perca um dos teus membros, e não vá todo o teu corpo no inferno” (Mt 5.30). As Escrituras descrevem o inferno como um lugar terrível e medonho onde pecadores são “ atormentados com fogo e enxofre… ” e “A fumaça do seu tormento sobe elos séculos dos séculos, e não têm descanso algum, nem de dia nem de noite, os adoradores da besta e da sua imagem e quem quer que receba a marca do seu nome” (Ap 14.10,11). Essas verdades se tornam mais alarmantes ainda quando percebemos que são parte da Palavra inspirada de um Deus de infinita misericórdia e graça. Deus quer que entendamos a excessiva pecaminosidade do pecado (Rm 7.13). Não ousemos encará-lo com leviandade ou rejeitar nossa própria culpa frivolamente. Quando encaramos o pecado como ele é, é nosso dever odiá-lo. As Escrituras vão até mais fundo que isso: “Ali, vos lembrareis dos vossos caminhos e de todos os vossos feitos com que vos contaminastes e tereis nojo de vós mesmos , por todas as vossas iniqüidades que tendes cometido” (Ez 20.43, ênfase acrescentada). Em outras palavras, quando verdadeiramente vemos o que o pecado é, longe de obter

auto-estima, nós nos desprezaremos.

A natureza da depravação humana O pecado penetra no mais íntimo do nosso ser. Como vimos no capítulo anterior; o pecado está no âmago da alma humana. “Porque do coração procedem mausdesígnios, homicídios, adultérios, prostituição, furtos, falsos testemunhos,

blasfêmias. São estas coisas que contaminam o homem” (Mt 15.19,20). “O homem bom do bom tesouro do coração tira o bem, e o mau do mau tesouro tira o mal; porque a boca fala do que está cheio o coração” (Lc 6.45). No entanto, o pecado não é uma fraqueza ou um vício pelo qual não somos responsáveis. É um antagonismo ativo e intencional contra Deus. Os pecadores livre e prazerosamente optam pelo pecado. Está na natureza humana amar o pecado e odiar a Deus. “O pendor da carne é inimizade contra Deus” (Rm 8.7). Em outras palavras, o pecado é rebeldia contra Deus. Os pecadores raciocinam no próprio coração: “Com a língua prevaleceremos, os lábios são nossos; quem é o Senhor sobre nós?” (Sl 12.4, ênfase acrescentada). Isaías 57.4 caracteriza os pecadores como crianças rebeldes que abrem sua enorme boca e mostram a língua para Deus. O pecado destronaria Deus, o destruiria e colocaria o ego no seu lugar de

direito. Todo pecado é, em último caso, um ato de orgulho, que diz: “Dê o lugar, Deus, eu estou no comando”. Por isso é que todo pecado, no seu âmago, é uma blasfêmia.

Para começar, amamos nosso pecado; temos prazer nele, buscamos oportunidades para praticá-lo. No entanto, por sabermos instintivamente que somos culpados diante de Deus, inevitavelmente tentamos camuflar ou negar nossa própria pecaminosidade. Há muitas maneiras de fazer isso, como observamos nos capítulos anteriores. Elas podem ser resumidas, grosso modo, a três categorias: encobri-lo, justificar-nos e ignorá-lo. Primeiro, tentamos encobrir o pecado : Adão e Eva fizeram isso no Jardim, depois de ter pecado: “Abriram-se, então, os olhos de ambos; e, percebendo que estavam nus, coseram folhas de figueira e fizeram cintas para si” (Gn 3.7) – então se esconderam da presença do Senhor (v.8). O rei Davi tentou em vão encobrir sua culpa quando pecou contra Urias. Ele tinha adulterado com a esposa de Urias, Bate-Seba. Quando ela ficou grávida, primeiro Davi tramou um plano tentando fazer parecer que Urias era o pai da criança (2 Sm 11.5-13). Quando o plano não funcionou, ele conspirou para que Urias fosse morto (vs.14-17). Isso somente agravou o seu pecado. Durante todos os meses da gravidez de Bate-Seba, Davi continuou encobrindo o seu pecado (2 Sm 11.27). Mais tarde, quando Davi foi confrontado com seu pecado, ele se arrependeu e confessou: “Enquanto calei os meus pecados, envelheceram os meus ossos pelos meus constantes gemidos todo o dia. Porque a tua mão pesava dia e noite sobre mim, e o meu vigor se tornou em sequidão de estio” (Sl 32.3,4). Segundo, tentamos nos justificar : O pecado é sempre culpa de alguém. Adão culpou Eva, e a descreveu como “a mulher que me deste” (Gn 3.12; ênfase acrescentada). Isso mostra que ele também culpava a Deus. Ele não sabia o que era uma mulher até acordar casado com uma! Deus, raciocinou ele, era o responsável pela mulher que o vitimizou. Da mesma maneira, nós nos desculpamos pelos nossos erros porque pensamos que a culpa é de outra pessoa. Ou argumentamos ter um bom motivo. Convencemos a nós mesmos que é correto retribuir o mal com o mal. (cf. Pv 24.29; 1 Ts 5.15; 1 Pe 3.9). Ou então pensamos que se os motivos finais são bons, o mal pode ser justificado – raciocínio errado de que os fins justificam os meios (Rm 3.8). Chamamos o pecado de desequilíbrio, rotulamos a nós mesmos de vítimas ou negamos que os nossos atos sejam pecaminosos. A mente humana é de uma criatividade sem-fim quando se trata de encontrar mecanismos para justificar o mal.

Terceiro, ignoramos nosso próprio pecado : Sempre pecamos por ignorância ou presunção. Por isso Davi orou: “Quem há que possa discernir as próprias faltas? Absolve-me das que me são ocultas. Também da soberba guarda o teu servo, que elanão me domine; então, serei irrepreensível e ficarei livre de grande transgressão” (Sl 19.12,13). Jesus nos advertiu sobre a loucura de tolerar uma trave nos nossos olhos e nos preocuparmos com um argueiro no olho do outro (Mt 7.3). Pelo fato de o pecado ser tão difuso, nós naturalmente tendemos a nos tornar insensíveis ao nosso próprio pecado, do mesmo modo que o gambá não é incomodado pelo seu próprio mau cheiro. Até mesmo uma consciência supersensível pode não saber todas as coisas (cf. 1 Co 4.4).

O pecado não se expressa necessariamente por atos. Atitudes pecaminosas, disposições pecaminosas, desejos pecaminosos e um estado pecaminoso de coração são tão repreensíveis quanto as ações que ele produz. Jesus disse que a ira é tão pecaminosa quanto o homicídio, e a concupiscência tanto quanto o adultério (Mt 5.21-28).

O pecado é de tal maneira enganoso que torna o pecador insensível contra sua própria perversidade (Hb 13.3). É natural desejarmos minimizar nosso pecado, como se ele não fosse de fato uma grande coisa. Afinal de contas, dizemos a nós mesmos, Deus é misericordioso, não é? Ele compreende nosso pecado e não pode ser tão duro conosco, não é mesmo? Mas raciocinar dessa maneira é deixar-se ludibriar pela astúcia do pecado.

O pecado, de acordo com as Escrituras, é “a transgressão da lei” (1 Jo 3.4). Em outras palavras, “aquele que pratica o pecado também transgride a lei, porque o pecado é a transgressão da lei”. Pecado, portanto, é qualquer falta de conformidade com o perfeito padrão moral de Deus. A exigência central da lei de Deus é que o amemos: “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todas as tuas forças e de todo o teu entendimento” (Lc 10.27). Sendo assim, a falta de amor a Deus é a epítome de todo pecado.

Mas “o pendor da carne é inimizade contra Deus, pois não está sujeito à lei de Deus, nem mesmo pode estar” (Rm 8.7). Nossa aversão natural à lei é tal que mesmo sabendo o que a lei requer, ela suscita em nós uma ânsia pela desobediência. Paulo escreveu: “as paixões pecaminosas postas em realce pela lei… eu não teria conhecido o pecado, senão por intermédio da lei; pois não teria eu conhecido a

cobiça, se a lei não dissera: Não cobiçarás” (Rm 7.5-7). A inclinação do pecador pelo pecado é tal que este o controla. Ele é escravo do pecado, porém o busca com uma fome insaciável e com toda paixão do seu coração.


Os Custos de Seguir a Jesus

Quando falamos sobre “custo” nos referimos à capacidade que temos de calcular perdas e ganhos visando uma tomada de decisão. Entendo por “decisão” toda e qualquer situação em que, não importa qual seja a escolha, haverá perdas e ganhos. Nesse caso, calcular o custo é tomar consciência do que vamos perder e ganhar numa determinada decisão.

No fundo, as pessoas calculam custos o tempo todo, pois sempre estão decidindo. Isso é assim mesmo quando não decidem. Afinal, “não decidir” também é uma decisão e, como toda decisão, ela tem perdas e ganhos.

O discipulado como ato de seguir a Jesus é uma decisão. Portanto, tem um custo. Qual é o seu custo? Em Lucas 14.25-35, Jesus responde essa pergunta.

25 Uma grande multidão o acompanhava; e ele, voltando-se na direção dela, disse: 26 Se alguém vier a mim, e amar pai e mãe, mulher e filhos, irmãos e irmãs, e até a própria vida mais do que a mim, não pode ser meu discípulo. 27 Quem não leva a sua cruz e não me segue, não pode ser meu discípulo. 28 Pois qual de vós, querendo construir uma torre, não se senta primeiro para calcular as despesas, para ver se tem como acabá-la? 29 Para não acontecer que, depois de haver posto os alicerces, e não a podendo acabar, todos os que a virem comecem a zombar dele, 30 dizendo: Este homem começou uma construção e não conseguiu terminá-la. 31 Ou qual é o rei que, antes de entrar em guerra contra outro rei, não se senta primeiro para consultar se com dez mil pode ir de encontro ao que vem contra ele com vinte mil? 32 Mas, pelo contrário, enquanto o outro ainda está longe, manda emissários e pede condições de paz. 33 Assim, todo aquele dentre vós que não renuncia a tudo quanto possui não pode ser meu discípulo. 34 O sal é bom; mas, se ele se tornar insípido, com que se há de restaurar-lhe o sabor? 35 Não serve nem para a terra, nem para adubo, mas é jogado fora. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.

Com base nesse texto, o ato de seguir a Jesus pressupõe três demandas:

  • um certo tipo de amor (v. 26);

  • um certo tipo de sofrimento (v. 27);

  • um certo tipo de desapego (v. 33).

1. O custo do amor

Se alguém vier a mim, e amar pai e mãe, mulher e filhos, irmãos e irmãs, e até a própria vida mais do que a mim, não pode ser meu discípulo. (Lc 14.26)

A primeira demanda do discipulado é o amor. Não o amor em geral, mas um amor específico. Pessoas podem amar a Deus como se ele fosse de barro ou de metal, ou como mais uma pessoa importante que disputa nossa atenção em relação aos outros. Quando isso acontece — de alguém amar a Deus como se ele fosse meramente mais uma coisa entre outras ou mais uma pessoa entre outras — Deus não está sendo priorizado. Ele é apenas mais um item na agenda. O verdadeiro discípulo ama a Jesus como Deus, isto é, acima da família e da sua própria vida.

Quando amamos nossa família mais do que a Deus, nossa família não é amada como deveria ser. Na verdade, quando isso acontece, ela é amada no lugar de Deus. Ela se torna um ídolo que controla toda a nossa vida e agenda. Portanto, o discipulado requer que Cristo seja o centro e isso terá um custo principalmente se nossa família, bens ou nós mesmos ocuparem a centralidade do nosso coração.

2. O custo do sofrimento

Quem não leva a sua cruz e não me segue, não pode ser meu discípulo. (Lc 14.27)

Qual era o significado de “carregar sua cruz” para os primeiros discípulos que ainda não tinham visto Jesus carregar a cruz onde ele seria crucificado? Para eles, a cruz era símbolo de rejeição e humilhação. O sujeito que carregava uma cruz tinha sido banido da sociedade, porque era considerado uma ameaça para todos. Ele deveria ser eliminado, mas não sem antes passar por um doloroso processo de humilhação e sofrimento. “Carregar sua cruz” revela que o discipulado de Jesus implica a convivência em um mundo hostil ao evangelho, em uma cultura que rejeita seus ensinos e, por conseguinte, seus discípulos. Por isso, para evitar o enfrentamento dessa rejeição natural ao discipulado de Jesus, podemos resignificar a cruz, minimizar o poder confrontador do evangelho, maquiar a Bíblia e nossas igrejas locais para que um pseudocristianismo seja aceito pela cultura, para que sejamos recebidos nas diversas esferas da sociedade, sem “cara feia”, sem sermos tachados de fanáticos, fundamentalistas e, porque não, de loucos. Quando desprezamos a demanda do sofrimento inerente ao discipulado, forjamos uma cruz para nós mesmos.

3. O custo do desapego

A terceira demanda desfere o último golpe. Trata-se de um golpe fatal em nossa dependência de todas as coisas que criam em nós um vínculo de pertencimento ao mundo. Os vínculos com as coisas que possuímos são potencialmente a razão pela qual muitos são incapazes de seguir a Jesus. O objetivo do discipulado é nos conduzir para o reino de Cristo, transformando-nos em peregrinos nesse mundo, libertando-nos da crença de que somos o que possuímos e que temos o domínio sobre nossa família, nossas coisas e até sobre nós mesmos.

Por essa razão, o discipulado é um movimento que deve começar com rendição e submissão a Jesus e sua Palavra. Os discípulos de Jesus são como plantas que foram removidas com raízes de sua cultura egocêntrica e que, em seguida, foram transplantadas para a cultura cristocêntrica do reino de Deus.

Jesus tem a supremacia. Ele é o rei a quem devemos nos render e perder nele todos os vínculos que nos fazem acreditar que somos senhores de nós mesmos e de tudo a nossa volta.

A advertência de Jesus é precisa: aquele que for incapaz de amar a Cristo acima de tudo, de sofrer por causa de Jesus e seu ensino e de desvincular-se de tudo o que o prende nesse mundo, jamais poderá ser seu discípulo.

Artigo adaptado do livro O Custo do Discipulado: a doutrina da imitação de Cristo, de Jonas Madureira.


A Regeneração Precede a Fé

por: R.C. Sproul

Um dos momentos mais dramáticos em minha vida, na formação de minha teologia, ocorreu em uma sala de aula de um seminário. Um de meus professores foi ao quadro negro e escreveu estas palavras em letras garrafais:

A REGENERAÇÃO PRECEDE A FÉ

Aquelas palavras foram um choque para o meu sistema. Eu tinha entrado no seminário crendo que a obra principal do homem para efetivar o novo nascimento era a fé. Eu pensava que nós tínhamos que primeiro crer em Cristo, para então nascermos de novo. Eu uso as palavras "para então" aqui por uma razão. Eu estava pensando em termos de passos que deviam ocorrer em uma certa seqüência. Eu colocava a fé no princípio. A ordem parecia algo mais ou menos assim: "Fé - novo nascimento -justificação."

Eu não tinha pensado sobre esse assunto com muito cuidado. Nem tinha atentado cuidadosamente às palavras de Jesus a Nicodemus. Eu presumia que mesmo sendo um pecador, uma pessoa nascida da carne e vivendo na carne, eu ainda tinha uma pequena ilha de justiça, um pequeno depósito de poder espiritual remanescente em minha alma para me capacitar a responder ao Evangelho sozinho. Possivelmente eu tinha sido confundido pelo ensino da Igreja Católica Romana. Roma, e muitos outros ramos do Cristianismo, tem ensinado que a regeneração é graciosa; ela não pode acontecer aparte da ajuda de Deus.

Nenhum homem tem o poder para ressuscitar a si mesmo da morte espiritual. A divina assistência é necessária. Esta graça, de acordo com Roma, vem na forma do que é chamado graça preveniente. "Preveniente" significa que ela vem antes de outra coisa. Roma adiciona a esta graça preveniente o requerimento de que devemos "cooperar com ela e assentir diante dela", antes que ela possa atuar em nossos corações. Esta concepção de cooperação é na melhor das hipóteses uma meia verdade. Sim, a fé que exercemos é nossa fé. Deus não crê por nós. Quando eu respondo a Cristo, é a minha resposta, minha fé, minha confiança que está sendo exercida. O assunto, contudo, se aprofunda. A questão ainda permanece: "Eu coopero com a graça de Deus antes de eu nascer de novo, ou a cooperação ocorre depois?" Outro modo de fazer esta pergunta é questionar se a regeneração é monergista ou sinergista. Ela é operativa ou cooperativa? É eficaz ou dependente? Algumas destas palavras são termos teológicos que requerer maior explanação.

MONERGISMO E SINERGISMO

Uma obra monergística é uma obra produzida por uma única pessoa. O prefixo mono significa um. A palavra erg refere-se a uma unidade de trabalho. Palavras como energia são construídas com base nessa raiz. Uma obra sinergística é uma que envolve cooperação entre duas ou mais pessoas ou coisas. O prefixo sun significa "juntamente com". Eu faço esta distinção por um razão. O debate entre Roma e Lutero foi travado sobre este simples ponto. A questão era esta: A regeneração é uma obra monergística de Deus ou uma obra sinergística que requer cooperação entre homem e Deus? Quando meu professor escreveu "A regeneração precede a fé" no quadro negro, ele estava claramente tomando o lado da resposta monergística. Depois de uma pessoa ser regenerada, esta pessoa coopera pelo exercício de sua fé e confiança. Mas o primeiro passo é a obra de Deus e de Deus tão-somente. A razão pela qual não cooperamos com a graça regeneradora antes dela agir sobre nós e em nós é que nós não podemos. Não podemos porque estamos mortos espiritualmente. Não podemos assistir o Espírito Santo na vivificação de nossas almas para a vida espiritual, da mesma forma

que Lázaro não podia ajudar Jesus a ressuscitá-lo dos mortos. Quando comecei a lutar com o argumento do Professor, fiquei surpreso ao descobrir que o estranho som de seu ensino não era novidade. Agostinho, Martinho Lutero, João Calvino, Jonathan Edwards, George Whitefield - até o grande teólogo medieval Tomás de Aquino ensinaram esta doutrina. Tomás de Aquino é o Doctor Angelicus da Igreja Católica Romana. Por séculos seu ensino teológico era aceito como dogma oficial pela maioria dos Católicos. Então, ele era a última pessoa que eu esperava sustentar tal visão da regeneração. Todavia

Aquino insistiu que a graça regeneradora é uma graça operante, e não uma graça cooperativa. Aquino falou da graça preveniente, mas ele falou de uma graça que vem antes da fé, que é a regeneração. Estes gigantes da história Cristã derivaram a visão deles das Sagradas Escrituras. A frase chave na Carta de Paulo aos Efésios é esta: "estando nós ainda mortos em nossos delitos, nos vivificou juntamente com Cristo (pela graça sois salvos)" (Efésios 2:5). Aqui Paulo localiza o tempo em que a regeneração ocorre. Ela ocorreu "quando estávamos ainda mortos". Com um único raio de revelação apostólica foram

esmagadas, total e completamente, todas as tentativas e entregar a iniciativa na regeneração aos homens. Novamente, homens mortos não cooperam com a graça. A menos que a regeneração ocorra primeiro, não há possibilidade de fé. Isso não diz nada de diferente do que Jesus disse a Nicodemus, A menos que um homem nasça de novo primeiro, ele não pode ver ou entrar no reino de Deus. Se nós cremos que a fé precede a regeneração, então nós colocamos nossos pensamentos, e, portanto, nós mesmos, em direta oposição não só aos gigantes da história Cristã, mas também ao ensino de Paulo e do nosso próprio Senhor Jesus Cristo.



O Poder através da Oração

PODER ATRAVÉS DA ORAÇÃO

E. M. Bounds

“A oração feita por um justo pode muito em seus efeitos. Elias era homem sujeito às mesmas paixões que nós, e, orando, pediu que não chovesse, e, por três anos e seis meses, não choveu sobre a terra. E orou outra vez e o céu deu chuva, e a terra produziu o seu fruto” (E.R.C.).

Tiago 5:16-18


1 – O CANAL DIVINO DE PODER

Estuda a santidade universal da vida. Disso depende a tua utilidade plena, pois teus sermões duram apenas uma ou duas horas; mas tua vida prega durante toda a semana. Se Satanás puder transformar um ministro cobiçoso em amante de louvor, de prazer, de iguarias, terá arruinado o seu ministério. Entrega-te à oração e obtém os teus temas, os teus pensamentos e as tuas palavras de Deus. Lutero empregava as suas melhores três horas em oração.

— Robert Murray McCheyne

Estamos constantemente empenhados, senão obcecados, em arquitetar novos métodos, novos planos e novas organizações para fazer a Igreja progredir e assegurar a divulgação e a eficiência do Evangelho.

Essa direção hodierna tem a tendência de perder a visão do homem ou afogar o homem no plano ou na organização. O plano de Deus é usar o homem e usá-lo muito mais do que qualquer outra coisa. Homens são o método de Deus. A Igreja está procurando métodos melhores; Deus está buscando homens melhores. “Houve um homem enviado por Deus cujo nome era João” (Jo. 1:6). A dispensação que anunciou e preparou o caminho de Cristo, estava confiada àquele homem, João: “Um menino nos nasceu, um filho se nos deu” (Is. 9:6). A salvação do mundo se originou naquele Filho ainda menino. Paulo traz à luz o segredo do êxito dos homens que arraigaram o Evangelho no mundo quando pôs em relevo o caráter pessoal desses homens. A glória e a eficiência do Evangelho dependem dos homens que o proclamam. Quando Deus declara que “quanto ao Senhor, Seus olhos passam por toda a terra, para mostrar-se forte para com aqueles cujo coração é perfeito para com Ele” (II Cr. 16:9), declara a necessidade de homens e o fato de Deus depender de homens que sejam canais por meio dos quais exerça Seu poder sobre o mundo.

Essa verdade vital e urgente é o que esta era das máquinas tende a esquecer. Esquecê-la é funesto para a obra de Deus como seria desastroso se o sol desaparecesse da abóboda celestial. Seguir-se-iam trevas, confusão e morte.

O que hoje a Igreja necessita não é de mais e melhor maquinismo, de novas organizações ou mais e novos métodos, mas homens a quem o Espírito Santo possa usar — homens de oração, homens poderosos na oração. O Espírito Santo não se derrama através dos métodos, mas por meio dos homens. Não vem sobre maquinaria, mas sobre homens. Não unge planos, mas homens — homens de oração.

Um eminente historiador disse que os acidentes do caráter pessoal têm mais a ver com as revoluções das nações do que os historiadores, filósofos ou políticos democráticos o reconhecem. Essa verdade tem aplicação plena ao Evangelho de Cristo, ao caráter e à conduta dos seguidores de Cristo — Cristaniza o mundo e transforma nações e indivíduos. Em relação aos pregadores do Evangelho, é eminentemente verdadeiro.


Tanto o caráter como o sucesso do Evangelho estão confiados ao pregador. Ele faz ou desfaz a mensagem de Deus ao homem. O pregador é o canal de ouro pelo qual o óleo divino flui. O canal deve ser não só dourado, mas também aberto e sem rachaduras, para que o óleo flua bem, sem obstáculo e sem desperdício.

O homem faz o pregador. Deus deve fazer o homem. O mensageiro é, se possível, mais do que a mensagem. O pregador é mais que o sermão. O pregador faz o sermão. Como o leite nutridor do seio materno é a própria vida materna, de igual modo tudo o que o pregador diz está matizado e impregnado daquilo que o pregador é. O tesouro está nos vasos de barro e o sabor do vaso nele se impregna e pode descorá-lo. O homem, o homem todo, jaz atrás do sermão. A pregação não é tarefa de uma hora. É a manifestação de uma vida. É preciso vinte anos para fazer um sermão, porque são necessários vinte anos para formar o homem. O verdadeiro sermão é uma obra de vida. O sermão evoluiu porque o homem se desenvolveu. O sermão é poderoso, porque o homem tem poder. O sermão é santo, porque o homem é santo. O sermão está cheio de unção divina, porque o homem está cheio de unção divina.

Paulo denominou-se “Meu Evangelho”; não que o tenha degradado por suas excentricidades pessoais ou desviado por apropriação egoísta, mas o Evangelho foi colocado no coração e no sangue do homem Paulo, como uma responsabilidade pessoal, para ser executada pelas peculiaridades paulinas, a fim de trazê-lo em chamas e impulsioná-lo pela ígnea energia da sua alma ardente. Os sermões de Paulo — que eram eles? Onde estão eles? Esboços, fragmentos esparsos, flutuando no mar da inspiração! Mas, o homem Paulo, maior que os seus sermões, vive para sempre, em plena forma, figura e estatura com sua mão modeladora sobre a Igreja. A pregação é apenas uma voz. A voz silencia, o tema é esquecido, o sermão apaga-se da memória; no entanto, o pregador vive.

O sermão não pode elevar-se em suas forças vívificadoras acima do homem. Homens mortos tiram de si sermões mortos e sermões mortos matam. Tudo depende do caráter espiritual do pregador. Sob a dispensação judaica, o sumo sacerdote trazia um frontal de ouro com a inscrição “Santidade ao Senhor” em letras engastadas de jóias. De igual modo, todo o pregador no ministério de Cristo deve ser moldado e dominado por essa mesma divisa sagrada. É uma vergonha berrante para o ministério cristão estar abaixo do sacerdócio judaico na santidade de caráter e na santidade de objetivo. Jonathan Edwards disse: “Eu continuei com minha busca intensa de mais santidade e conformidade com Cristo. O céu que eu desejava era o céu de santidade”.

O Evangelho de Cristo não é movido por ondas comuns. Não tem o poder de autopropagação. Move-se como se movem os homens que tomaram o encargo disso. O pregador deve personificar o Evangelho. As características divinas e mais salientes do Evangelho devem estar nele incorporadas. O poder do amor, que constrange, tem que estar no pregador como uma força relevante, excêntrica, que o domina todo e o faz esquecer-se de si mesmo. A energia da abnegação própria tem que constituir seu ser, coração, sangue e ossos. Ele deve seguir avante entre os homens como homem, revestido de humildade, cheio de brandura, prudente como a serpente, simples como a pomba; reunindo em si a sujeição de um escravo e o espírito de um rei, um rei de figura nobre, real e independente, e a simplicidade e doçura de uma criança.

O pregador tem de lançar-se a si mesmo, com todo o abandono de uma fé perfeita e esvaziada de si e dum zelo que o consome, à sua obra pela salvação dos homens. Sinceros, heróicos, compassivos e intimoratos mártires têm que ser os homens que conquistam a geração e a moldam para Deus. Se são escravos do tempo, oportunistas, agradadores de homens, se têm respeito humano, se sua fé em Deus e Sua Palavra tem pouca profundidade, se sua abnegação pessoal é quebrada por qualquer fase do “eu” ou do mundo, não podem tomar conta nem da Igreja nem do mundo para Deus.

A pregação mais penetrante e forte do pregador deveria ser feita a si mesmo. Sua obra mais difícil, delicada, laboriosa e radical deve ser consigo. A instrução dos doze foi a grande, difícil e paciente obra de Cristo. Os pregadores não são produtores de sermões, mas formadores de homens e de santos e só quem fez de si mesmo um homem e um santo está bem instruído para essa obra. Não é de grandes talentos, de grandes estudos ou de grandes pregadores que Deus necessita, mas de homens grandes em santidade, grandes em fé, grandes em amor, grandes em fidelidade, grandes para Deus — homens que pregam sempre por meio de sermões santos no púlpito e por meio de vidas santas fora do púlpito. Esses podem moldar uma geração para Deus.

Os primeiros cristãos foram formados segundo esse princípio. Eram homens de sólida formação, pregadores conforme o tipo celestial — heróicos, rijos, militantes e santos. Para eles, a pregação significa uma obra de auto-abnegação, de autocrucificação, séria, árdua, e de mártir. Aplicaram-se a ela de tal modo que influíram na sua geração e formavam no seu seio uma geração que haveria de nascer para Deus. O pregador deve ser homem de oração. A oração é a mais poderosa arma do pregador. É em si mesmo uma força onipotente e dá vida e força a tudo.

O sermão real é feito no recinto secreto. O homem — o homem de Deus — é formado no recinto secreto. Sua vida e suas mais profundas convicções nascem da sua comunhão secreta com Deus. Suas mensagens mais ricas e doces são alcançadas quando está a sós com Deus. A oração faz o homem; a oração faz o pregador; a oração faz o pastor.

O púlpito de hoje é pobre em oração. O orgulho da erudição opõe-se à humilde dependência da oração. A oração do púlpito é por demais oficial — um desempenho na rotina do culto. Para o púlpito moderno, a oração não é mais a força poderosa como o era na vida e no ministério de Paulo. Todo pregador que não faz da oração um poderoso fator em sua própria vida e ministério é fraco como agente no trabalho de Deus e impotente para fazer prosperar a Sua causa neste mundo.

2 – NOSSA CAPACIDADE VEM DE DEUS

Mas acima de tudo, ele sobressaiu na oração. A profundidade e a gravidade do seu espírito, a reverência e a solenidade das suas maneiras e comportamento, a raridade e a plenitude das suas palavras impressionaram muitas vezes até os estranhos e estes se admiraram como essas coisas traziam consolo aos outros. O quadro mais imponente, vivo e reverente que jamais senti ou contemplei, devo dizer, foi a sua oração. E verdadeiramente ela era um testemunho. Conheceu e viveu mais perto do Senhor do que qualquer outro, porque aqueles que O conhecem mais, têm maior razão para aproximar-se dEle com reverência e temor.

— William Penn a respeito de George Fox

As bênçãos mais doces, por uma leve perversão, podem produzir o mais amargo fruto. O sol dá vida, mas as insolações matam. Prega-se para dar vida, mas se pode obter morte. O pregador possui as chaves: tanto para fechar como para abrir. A pregação é uma grande instituição divina para a semeadura e o amadurecimento da vida espiritual. Quando convenientemente executada, seus benefícios são incalculáveis; quando erroneamente realizada, nenhum mal pode superar seus resultados danificadores. É fácil destruir o rebanho, se o pastor for incauto ou o pasto for destruído; é fácil capturar a fortaleza, se as sentinelas estiverem adormecidas ou o alimento e a água forem envenenados. Investido de tais graciosas prerrogativas, exposto a tão grandes males, envolvendo tão numerosas e graves responsabilidades, seria uma caricatura da astúcia do diabo e um libelo contra seu caráter e reputação, se este não empenhasse suas influências mestras para adulterar o pregador e a pregação. Em face de tudo isto, a exclamação de Paulo “para estas coisas quem é idôneo?” (II Co. 2:16) não está fora de propósito.

Paulo diz: “A nossa capacidade vem de Deus, o qual nos fez também capazes de ser ministros dum novo testamento, não da letra, mas do espírito, porque a letra mata e o espírito vivifica” (II Co. 3:5,6). O verdadeiro ministério é ungido por Deus, capacitado por Deus e formado por Deus. O Espírito de Deus está sobre o pregador, ungindo-o de poder, o fruto do Espírito está no seu coração, o Espírito de Deus vitaliza o homem e a palavra; sua pregação dá vida, concede vida como a primavera desperta vida; dá vida como a ressurreição dá vida; outorga vida ardente como o verão dá vida ardente; dá vida frutífera como o outono dá vida frutífera. O pregador que ministra vida é um homem de Deus, cujo coração tem sempre sede de Deus, cuja alma está buscando a Deus constante e intensamente, cujos olhos estão postos só em Deus e em quem, pelo poder do Espírito de Deus, a carne e o mundo foram crucificados e seu ministério é como a corrente abundante de um rio que dá vida.

A pregação que mata não é uma pregação espiritual. A capacidade de tal pregação não vem de Deus. Fontes inferiores e não Deus lhe deram energia e estímulo. O Espírito não se manifesta nem no pregador nem na pregação. Muitas espécies de forças podem ser projetadas e estimuladas por uma pregação que mata, mas elas não são forças espirituais. Podem assemelhar-se às forças espirituais, mas são meramente sombras e falsificações; podem parecer que têm vida, mas essa vida é mentira. A pregação que mata é da letra; pode ter bela forma e ordem, mas continua a ser letra, letra rude e seca, casca nua e vazia. A letra pode ter nela o gérmen da vida, mas não tem a aragem da primavera para despertá-la; são sementes do inverno, tão duras quanto o solo hibernal, tão gélidas como o ar de inverno, e por elas não se derretem nem germinam.

A pregação da letra contém a verdade. Mas, ainda que verdade divina, sozinha não possui energia vivificante; deve ser revigorada pelo Espírito, com todas as forças divinas em seu apoio. A verdade que não for vivificada pelo Espírito de Deus, embota tanto quanto ou mais do que o erro. Pode ser uma verdade sem mistura; mas, sem o Espírito, o seu matriz e o seu toque são mortais; sua verdade, erro; sua luz, trevas. A pregação da letra não é ungida nem suavizada nem lustrada com óleo pelo Espírito. Pode haver lágrimas; lágrimas, porém, não podem pôr em movimento a maquinária de Deus; as lágrimas podem ser apenas uma brisa de verão sobre um “iceberg” coberto de neve, só derrete a superfície e nada mais. Podem haver emoção e ardor, mas é a emoção de um ator e ardor de um advogado. O pregador pode sentir o entusiasmo do seu próprio brilhantismo, ser eloqüente sobre sua própria exegese, ardente para transmitir o produto de seu próprio cérebro; o professor pode usurpar o lugar e imitar o fogo de um apóstolo; cérebros e nervos podem tomar o lugar e simular a obra do Espírito de Deus, e com estas forças a letra pode irradiar luz e brilhar como um texto iluminado, mas o brilho e a centelha serão tão destituídos de vida como o campo semeado de pérolas. Um elemento mortal jaz atrás das palavras, do sermão, da ocasião, dos modos, da ação.

O maior obstáculo está no próprio pregador. Não traz em si mesmo as forças poderosas que produzem vida. Pode não haver desconto na sua ortodoxia, honestidade, pureza ou ardor; mas, de algum modo, o homem, o homem interior, no íntimo, nunca se quebrantou e sujeitou a Deus; sua vida interior não é uma grande via para a transmissão da mensagem de Deus, do poder divino. De alguma forma, é o ego e não Deus quem governa o santo dos santos. Em algum lugar sem que disso tenha consciência, algum elemento espiritual incondutível tocou no seu interior e a corrente divina foi detida. Seu ser interior nunca sentiu o quebrantarnento espiritual completo, sua total incapacidade; nunca aprendeu a clamar com um clamor indizível de desespero de si mesmo e impotência própria, até que venha o poder de Deus e o fogo divino o encha, purifique e torne capaz. O amor-próprio e a aptidão própria, de alguma forma pecaminosa, profanaram e violaram o templo que devia estar consagrado a Deus.

A pregação vivificante custa muito ao pregador: morte do ego, crucificação para o mundo, iluminação da própria alma. Só a pregação crucificada pode dar vida. E a pregação crucificada só pode vir de um homem crucificado.


3 – O EXERCÍCIO MAIS NOBRE DO HOMEM

Dur